Primus: Entre o bizarro, o visceral e o técnico

O bom, o feio, o ruim e o erudito parecem não ter diferença quando se trata do som do Primus. Com três instrumentistas virtuosos, grande variedade de técnicas e uma sonoridade única, o grupo não só consegue renovar o gênero do funk metal, como criar uma mistura exótica e original. Com isso, não é exagero dizer que seu trabalho configura entre os mais criativos da indústria musical.


01_Les_Claypool_01.jpg © "Primus" - Les Claypool (foto de: Caitlyn Ridenour).

Graças a nomes como Jaco Pastorius, Stanley Clarke, Larry Graham e Geddy Lee, o contrabaixo deixou de ser visto como uma mera ferramenta de acompanhamento e passou a ter destaque melódico. Podendo ser comparado a um experiente senhor quarentão, cuja voz grave conduz o som de uma banda pelos melhores caminhos melódicos, a importância deste instrumento foi construída por vários músicos de diferentes tipos e formações. Bem, considere um baixista capaz de unir uma gama notável de características na sua performance, solar e construir bases complexas ao mesmo tempo que canta. Some a ele um guitarrista virtuoso e criativo e um baterista técnico e preciso. Sim, esta banda existe - e atende pelo nome de Primus.

É conhecido pela crítica por ser um trio difícil de classificar; seu estilo é considerado funk metal. A fórmula do grupo é praticamente a mesma desde que surgiu em 1984 em El Sobrante, Califórnia: slaps e acordes intrincados do baixo de Les Claypool, encaixados a batidas cheias de contratempos e marcações com guitarras de linhas soladas e marcantes. Quando o primeiro álbum, "Frizzle Fry" (1990), foi lançado na formação oficial com o baterista Jay Lane e o guitarrista Larry Lalonde, algo no mínimo inovador surgiu. Arranjos instrumentais viscerais e técnicos embalavam fábulas bizarras cantadas pela voz estranha do baixista. E este era só o começo.

02_Jay_Lane_02.jpg © "Primus" - Jay Lane (foto de: Caitlyn Ridenour).

03_Larry_Lalonde_03.jpg © "Primus" - Larry Lalonde (foto de: Caitlyn Ridenour).

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Com as batidas pesadas, psicodélicas e cheias de groove do primeiro disco, músicas como "Mr. Knowitall", "Harold of the Rocks" e "John the Fisherman" começaram a marcar a cena americana independente e chamar a atenção do mundo. Não demorou até que Primus repetisse a dose com "Sailing the Seas of Cheese" (1991) e se consolidasse como algo realmente importante. Até o fim da década seriam mais quatro álbuns: "Pork Soda" (1993), "Tales from Punchbowl" (1995), "Brown Album" (1997) e "Antipop" (1999). Neste meio tempo, fizeram sucesso com músicas como "Tommy the Cat", "Jerry was a Racecar Driver", "Winona Big Bown’s Beaver" e "Lacquerhead". Em 2000 a banda parou e demorou mais de 10 anos até gravar "Green Naugahyde" (2011).

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Mas independentemente do hiato, hoje o trio é cultuado e continua atual. Muito disto vem graças ao contrabaixo quase sobrenatural da banda, que sempre se destaca com técnicas como tappings, ghost notes e solos. Junto com as já referenciadas guitarras e baterias permeadas de variações estão as histórias de acontecimentos estranhos - histórias de pescadores, caipiras assassinos e degradação humana. Tudo parte do universo criativo de Les Claypool que, apesar de muitas vezes cantar e falar errado e carregado de sotaque, em suas canções possui grande uma cultura e eloquência.

Tudo bem, após todas estas informações pode-se afirmar que este artigo está tendencioso e parcial, apenas em prol do contrabaixista do grupo. Mas verdade seja dita, nada disto teria sido escrito sobre ele se não fossem seus dois companheiros de palco. A prova está em suas apresentações ao vivo, onde durante várias músicas acontecem jam sessions de pura improvisação, mostrando um grande conhecimento e competência dos três instrumentos. Sem esta química, Claypool não conseguiria alternar entre quatro e seis cordas, colocar efeitos sonoros diferentes e usar não só o seu contrabaixo, mas violoncelos e whamolas, entre outros.

Com este currículo, Primus é um representante fiel de um estilo ousado e original. Para quem não está familiarizado com as legiões de fãs que hoje gritam em coro “Primus Sucks” durante seus shows, é importante saber de uma coisa. Apesar de todo o virtuosismo e de percorrer o caminho aberto por grandes nomes do contrabaixo, Les Claypool e sua trupe sempre fizeram questão de dizer o quanto eram ruins desde o começo de sua carreira. Com tal mantra pessoal funcionando, eles provaram que às vezes a psicologia reversa é o melhor remédio.


jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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