The Wall: O Muro Em Torno De Nós

Criado sob orientação de Roger Waters, "The Wall" foi um sucesso de crítica e público, mas sua construção foi extremamente tortuosa. A história de Pink, um rockeiro no fundo do poço e isolado de toda a sociedade, mexe não só com nosso imaginário, mas é um pedacinho de todos nós - é um drama geral, por isso é digno de ser apreciado.



01_Em_Show_Ao_Vivo_01.jpg Em Show ao vivo.

Um dos mais famosos discos do Pink Floyd e um clássico do rock internacional, "The Wall" foi o produto da criação megalomaníaca de Waters, com pitadas de uma loucura tipicamente Gilmouriana. Lançado em 1979, o formato do disco tinha tudo para dar errado (progressivo com incursões de hard rock): conta a história de um rockeiro decadente em situações de puro isolamento social e mergulho nas drogas. Mas antes de iniciar o disco em si, é mais saudável explicar um pouco do que antecedeu seu desenvolvimento.

02_Capa_Do_album_02.jpg Capa do álbum "The Wall".

04_Another_Brick_In_The_Wall_04.jpg Another Brick in The Wall.

03_A_Marcha_Dos_Martelos_Em_Alusao_Ao_Nazismo_03.jpg A Marcha dos Martelos em alusão ao Nazismo.

05_O_Muro_05.jpg O Muro.

O momento do insight

O ano é 1977: Pink Floyd lança o disco "Animals", um álbum conceitual baseado no livro "A Revolução Dos Bichos", de George Orwell, e logo em seguida sai em turnê. O álbum fez sucesso, teve boa recepção da crítica e de público, mesmo sendo lançado no ano da explosão punk. Roger Waters, então líder da banda e mente criativa dos conceitos de cada disco da fase pós-Meddle, percebe que há uma distância intransponível entre o grupo e o público: ele percebe que as pessoas nos show do Pink Floyd eram, em sua maioria, festeiros que queriam escutar um ou dois hits e beber muita cerveja.

Naquela altura, a indústria fonográfica tinha um poder inimaginável, fazendo da música um mero material de consumo e transformando bandas e artistas em fábricas de hits – em sua maioria descartáveis.

03A_Pink_Como_Ditador_no_Filme_The_Wall_03A.jpg Pink como o Ditador no filme "The Wall".

03B_Pink_Em_Estupor_03B.jpg Pink em Estupor.

Um acontecimento se tornou fundador: ao perceber que uma das pessoas da primeira fila estava “causando” no show, invadindo o palco e estragando a apresentação da banda, Waters cuspiu em seu rosto e, como num instante mágico, começa a criação de "The Wall" – o muro imaginário e real que isola a banda do público literal e metaforicamente.

Uma informação pouco popular e, por sua vez, muito importante se refere à situação da banda naquele momento pós-Animals: depois de péssimos investimentos dos administradores dos negócios da banda, todo o dinheiro desaparecera, estavam falidos e prestes a se desfazer. Ainda havia uma obrigação contratual - lançar mais um disco - e foi somente isso que reuniu a banda mais uma vez. Este disco tinha que ser um estouro, pois era a partir dele que todas as contas seriam pagas... Começa aí a história de "The Wall".

06_O_Grito_do_Recluso_06.jpg O Grito do Recluso.

Criação e demissão de Wright

Após a turnê para o disco "Animals", os integrantes do Floyd entraram em férias e neste meio tempo tanto Waters como Gilmour lançaram discos a solo (sem sucesso comercial). Ambos estavam sem muito material para apresentar em reunião com a banda, tendo Gilmour algumas canções que sobraram de seu disco e Waters duas demos de projetos distintos. Uma delas se tornaria o seu disco solo "The Pros and Cons of Hitch Hicking" e a outra era uma versão promissora, embora musicalmente fraca, de "The Wall".

07_Gilmour_na_epoca_do_The_Wall_07.jpg Gilmour na época do "The Wall"

Por abordar um tema muito pessoal, "The Pros And Cons"[...] foi descartada e "The Wall" passou a ser o objeto de estudo e desenvolvimento da banda. Todo o processo de criação estava acumulado nas mãos de Waters (conceito) e Gilmour (música), enquanto Rick Wright mergulhava num vício de cocaína. Nas palavras do baterista Nick Mason:

"As gravações foram muito tensas, principalmente porque Roger estava começando a ficar um pouco doido. Já estava tudo gravado quando ele brigou com Rick. Rick tem um estilo próprio, muito específico, para o piano, e ele não estava conseguindo compor nem adaptar com facilidade. Isto é um grande problema quando as outras pessoas estão discutindo quem fez o quê e quem leva os créditos. Roger e Dave estavam trabalhando como uma dupla, colocando-me de lado. Houve momentos em The Wall em que os dois fizeram tudo. Rick estava incapacitado e eu não podia fazer nada para ajudá-los."

08_As_4_Mascaras_utilizadas_nos_shows_antes_da_entrada_da_banda_08.jpg As 4 Máscaras utilizadas nos shows antes da entrada da banda.

09_As_Criancas_Sem_Face_09.jpg As crianças sem face.

A megalomania de Waters, que começou depois do incrível sucesso de "The Dark Side Of The Moon", estava em patamares vertiginosos – tendo como pico a demissão de Rick Wright, por não ter feito “nada” para o disco e ter ficado um tempo a mais de férias no fim das gravações.

