Something`s Got to Give: o último filme de Marilyn

Something's Got to Give é simplesmente o mais famoso filme não terminado da história do cinema. A última produção em que Marilyn Monroe trabalhou, antes de morrer, não é passível de uma classificação menor que esta. Durante os 50 anos que separam 1962 dos dias atuais, centenas de livros e documentários foram rendidos à tarefa de revelar os bastidores da sua produção, uma das mais turbulentas do cinema hollywoodiano. Estrelando Marilyn Monroe, Dean Martin e Cyd Charisse.


01_Marilyn_in_something_s_got_to_give_01.jpg Marilyn Monroe em "Something's Got To Give" (1962).

Em 1962, a 20th Century-Fox precisava mais do que nunca de Marilyn Monroe. Infelizmente, ela - também mais que do nunca - não podia corresponder às expectativas dos executivos. Para entender melhor porque Marilyn era tão necessária para a Fox, é preciso relembrar o período em que esta história ocorreu. Naquela época, os executivos da Fox estavam desesperados, porque a companhia estava francamente à beira da bancarrota. O motivo era Cleópatra (1963), o filme mais caro da história, estrelado por Elizabeth Taylor. O problema não era, de longe, o salário que Taylor ganharia pelo filme - um milhão de dólares (ela seria a primeira atriz de Hollywood a receber tal quantia por um filme); mas sim os inúmeros atrasos da produção, causados pelas diversas enfermidades que acometeram a atriz - que esteve à beira da morte em certos momentos - e pelos dias de trabalho perdido. O orçamento inicial, que era de dois milhões de dólares, ao longo da produção, mais que quintuplicou no final das filmagens, deixando a 20th Century-Fox no vermelho. E este foi o momento em que o estúdio mais precisou de Marilyn Monroe.

Pelo contrato assinado com ela em 1956, a atriz ainda devia mais um filme à companhia, que eles deixaram para cobrar em 1962. Monroe foi a maior estrela que a Fox já tivera, perdendo apenas para Shirley Temple, nos anos 30. Durante os mais de 10 anos em que permaneceu contratada pela Fox, Monroe foi a estrela mais rentável do estúdio - uma verdadeira mina de ouro. Seus filmes foram sucessivamente campeões de bilheteria. Exemplos: os clássicos Os Homens Preferem as Loiras (Gentlemen Prefer Blondes, 1953); Como Agarrar um Milionário (How to Marry a Millionaire, 1953); ou O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1959). Portanto, nada mais óbvio que recorrer ao capital gerado pelo próximo filme dela para cobrir o prejuízo estratosférico causado pelo épico filmado em Roma. Infelizmente, as coisas não se mostrariam assim tão fáceis para a Fox, nem para Marilyn Monroe.

Something's Got to Give seria um remake - de orçamento moderado - do sucesso de 1940, Minha Esposa Favorita (My Favorite Wife), estrelado por Cary Grant e Irene Dunne. De fato, era uma história bastante requentada. A trama narrada era, em sua essência, bastante simples. Ellen Arden (Monroe), uma fotógrafa, mãe de duas crianças pequenas, se perdeu no mar do Pacífico. Anos depois, ela foi declarada legalmente morta e seu esposo Nick (Dean Martin), se casou novamente; ele e sua nova esposa, Bianca (Cyd Charisse), estão em lua de mel quando Ellen, que ficou perdida numa ilha deserta por cinco anos, é resgatada e finalmente volta para casa. Ao chegar em casa, o cachorro da família se lembra dela, mas as crianças, não. No entanto, eles começam a gostar dela e a convidam para ficar. Ellen adota um sotaque estrangeiro e finge ser uma mulher chamada Ingrid Tic. Nick, perturbado pela revelação de estar casado com duas mulheres, faz um grande esforço para esconder a verdade de sua nova esposa e se desvencilhar das investidas amorosas de Ellen.

02_Marilyn_in_something_s_got_to_give_02.jpg Marilyn Monroe em "Something's Got To Give" (1962).

