O Estranho E O Anormal Em Donnie Darko

"Por que você está vestindo esta estúpida roupa de coelho?" - "Por que você está vestindo esta estúpida roupa de humano?". Com diálogos ainda menos óbvios, Donnie Darko faz a mente do espectador. É um incrível longa psicológico com diversas questões a serem desvendadas e desconstruídas, um material alucinante para qualquer cinéfilo.


01_Donnie_e_Frank_o_Coelho_durante_uma_sessao_no_cinema_01.jpg Donnie e Frank, o Coelho durante uma sessão de cinema.

Donnie Darko é um filme simplesmente louco. Lançado em 2001 e dirigido por Richard Kelly, conta a história de Donald Darko, um garoto do colegial com problemas psicológicos que entra em situações alucinatórias com visões macabras e tenta resolver os “problemas” que são colocados em sua realidade. Ele é o escolhido para trazer equilíbrio ao universo.

02_Poster_do_Filme_02.jpg Poster do filme.

A trama toda se passa em torno de como Donnie consegue entender que é o escolhido e em como ele se relaciona com suas alucinações. Essas alucinações são guias. É aqui que entra Frank, o coelho mítico do filme. São elas (as alucinações), junto com os manipulados vivos e manipulados mortos, que indicam o que Donnie deve fazer e são elas que explicam o que está lhe acontecendo. Os manipulados são todos aqueles que se relacionam de qualquer forma com o escolhido: os familiares, a namorada, os professores, sem excepção.

Em meio a tudo isso, nosso personagem principal descobre que a velha louca da cidade – Vovó Morte - é, na verdade, uma personalidade importante. Ela foi a escolhida anteriormente. Ela tinha como missão restabelecer o equilíbrio universal: além de cumprir o objetivo, conseguiu sair viva e escreveu um livro a respeito – "A Filosofia Da Viagem No Tempo". É a partir deste livro que Donnie entende e se situa perante a grande responsabilidade que tem em suas mãos.

03_A_caminho_da_casa_de_Jim_Cunningham_03.jpg A caminho da casa de Jim Cunningham.

04_Ao_acordar_em_um_campo_de_golfe_04.jpg Ao acordar em um campo de golfe.

05_Donnie_e_a_Vovo_Morte_05.jpg Donnie e a Vovó Morte.

O mito do gênio incompreendido

O filme nos traz a noção nada antiga do gênio que passou por uma vida difícil, que teve problemas psicológicos e que não é reconhecido como tal pela sociedade. Que é alvo de um pequeno culto enquanto vivo e que só ganha notoriedade depois de morto.

Donnie, o nosso herói, é um garoto que repetiu um ano, que tem problemas psicológicos - não se relaciona direito com sua família, não tem muitos amigos, alucina, tem amigos imaginários, dorme em sua cama e acorda longe de casa... Bom, ele é realmente alguém estranho. E este é o ponto. O mito do artista genial envolve a caracterização e a contextualização de Donnie. Este gênio é um alguém que não se adapta e por isso cria absurdas genialidades que não poderiam ser criadas por qualquer outro sujeito normatizado.

06_Apos_vandalizar_o_colegio_06.jpg Após vandalizar o colégio.

07_Professores_examinando_a_vandalizacao_de_Donnie_07.jpg Professores examinando a vandalização de Donnie.

Donnie, apesar de todos os contras, é o herói. É o único que pode entender tudo aquilo que acontece no mundo porque é o único que lida com esses acontecimentos fantásticos diariamente. Sua mente perturbada abre espaço para que a anormalidade passe a ser normalidade. Ele é o herói exatamente por ser estranho. Mas todo herói é construído.

A construção da genialidade

Neste ponto, vale dizer, a genialidade não é a inspiração inovadora que vem da essência de um indivíduo. A genialidade é, na verdade, um atributo que é dado àqueles que 1) não fazem parte da massa e 2) não fazem parte da elite que detém a legitimidade de algo. Mais ou menos assim: o músico genial não é nem aquele que faz o sertanejo universitário, nem aquele que escreve mais uma composição romântica ou mais uma ópera. Ele precisa se distanciar do primeiro – pois a genialidade não pode ser vulgar – e também do segundo – pois precisa ser inovador. O gênio incompreendido só é incompreendido porque produz algo que praticamente ninguém aprecia.

Donnie Darko é, eu acredito, a reafirmação deste mito. De que a verdadeira genialidade em qualquer esfera do conhecimento parte de um princípio de rejeição e anormalidade. Donnie Darko reproduz as velhas noções de que o comum não é válido por ser “vulgar” e que o clássico não é válido por ser “conservador”.

08_Volta_do_colegio_em_frente_a_casa_de_Jim_Cunningham_o_instrutor_motivacional_08.jpg Volta do colégio em frente a casa de Jim Cunningham, o instrutor motivacional.

09_Patrick_Swayze_Como_Cunningham_palestrante_motivacional_09.jpg Patrick Swayze como Cunningham, palestrante motivacional.

10_Drew_Barrymore_interpretando_a_professora_de_Donnie_10.jpg Drew Barrymore interpretando a professora de Donnie.

Quando Donald salva sua realidade, a cena seguinte o mostra delirando em sua cama e, logo após, um pedaço do avião cai – só que desta vez o pega em cheio. O fim trágico dos grandes gênios. Donald não morreu de pneumonia, nem de velhice ou AVC: sua morte foi fantástica - como a morte de qualquer gênio deve ser. É como se esta fosse uma das características que ajudam a inscrever um sujeito na genialidade. Aquilo que é comum precisa se transformar em fantástico.

E é aqui que o filme consegue traduzir mais uma tendência forte da nossa sociedade: o imperativo em ser diferente nos detalhes. O cotidiano só é belo enquanto não é vulgar, enquanto for objeto de artes “requintadas” como a fotografia ou a pintura. Donnie é o estereótipo do estranho anormal, é o modelo e o ideal do estranho e, ao mesmo tempo, genial.

11_Em_uma_de_suas_alucinacoes_diante_do_espelho_11.jpg Em uma das suas alucinações diante do espelho.

12_O_tempo_que_resta_para_o_universo_12.jpg O tempo que resta para o Universo.

A luta pela distinção é maníaca quando, mesmo que inconscientemente, cada um tenta fabricar a genialidade em si e, ao mesmo tempo, negar e rejeitar tal atitude. É aquela coisa do músico de sucesso que, ao ser entrevistado, diz que nunca teve pretensão nenhuma, que era tudo uma grande brincadeira, que o sucesso veio inesperadamente.

Porque vê-lo vale tanto a pena

Donnie Darko é um filme importante não só pela história fantástica e pelos personagens bem construídos (que giram todos em torno de Donnie, são todos manipulados vivos e manipulados mortos, todos estão lá para indicar o caminho correto para Donald seguir: talvez mais uma característica de nossa sociedade, o narcisismo; todos estão lá para servir Donnie), mas por expressar pontos importantes da nossa própria sociedade.

13_Umas_das_cenas_finais_do_filme_13.jpg Uma das cenas finais do filme.

Talvez isso sirva até mesmo para explicar o culto que o filme adquiriu por um público que não é nem popular, nem clássico. Por um público que participa da cultura pop no limite do erudito e do popular.

Abaixo o trailer desta formosura!


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Vinicius Siqueira