“A crise veio quando nós todos saímos de férias depois do fim das gravações. Uma semana antes das férias terminarem recebi uma ligação de Roger, que estava na América, convocando uma reunião do grupo imediatamente, e nela disse que queria que eu abandonasse a banda. A princípio recusei. Então Roger disse que se eu não saísse após o lançamento do álbum ele abandonaria o grupo naquele instante e levaria as gravações com ele. Não haveria álbum nem dinheiro para pagar nossas enormes contas. Tive que aceitar, tinha duas crianças para criar. Foi terrível. Agora eu sei que errei, era um blefe de Roger. Mas eu realmente não quero mais trabalhar com esse cara nunca mais.", relata Wright.

10_The_Teacher_10.jpg The Teacher.

11_O_Professor_Autoritario_Padronizando_Seus_Alunos_11.jpg O Professor Autoritário padronizando os seus alunos.

Por mais irônica que a vida possa ser, com os altos custos dos mega-shows da turnê, o único a realmente lucrar foi Wright, que após a demissão foi requisitado para ser músico contratado da banda. Fez seu trabalho de contrato e recebeu seus salários. Nenhum prejuízo.

Uma ópera rock

O disco é uma história completa e, de certa forma, cíclica. Conta a vida de Pink, um rockeiro que se isola do mundo criando ao redor de si um muro (metafórico). Este muro, por sua vez, não cresce sozinho, é um resultado de diversos traumas durante sua vida: a perda de seu pai na guerra, um sistema educacional opressor, a superproteção de sua mãe e a traição de sua mulher. Cada decepção era um tijolo a mais no muro, um afastamento maior de Pink do restante da sociedade.

12_O_Julgamento_12.jpg O julgamento.

13_A_Luta_Das_Flores_Uma_Falica_e_a_Outra_Com_Formas_Vaginais_Representando_a_Luta_de_Pink_e_o_Sexo_Feminino_13.jpg A luta das flores, uma fálica e a outra com as formas vaginais representando a luta de Pink e o sexo Feminino.

O início do disco, com "In The Flesh," nos introduz à história que será narrada. A música (recheada por riffs pesados e melódicos) termina com o choro de um bebê, com o nascimento de Pink. Segue-se "The Thin Ice", que apresenta do o maior trauma da vida do nosso protagonista: a morte de seu pai durante a guerra.

A crítica ao sistema educacional opressor se revela na sequência "Happiest Days Of Our Lives-Another Brick In The Wall Pt.2". É o segmento mais conhecido do disco. Nele, Pink é humilhado por um professor arrogante e caricato, levando consigo este tijolo para erguer seu muro.

"Mother", a linda balada acústica de uma conversa de Pink e sua mãe, a superproteção materna é retratada como mais uma das causas do afastamento do nosso rockstar. A causa final, em "Don't Leave Me Now", virá a ser a traição por parte de sua esposa, que, ao percebê-lo desinteressado da vida conjugal (fruto dos tijolos já colocados anteriormente), tem um caso com um líder anarquista.

De "Hey You" até "Bring the Boys Back Home", a situação de Pink é desesperadora. Ele entra em profunda depressão e solidão, não se aguenta mais como ser humano e precisa de um escape: "Confortably Numb" mostra a alucinação do abuso deste escape – Pink entra em um torpor fantástico de drogas e acorda com a ajuda de um médico. O problema é que as drogas que o médico injetou em Pink não o acordaram para o mundo real, o introduziram em uma fantasia “real”. Ele havia se tornado um ditador nazista.

Após a caça a gays, judeus e negros em "Run Like Hell", Pink é obrigado a parar seus atos genocidas e é julgado por todos os seus erros – um julgamento final metafórico para erros metafórico (vale lembrar que toda a história de Pink ser um líder nazista não passou de uma alucinação). O resultado do julgamento é a obrigação de Pink se abrir para o mundo, quebrar o muro. Sua vida foi tão destruída que não há mais opção, caso ainda queira ter uma vida.

No fim, em "Outside The Wall", Pink volta à realidade e reencontra as pessoas que o apoiaram, reencontra tudo aquilo que perdeu durante seu momento de arrogância, abuso de drogas, isolamento do mundo e etc...

O disco termina com a frase "Is not here where …", que faz uma ligadura com o início do disco: o disco começa com a frase "... we came in?". Esse processo cíclico talvez possa significar a própria repetição contínua destas alucinações na vida de uma pessoa comum. Convenhamos, a história de Pink não é tão particular – ela é bem genérica para um mundo pós-guerra. Os traumas com que Pink construiu seu muro são situações que podem acontecer com qualquer um num cotidiano líquido-moderno.

Seu afastamento e sua megalomania não são frutos de más escolhas, mas de uma má época para se viver. O processo é cíclico porque é diário, porque se trata de uma autocrítica diária para traumas quase que cotidianos. O disco não é sobre Pink, é sobre nós.

14_Waters_Tocando_Mother_Na_Nova_Turne_14.jpg Waters tocando "Mother" na nova tournée.

15_Waters_Na_Nova_Turne_do_The_Wall_Ja_Como_Ditador_Nazista_15.jpg Waters na nova tournée do "The Wall" já como Ditador Nazista.

vinicius siqueira

tem seu interesse fixado em sociologia francesa e psicanálise freudiana. Ainda é um estudante, mas quem não é?
Saiba como escrever na obvious.

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