Lonerism, Ou Tame Impala Provando Que Ainda Tem Muita Lenha Pra Queimar.

O álbum Lionerism é um manifesto pró-psicodelia, mas não se engane em relação à descrição: o som é mais atual do que nunca! Toda a tecnologia produzida nos últimos anos aliada a uma mente criativa viajante. Ladies and gentlemen: Tame Impala com Lionerism!



01_Banda_Tame_Impala_01.jpg © A banda "Tame Impala".

O Tame Impala impressionou muita gente ao lançar seu primeiro álbum, "Innerspeaker", ganhador de alguns importantes prêmios em 2010, mas a confirmação só veio no dia seguinte: era necessário um novo disco, uma nova colheita para saber se realmente a terra era ou não frutífera. "Lonerism" confirma que ainda há muito combustível para ser queimado, ao mesmo tempo que indica algumas sutilezas que o distanciam do primeiro álbum.

02_Capa_do_disco_lonerism_02.jpg © A capa do disco "Lonerism".

Uma Gravação Mais Tranquila

Se "Innerspeaker" foi marcado pela pressão e stress que envolvem o aluguel de estúdios e locais para ensaios e gravações, seu sucesso possibilitou que "Lonerism" fosse concebido em diversos locais diferentes: assim como no primeiro disco, Kevin Parker gravou quase tudo, e gravou em diversos lugares diferentes – onde estava com a banda era local possível de gravação, além de seu estúdio em casa, com todo o conforto para gravar à hora que quisesse.

Para se afastar de toda a pressão, Parker conta que tratou seu trabalho para "Lonerism" como um projeto qualquer sem muita expectativa de futuro. Como se fosse algo novo e descompromissado, sem precisar agradar a ninguém, tendo como ouvinte principal ele mesmo.

03_Banda_Tame_Impala_03.jpg © A banda "Tame Impala".

O resultado foi uma continuação de "Innerspeaker", mas isso não significa que há aí um disco chato ou que não há criação nenhuma. Só indica que não houve drásticas mudanças do som, pois este realmente não precisava de drásticas mudanças.

O Que Permanece?

Aquilo que impactou o primeiro disco, como as referências aos sintetizadores e suas viagens, lembrando o "Tangerine Dream" ou até mesmo aquilo que se vê nos sons hipnóticos de Richard Wright, do Pink Floyd – algo que beira o desesperador, mas que tangencia o lunar, diferente das fritações fáceis de observar em Yes, Triumvirat ou ELP, mas Tame Impala foi além... Diferente também das hipnoses em órgão da psicodelia sessentista - aqui, os efeitos são mais explorados. Continuam a fazer nossa viagem.

04_Banda_Tame_Impala_04.jpg © A banda "Tame Impala".

"Apocalipse Dreams", por exemplo, é uma música que poderia estar no "Innerspeaker". Sua levada soft e pausada, realçando os vocais Lennon de Parker são características fortíssimas do primeiro disco e o ajudaram a ter seu sucesso.

A forma onírica permanece e é clara na abertura do disco, "Be Above It" - que me trouxe à memória "Cabeça", do Walter Franco (só que muito mais pop); "Music To Walk Home By" segue a mesma linha, com vocais espaciais que muito mais do que cantar uma letra, fazem parte integrante do arranjo das músicas.

"Mind Mischief" é uma prova de que a guitarra pesada recheada de reverb e ecos não se foi, nos remetendo aos riffs imperdoáveis do fuzz rasgante de Hendrix, Blue Cheers ou dos atuais Haxixins e Transistors.

Seguindo uma tradição que, de certa forma, ficou muito evidente com as “salvações do rock” do início do milênio (Strokes, The Libertines e etc), a fórmula utilizada é a do resgate e renovação. Explico: faz parte de qualquer transformação no campo artístico a negação da forma vigente e a visita às formas anteriores, já “ultrapassadas”, para serem sua base.

Se os Strokes e Libertines buscaram em Clash, Velvet Underground, Ramones e New York Dolls (e inseriram uma roupagem mais pop), o Tame Impala tem como estrutura a psicodelia esquecida dos anos sessenta somada ao progressivo odiado pelo rock “de verdade”. São parte de sua constituição, com a adição de um toque contemporâneo.

05_Banda_Tame_Impala_05.jpg © A banda "Tame Impala".

E o que mudou?

Um pouco do que se manteve. Como isso? Os mesmo sintetizadores e guitarras psicodélicas altamente saturadas por diversas modulações foram delicadamente modificadas, deixando o som um pouco mais cru. Um pouco mais nítido, mas não menos lisérgico.

06_Banda_Tame_Impala_06.jpg © A banda "Tame Impala".

07_Banda_Tame_Impala_ao_vivo_07.jpg © A banda "Tame Impala" ao vivo.

"Sun's Coming Up" mostra um pouco desta mudança: minha preferida, ela altera um início com cara de Burton após ter tomado gotinhas de LSD com solos de guitarra daqueles que não mostram a virtuosidade do guitarrista, mas dão um frio na espinha. Faz arrepiar. É o som mais experimental e modulado do disco inteiro, uma louca interação de vários efeitos que se podem colocar em uma guitarra ou em um teclado.

Talvez seja o piano, mas ela me parece ser a mais melancólica. Diferente de "Elephant" e "Feels Like We Only Go Backwards", que ainda passam um som mais dançante (ou que ainda é possível de ser colocado na pista de alguma balada por aí), "Sun's Coming Up" é a última música e parece saber que o disco morre com ela. Mas não sejamos preconceituosos: quem disse que a melancolia não pode tornar uma música quase perfeita?

08_O_Single_Elephant_08.jpg © Single "Elephant".

vinicius siqueira

tem seu interesse fixado em sociologia francesa e psicanálise freudiana. Ainda é um estudante, mas quem não é?
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x3
 
Site Meter