Desde o início de sua produção, Something's Got to Give já estava fadado ao fracasso; basta analisar a série de problemas que surgiram desde a pré-produção. Para começar, cinco roteiristas haviam trabalhado no guião até chegar ao texto final de Walter Bernstein. O caos era tanto que a produção já havia estourado o orçamento inicial antes mesmo de as filmagens começarem. Por cláusula de contrato, Marilyn escolhia o diretor e o seu co-protagonista. Ela escolheu George Cukor e Dean Martin; definitivamente, Cukor foi uma péssima escolha. Ele era um diretor renomado e famoso, já havia dirigido 11 das 10 maiores estrelas de Hollywood; Marilyn sabia que ele era um bom profissional, já havia trabalhado com Cukor em outro filme - Adorável Pecadora (Let's Make Love, 1960) - que, por sinal, ela detestou fazer. Porém, mesmo com todos os bons antecedentes de Cukor, Monroe também sabia que ele era um diretor que tinha pouquíssimo apreço por ela, desaprovando completamente o seu comportamento.

Em 1962, suas forças já estavam se esgotando. Sua vida estava um caos, sua saúde debilitada. Marilyn estava decadente, definitivamente atormentada. Atuar num filme era a última coisa que poderia fazer; o cinema não a salvaria da ruína emocional. O estúdio estava ciente disso, mas sequer imaginava recuar em sua posição. Para tanto, convocou três médicos para permanecerem no set todos os dias - um otorrinolaringologista, um clínico geral e um psiquiatra. Quem dera eles pudessem fazê-la gravar. Naquele momento, tudo parecia conspirar contra ela. Em 23 de abril, primeiro dia de produção, Marilyn telefonou a Henry Weinstein - produtor do filme - avisando que não compareceria ao estúdio, alegando uma sinusite. E assim sucedeu pelo resto do mês. Marilyn Monroe não compareceu ao set de Something's Got to Give nos primeiros 16 dias de filmagem. Atribuiu a culpa à febre, bronquite, vírus, insônia, entre outras mazelas. O elenco - e todos mais envolvidos na produção - não demorou a perceber que aquele filme não seria terminado de jeito nenhum.

03_Marilyn_in_something_s_got_to_give_03.jpg Marilyn Monroe em "Something's Got To Give" (1962).

Entretanto, em 10 de abril, Monroe havia comparecido ao estúdio para um teste de figurino, cabelo e maquiagem. Ela havia perdido mais de 10 quilos antes de aparecer para os testes. Estava belíssima, esbelta, jovial e animada. Aos 35 anos de idade, exibia seus fabulosos cabelos loiros platinados e uma nova forma estonteante. Marilyn parecia ter rejuvenescido dez anos. Durante horas, desfilou as criações do figurinista Jean Louis; brincava sorridente em frente as câmaras, parecia mais feliz do que nunca. Era uma mulher deslumbrante, sua alegria era verdadeiramente contagiante. O teste, incluído no documentário Marilyn Monroe: The Final Days (2001), tornou-se uma das lembranças mais bonitas e recorrentes de Something's Got to Give.

Surpreendentemente, apesar de todos os reveses enfrentados por Monroe, ela dava o melhor de si mesma quando aparecia para gravar. Pelo menos, o resultado final na tela parece excelente. De fato, estava mais bonita, mais madura, mais atraente. É de espantar a vitalidade que mostrava nas telas, mesmo quando sua vida pessoal se tornara um pandemônio. E mesmo com todos os problemas que enfrentava com George Cukor, ele conseguiu produzir algumas cenas maravilhosas. Seguramente, ela se arrependeu de tê-lo escolhido como diretor. Cukor não respeitava Marilyn. Obrigava ela a repetir várias vezes as mesmas cenas; muitas delas desnecessárias, ridículas. Como aquela em que Monroe interagia com um cachorro. Insistia na presença dela até mesmo em cenas em que deveria ser filmada de costas, quando sua dublê poderia exercer essa função. Se Marilyn ia ao estúdio e cooperava, Cukor podia ter utilizado seu tempo de uma maneira muito melhor. Mas não soube aproveitá-lo: perdia tempo filmando cenas menores, inúteis, que tinham pouca importância na narrativa do filme. Todos viviam em permanente estado de tensão no set.

