William Paul Gottlieb: o cronista acidental

Jornalísta, crítico, locutor de rádio - muitas eram as facetas de William P. Gottlieb que lhe valeram a alcunha de "Senhor Jazz". Hoje são sobretudo as suas fotografias que o tornam memorável. Mas quer a sua carreira de divulgador, quer a vertente de fotógrafo, foram em boa medida ocorrências inesperadas.



01_William_P_Gottlieb_durante_emissao_da_radio_WINX_Washington_cerca_de_1940_01.jpg © William Gottlieb, Frank Sinatra no Liederkrantz Hall, Nova Iorque, E.U.A., 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

Como alguns cronistas medievais, William Paul Gottlieb teve acesso muito próximo a uma corte. A sua era a legião de músicos excepcionais que, nas décadas de trinta e quarenta de novecentos, transformaram radicalmente o jazz. Era amigo dalguns dos seus editores, entrava nos camarins, alguns foram convivas na sua casa.

Mas William Gottlieb foi um cronista invulgar e acidental. Embora escrevesse colunas na imprensa e animasse programas de rádio, o seu registo mais marcante foi a fotografia. E nada, no início da sua vida, parecia encaminhá-lo para a crítica musical e para a fotografia.

Nasceu em 1917, em Nova Iorque, mas cedo se mudou para a vizinha Nova Jérsia, onde o pai, um próspero empresário, mantinha negócios de construção e de comércio de madeiras. Parecia estar reservado para ele um lugar na América empresarial e, ao entrar para a conceituada Lehigh University, na Pensilvânia, em meados dos anos trinta, a sua opção foi naturalmente Economia.

Perceber, nesse momento, a relação umbilical que teria com a nossa imagem visual da "era dourada" do jazz seria um acto de pura adivinhação. Para a sociedade americana branca e "bem comportada", o "jazz" era ainda, em boa medida, sinónimo de transgressão. Embora a música "easy listening" que enchia as rádios fosse marcadamente subsidiária desse fenómeno, a ideia de uma cultura musical resultante duma miscigenação entre as tradições africanas e europeias (com clara preponderância das primeiras) desgostava a maioria dos habitantes dum país fortemente separado por linhas de raça e preconceito. Acrescia ainda que o "jazz" e o "ragtime" (que o precedera e partilhava as suas origens) eram de alguma forma a banda sonora dum certo sub-mundo nocturno, que teve o seu auge durante a chamada "Lei seca". Os músicos negros conseguiam furar a barreira racial para animar bares, clubes nocturnos, bordéis e outros locais que se afastavam da moralidade aceite.

02_A_dancarina_Lois_de_Fee_no_Club_Nocturne_Nova_iorque_Julho_de_1948_02.jpg © William Gottlieb, A dançarina Lois de Fee no Club Nocturne, Nova iorque, E.U.A., Julho de 1948; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

03_52nd_Street_Nova_iorque_Julho_1948_03.jpg © William Gottlieb, 52nd Street, Nova Iorque, E.U.A., Julho de 1948; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

E, assim, a vida de Gottlieb seguia um rumo distinto, até nela intervir o acaso. Este assume muitas formas, e nesta história a sua primeira aparição será das mais repugnantes e desagradáveis: a de um verme, um parasita minúsculo da família "Trichinella". No final do segundo ano escolar do seu curso, em 1936, numa festa da residência universitária, William e vários dos seus colegas comeram carne de porco insuficientemente cozinhada e tornaram-se hospedeiros involuntários do antipático verme. A espécie em causa provocou-lhes uma violenta e dolorosa reacção física, designada por triquinose, e redundou numa demorada convalescença, acamada, que durou todo o Verão.

Neste período, Gottlieb foi frequentemente visitado por um colega de liceu, "Doc" Bartle, pianista de formação clássica que se tornara um fanático de "jazz". Consigo trazia revistas que descreviam o "jazz" como a mais significativa contribuição dos americanos para a música, e discos de gente como Louis Armstrong e Duke Ellington. No final da sua recuperação, Gottlieb estava novamente contagiado, mas desta vez o bicho que carregava era o mesmo entusiasmo que animava "Doc" Bartle. De ouvinte desatento de Guy Lombardo e dos seus "Royal Canadians" passara a ser um genuíno conhecedor e um prosélito da nova música.

