Por Que Eu Quase Tive Um Ataque Vendo A Órfã

Ninguém desconfia de lindas crianças bem-educadas. Ninguém desconfia. "A Órfã" é o filme que vai mudar a forma como encara algumas certezas e pôr em causa seu ceticismo; este suspense visceral é o convite para noites mal-dormidas, desesperos repentinos e repulsa ao belo. E por isso é magnífico!



01_Orfa_Poster_do_Filme_01.jpg Cartaz do filme "A Orfã".

Se você espera um filme com longas pausas para reflexão, com diálogos filosóficos, com personagens visionários, então não assista "A orfã", pois não é um filme feito para você. Eu, que costumo ver filmes para depois tentar aplicar alguma teoria sociológica, não estou nem um pouco a fim de fazer deste filme um objeto de análise deste tipo. Deste tipo

Um aviso: este texto conta muito sobre o filme. Se quiser desfrutar da surpresa de todo o bom filme de terror, sugiro que veja primeiro o filme, e só depois leia o texto!

02_Olha_que_gracinha_Voce_pensou_eu_sei_que_voce_pensou_02.jpg Olha que gracinha! Você pensou, eu sei que você pensou!.

03_Kate_a_mae_ex_alcoolatra_03.jpg Kate, a mãe ex-alcoolatra.

Pequena e descomprometida sinopse

Após pesadelos com a morte de um dos filhos durante o parto, Kate, mãe também de Daniel, menino crescido provavelmente com 10/11 anos, e de Max, menina anda pequena que sofre de problemas auditivos, adota uma criança para substituir o filho perdido.

04_Daniel_o_irmao_mais_velho_04.jpg Daniel, o irmão mais velho.

05_Max_a_filha_mais_nova_05.jpg Max, a filha mais nova.

O filme, dirigido por Jaume Collet-Serra, se desenrola com o relacionamento de Esther, a menina linda, doce e delicada, adotada num convento de freiras, mas que, por coincidência, sempre estava em locais de acidentes. De acordo com a Irmã responsável pela adoção, Esther se salvou de um incêndio, onde toda a família morrera - toda sua história é muito sinistra.

O filme pulsa

Admito, "A Órfã" é um suspense que te faz suar, que te faz prender a respiração. Putz, como não seria assim? Se trata de uma garotinha que sai por aí matando as pessoas! Sua irmã, que presencia atos brutais, só consegue se comunicar por língua de sinais, além de precisar utilizar aparelhos auditivos, portanto, não consegue dedurar a irmã adotiva; a mãe adotiva é ex-alcoólatra, quase matou seus filhos enquanto estava chapada. Sorte que o pai, John, estava por perto e os salvou no último segundo.

Todo o micro-universo do filme é propício a uma calculista assassina mirim (!). Enquanto ela trabalha em seus planos maléficos, intimida seu irmão e faz de sua irmãzinha uma cúmplice forçada. Ela consegue armar tudo sistematicamente. Ea quase uma Carminha, só que com 1 metro e vinte de altura e do leste europeu.

06_Esse_olhar_macabro_imagine_06.jpg Esse olhar macabro. Imagine!

O filme é todo ele recheado de cenas manjadas, do espelho que, quando fecha, aparece o assassino, só que tudo ao contrário. Eu explico: todas as manhas, todos os truques, todas as sacadas, todas elas nos levam até o limite – na hora em que seu coração vai pular pra fora, no momento em que você vai colocar as mãos nos olhos, quando você sente que a vilãzinha mau-caráter vai pular EM VOCÊ, nada acontece... E isso é MARAVILHOSO!

No decorrer do filme nós ficamos sabendo que, na verdade, Esther tem 33 anos, uma doença hormonal que a faz parecer criança e um histórico podre em um hospital psiquiátrico – ela sempre se fazia passar por criança e, em sua última adoção, quando não conseguiu seduzir o pai, matou toda a família. Entretanto, antes de saber disso, vemos o mesmo acontecer com John, vemos ela tentar seduzir John e ficamos completamente desnorteados: como uma menina de 9 anos consegue, além de ser tão eloquente e tão etiquetosa, seduzir um adulto? Que édipo tão explícito é esse?

07_O_momento_de_Furia_07.jpg O momento de fúria!.

É tudo muito surreal até o desenrolar do núcleo da história. Até sabermos que a garota tem 33 anos, muita coisa rola sem parar e freneticamente. Desde a morte da freira que providenciou sua adoção, à morte de John, até as sucessivas tentativas de matar Daniel.

Uma coisa fica clara, Esther surtou nos dois momentos em que foi rejeitada pelo pai. Nos dois momentos em que se retirou do papel de criança e se colocou no papel de adulta, quando ela finalmente tentou satisfazer sua sexualidade – o que, provavelmente, pelo que o filme mostra, ela nunca fez – ela foi rejeitada. Não por não ser boa o bastante, nada disso. Ela foi rejeitada porque é uma criança.

Não é difícil imaginar que seus surtos se relacionam de alguma forma com a impossibilidade de satisfazer uma pulsão tão forte quanto a sexual. Não quero analisar a personagem, mas o filme é bem rígido quanto a isso: Esther estava no que Laing chama de posição insustentável – ao mesmo tempo que não conseguia se adaptar a uma gama de obrigações (ser criança, se comportar como criança), também não conseguia se livrar desta posição (a sua vida em sociedade dependia de interpretar uma criança - mas havia uma vontade sexual que não combinava com a imagem de uma criança). Dá para imaginar que isto faria qualquer um explodir.

Em suma, eu não queria fazer um texto longo e arrastado – o filme me fez sentir que isso não funcionaria; não que não haja conteúdo, mas há algo um pouco mais significativo: o filme pulsa, voa, soca o seu estômago. O filme não é o primor da sétima arte, mas ele funciona. O filme funciona, te assusta, te faz sentir medo e prender a respiração – assista!

vinicius siqueira

tem seu interesse fixado em sociologia francesa e psicanálise freudiana. Ainda é um estudante, mas quem não é?
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