A situação - que já era calamitosa - ficou ainda pior quando Marilyn voou para Nova York em 17 de maio, para cantar na festa de aniversário do presidente John F. Kennedy. Naquele momento, Marilyn desobedecia às decisões dos executivos da Fox, que pouco antes haviam revogado a decisão de permitir que ela comparecesse na festa. Bom, com ou sem permissão dos executivos, Marilyn abandonou as filmagens, deixando todo o elenco e produção do filme chocados. A situação parecia ir de mal a pior progressivamente.

04_Marilyn_in_something_s_got_to_give_04.jpg Marilyn Monroe em "Something's Got To Give" (1962).

Quando voltou a Los Angeles, Monroe deveria retornar ao trabalho no set de Something's Got to Give, mas, ironicamente - naquela manhã, dia 29 de maio - Dean Martin estava resfriado e ela achou que, se pegasse o vírus dele, não poderia trabalhar pelo resto da semana. Portanto, ficou em casa. No dia seguinte, Marilyn retornou ao estúdio para fazer uma inédita cena de nudez na piscina. Foi a primeira vez que uma atriz norte-americana fazia aquilo. O plano original era vesti-la com uma segunda pele, porém, ela logo preferiu fazer a cena nua. O set de filmagens foi devidamente fechado, permanecendo nele apenas o pessoal necessário para a filmagem. No entanto, como queria dar ao filme um boom de publicidade, Monroe requisitou a presença de alguns fotógrafos e, depois de concluir a cena, foi fotografada com a parte de baixo do biquíni e também sem ela. O fotógrafo Lawrence Schiller lembrou anos depois que ela estava decidida a 'tirar Liz Taylor das capas de revistas'. E naquela semana as famosas fotografias correram o mundo, estampando as capas das maiores revistas de notícias e variedades. Se Something's Got to Give tivesse sido completado e estreado nos cinemas, Marilyn Monroe teria sido a primeira diva hollywoodiana da era sonora a aparecer nua em filme. Contudo, a façanha coube a Jayne Mansfield, no filme de 1963 Promises! Promises!

A 1 de junho de 1962, Marilyn Monroe completou 36 anos de idade. Era o seu último aniversário, e seria comemorado com um bolo - que a deixou muito feliz - no set de filmagens. Aquele seria seu último dia no estúdio. Mais tarde, ela deixou a festa na companhia do ator Wally Cox, pois tinha de comparecer a um evento beneficente no Dodger Stadium naquele noite. Estava acompanhado do ex-marido, Joe DiMaggio, e do filho do seu co-protagonista em Something's Got to Give, Dean Paul Martin.

Na segunda-feira, dia 4 de junho, o produtor Henry Weinstein recebeu uma ligação de Marilyn, dizendo que não ia trabalhar porque tinha piorado da sinusite. Quando voltou ao estúdio, na terça-feira, estava num péssimo estado, incapaz de filmar. A situação então se tornou insustentável; de qualquer maneira, presumiu-se que ela não teria condições de poder continuar o bom trabalho que vinha fazendo. Por outro lado, a Fox estava endividada demais para sustentar os caprichos de uma estrela que não cooperava na produção do filme - bem, pelo menos, era assim que eles viam a situação. De qualquer maneira, era o fim para ela. Em 8 de junho, a companhia demitiu Monroe do filme e ainda a processou em meio milhão de dólares.

05_Marilyn_in_something_s_got_to_give_05.jpg Marilyn Monroe em "Something's Got To Give" (1962).