04_Guy_Lombardo_durante_um_ensaio_Starlight_Roof_Waldorf_Astoria_Nova_Iorque_Julho_1947_04.jpg © William Gottlieb, Guy Lombardo durante um ensaio no Starlight Roof, Nova Iorque, E.U.A., Julho de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

Quando retornou às aulas nesse Outono, Gottlieb tornou-se colunista no jornal semanário universitário e redactor-chefe da "The Lehigh Review", a apreciada revista mensal da universidade. Sob a sua direcção, o "jazz" tornou-se matéria abordada em todos os números e o estilo gráfico evoluiu para se aproximar de publicações como a "LIFE", fortemente baseadas no uso de fotografias. Para tal, socorreu-se de colegas universitários, como Lou Stoumen, que lhe forneciam as imagens.

Em 1938, no seu último ano em Lehigh, através dum conhecido da universidade, entrou em contacto com o gestor financeiro do jornal "Washington Post", que lhe ofereceu um lugar como angariador de publicidade. Gottlieb aceitou e, após alguns meses, ofereceu-se para escrever gratuitamente uma coluna sobre "jazz" na edição dominical do periódico. A oferta foi aceite e, em reconhecimento, acresceram o seu salário de angariador em quase metade do valor. Estava então iniciada a sua carreira como jornalista musical em publicações de grande divulgação.

No acordo inicial, Gottlieb mantinha-se como um homem estritamente de palavras. Para as fotografias, o jornal destacava um dos seus repórteres fotográficos, e esta combinação adequava-se-lhe perfeitamente. Mas ao cabo de duas semanas, o acaso interveio novamente no sentido de alterar o destino de Gottlieb. As restrições financeiras do jornal acabaram por impor o cancelamento do acompanhante. Habituado a ter os seus artigos ilustrados, e não disposto a abdicar disso, o colunista tomou uma decisão improvável. Sem a mínima formação específica, sacrificou a sua vasta colecção pessoal, vendendo centenas de discos, e comprou uma enorme câmara fotográfia, uma "Speed Graphic". Aquela era a máquina padrão na imprensa da época, mas era também talvez, de todas, a câmara menos indicada para um principiante. Era volumosa, pesada, usava suportes de película (as chamadas chapas) em vez de rolos, a cada exposição tinha de rodar o suporte e retirar a respectiva protecção, e depois de duas exposições tinha de se substituir os suportes. Como descreveria mais tarde o próprio Gottlieb, que apelidava a sua câmara de "a besta", "se consegues usar uma "Speed Graphic", consegues usar qualquer coisa".

05_Graflex_Speed_Graphic_imagem_Wikimedia_Commons_05.jpg © Graflex Speed Graphic, (Wikicommons). Uma câmara semelhante à usada por William Gottlieb.

Apesar de ter as probabilidades contra si, Gottlieb abalançou-se para a aventura fotográfica e foi bem sucedido. Pediu explicações sumárias aos repórteres fotográficos do "Washington Post", fez um razoável percurso de tentativa-erro, e munido de uns (poucos) "flashes" descartáveis, converteu-se no ilustrador dos seus próprios artigos. Sem uma preparação no campo de artes visuais, confessou que usou para as suas fotografias o instinto do jornalista. Com um equipamento pouco versátil, sem orçamento para a película e para os "flashes", sabia que em cada sessão estava limitado a umas poucas exposições, frequentemente apenas três ou quatro. A exemplo da técnica jornalística, em que há uma escrita muito mais económica que num romance, concentrou-se em captar o essencial e o significativo. Ao mesmo tempo que tomava notas para os seus textos, ia analisando a situação, e quando largava o bloco de apontamentos para pegar na câmara, fazia cada fotografia valer. Como um caçador emboscado, muitas vezes esperava no sítio certo até que a tensão musical produzisse o momento decisivo - o instante em que o cantor cerra os olhos, em que a torção corporal do solista reflecte a intensidade da interpretação, em que o olhar do músico se dirige para os restantes membros do agrupamento. E só então disparava. Sem grandes preconceitos compositivos, tanto recorria a planos gerais ou de imagem de corpo inteiro, frontais ou oblíquos, como a enquadramentos muito aproximados, com invulgares ângulos, picados ou contra-picados.

06_Portrait_of_Cab_Calloway_Columbia_studio_New_York_1947_06.jpg © William Gottlieb, Cab Calloway no Columbia studio, Nova Iorque, E.U.A., Março de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

07_Sidney_Bechet_no_Jimmy_Ryan_s_Club_Nova_Iorque_Junho_1947_07.jpg © William Gottlieb, Sidney Bechet no Jimmy Ryan's Club, