Documentário: a realidade como farsa

Longe do sentido burlesco e teatral da farsa, o documentário "Terra deu, Terra come" traz no suporte audiovisual realista uma proposta de composição entre a simulação e a noção de verdade.


01_Documentario_a_realidade_como_farsa_Still_07_01.jpg © VideoFilmes / 7Estrelo Filmes.

Todos os dias somos obrigados a mascarar, a encenar e a se equilibrar entre a realidade que vivemos e a verdade que gostaríamos de ter. São adaptações e mutações, a cada cena do cotidiano. Para alguns o eixo dessa verdade está no amor ou na religiosidade, para outros está na contemplação ou na luxúria, e outros ainda buscam na cocaína ou na novela das 8 esse elemento estabilizador. Arthur Rimbaud indicou o trabalho como uma “velha verdade”. Ele também definiu o nosso dia a dia como uma “farsa contínua”, e a sua frase em Uma Estação do Inferno concluiu: "A vida é uma farsa que toda a gente se vê obrigada a representar".

Vencedor em 2010 do Festival É Tudo Verdade, o filme se baseia em histórias e fatos do sertão de Minas Gerais e arranca dúvidas enquanto memória e representação. O artifício em que o documentário se tornou é a transposição caracterizada atualmente pela mídia. Entre tantos teóricos, Consuelo Lins e Cláudia Mesquita já se debruçaram na tentativa de compreender o que acontece quando se quer filmar o “real”. Diretores e autores criam uma dúvida que desestabiliza a beatificação que as imagens conseguiram no nosso cotidiano, onde tudo se legitima perante uma imagem/cena televisionada ou fotografada. Um trecho do livro Filmar o Real aponta: “Uma premissa simples descartada pela maior parte das produções midiáticas, talvez por conter possibilidades de evidenciar para o espectador o fato de que ele pode, sim, ser manipulado a todo instante, de que não há nada nas imagens que garanta sua veracidade ou autenticidade, de que tudo pode ser simulado, e que saber disso já é um bom ponto de partida para compreender melhor o que se passa à nossa volta”.

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O público de Terra deu, Terra come não é privado de sua imagem-real, mas é convidado para uma experiência de indagações onde constantemente o personagem-real Pedro e seus familiares estão encarando uma “dramaturgia espontânea” a cada caso, história, cantoria e costume registrado pelas câmeras; como a cena de brincadeira com uma máscara. Eles se propuseram ao jogo cênico e tudo o que se vê é ao mesmo tempo a realidade ambígua documental-ficcional, que é naturalmente conduzida pelo diretor.

O encontro entre o diretor Rodrigo Siqueira e Pedro de Alexina, um conhecedor das tradições africanas na região do Quartel do Indaiá ( comunidade e remanescente de quilombo), expôs uma experiência antropológica de aproximação e encontro com raízes formadoras. No material de divulgação do filme o diretor confessa: “Pedro me levou a um lugar onde o sertão mineiro encontra a África de séculos atrás, onde a morte encontra a vida e onde Deus e o “Outro” coexistem todo o tempo”. 

O documentário registra um ritual fúnebre conduzido por Pedro, embasado no dialeto banguela (criado na junção de línguas dos povos africanos que viveram na região e do português), do qual sobraram algumas cantigas de trabalho e de rituais fúnebres, conhecidas como vissungos.

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A criação de uma fábula visual brasileira é conduzida pelo contador de histórias Pedro de Alexina abrangendo (e provocando) a morte, rememorando as perdas e ganhos dos tempos do garimpo e as lembranças da escravidão. As cantigas entoadas por Pedro serviam como trilha diária e ditavam as noites iluminadas pela lua e pelo lampião. A forma oral contida em Pedro, e na sua legítima resistência sócio-cultural, traz ao documentário diversos exemplos de condução de nosso dia a dia. Lições que trazem poesia e imaginação para a realidade que queremos, e que se coloca bem distante da lição de moral das fábulas infantis que aparentemente padronizaram algumas vidas.

Terra Deu, Terra Come - Trailer from rodrigo siqueira on Vimeo.

Uma história à parte: cineclubes

O documentário tem um capítulo à parte que vale destaque e que pode servir de inspiração para outros produtores independentes. Apenas 9% dos municípios brasileiros possuem salas de cinema, e dentro do circuito exibidor a produção documental tem grande dificuldade de transpor a barreira do cinema comercial e suas metas mirabolantes de um produto descartável.

"Terra deu, Terra come", além de ser um dos filmes representativos da nova geração de documentaristas, ainda teve uma estratégia de distribuição pioneira. Em parceria com o Programa Cine Mais Cultura realizou um lançamento com mais de 800 cópias em todo o país. A opção veio na busca pela descentralização do conhecimento, e na rede alternativa de cineclubes existentes em todos os estados brasileiros. Cada exibidor foi contemplado gratuitamente com um kit do filme (cartaz, dvd e material de divulgação). O período de lançamento, que ocorreu no final de 2010, teve 249 sessões e 11.727 espectadores contabilizados, que foram somados aos 2.389 espectadores que assistiram o filme no circuito de cinemas comerciais entre outubro e dezembro de 2010 – o filme ficou na 7ª colocação, entre os documentários, no ranking de público em 2010.

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