Contudo, Marilyn não estava disposta a se dar por vencida tão facilmente. Era uma atriz extremamente midiática e naquele momento - mais do que nunca - precisava mostrar a todos que ainda estava viva, que ainda era Marilyn Monroe. Rapidamente, sucedendo à notícia da sua demissão, ela se entregou a uma verdadeira maratona de entrevistas e sessões de fotos. Se sentia traída e humilhada pelo estúdio, mas chegou a enviar telegramas ao elenco pedindo desculpas e expressando sua vontade de retornar à produção em breve. Em sua última entrevista, dada ao jornalista Richard Merryman da revista Life - publicada em 3 de agosto, apenas dois dias antes de sua morte - ela foi bem concisa com relação ao que sentia pela Fox: "Acho que quando se é famoso, toda fraqueza é exagerada. A indústria devia se comportar como uma mãe cujo filho correu na frente de um carro. Mas, em vez de abraçar seus filhos, eles os castigam. É como se não pudéssemos ousar ficar resfriados. Os executivos podem se resfriar e ficar em casa para sempre, mas um ator, resfriado? Que atrevimento! Ninguém se sente pior do que alguém que está doente. Gostaria que tivessem de atuar numa comédia, com febre e virose. Não sou uma atriz que vai para o estúdio apenas para demonstrar disciplina. Isso não tem nada a ver com arte. Eu gostaria de ser mais disciplinada com meu trabalho. Mas estou lá para representar, não para ser disciplinada no estúdio! Afinal, não estou na escola militar. Isso deve ser uma forma de arte, não uma linha de produção. A sensibilidade que me faz atuar também me faz reagir. Um ator deve ser um instrumento sensível. Isaac Stern cuida muito bem do seu violino. E se todo mundo maltratasse o seu violino?".

06_Something_s_got_to_give_Hair_test_06.jpg Marilyn Monroe em "Something's Got To Give", num teste de penteado (1962).

O estúdio decidiu substituí-la pela atriz Lee Ramick. Porém, Dean Martin, por cláusula contratual, tinha de aprovar sua co-protagonista no filme; e ele se recusou a continuar sem Marilyn Monroe. Sem saída, a Fox teve de ceder e mandou chamá-la de volta. Em 1 de agosto, ela assinou um contrato de um milhão de dólares com a companhia - muito mais do que os cem mil que ganharia inicialmente pelo filme. Apesar disso, ela teria de fazer mais dois filmes para a Fox. Monroe só aceitou retornar àquela produção com a condição de que o diretor George Cukor fosse substituído por Jean Negulesco, que a havia dirigido em Como Agarrar um Milionário. As filmagens de Something's Got to Give deveriam recomeçar em outubro. No entanto, infelizmente, Marilyn Monroe faleceu na madrugada do dia 5 de agosto de 1962, e o trabalho não foi mais retomado depois de sua morte.

Em 1963, a 20th Century-Fox retomou o projeto do filme abortado, com Doris Day, James Garner e Polly Bergen nos papéis que eram de Marilyn Monroe, Dean Martin e Cyd Charisse, respectivamente; e com um novo nome - Eu, Ela e a Outra (More Over, Darling). Este filme, dirigido por Michael Gordon e que estreou no natal de 1963, utilizou alguns dos cenários abandonados de Something's Got to Give, e ainda figurinos e penteados de Doris Day, semelhantes aos usados por Monroe. Entretanto, o roteiro era mais parecido com o do filme original de 1940.

07_marilyn_monroe_in_a_costume_test_for_something_s_got_to_give_07.jpg Marilyn Monroe em "Something's Got To Give" num teste de figuração (1962).

Em abril de 1963, a Fox estreou um documentário de longa-metragem chamado Marilyn, que mostrava alguns testes de tela e cenas de Something's Got to Give em que ela atuava. Foi a primeira e única vez por décadas que o público pode ver qualquer filmagem do filme não terminado. Durante anos pensou-se que nada mais havia restado dele, mas, em 1982, em meio à bagunça de um galpão de estúdio, foram descobertas oito caixas de filmes sem edição, alguns com as cores desbotadas, mas bons o bastante para uso. Somando aproximadamente nove horas de filmagem - em grande parte jamais vista - o material permaneceu guardado nos cofres da 20th Century-Fox até 1999, quando foi restaurado digitalmente pela Prometheus Entertainment e montado em um segmento de 37 minutos para o documentário Marilyn: The Final Days, sobre os últimos meses de vida da atriz, incluindo sua carreira e vida pessoal. Foi exibido pela primeira vez em 1 de junho de 2001, dentro da tevê norte-americana, no dia em que Marilyn Monroe completaria 75 anos de idade.

08_marilyn_monroe_in_a_costume_test_for_something_s_got_to_give_08.jpg Marilyn Monroe em "Something's Got To Give" num teste de figuração (1962).

09_marilyn_monroe_in_a_costume_test_for_something_s_got_to_give_09.jpg Marilyn Monroe em "Something's Got To Give" num teste de figuração (1962).


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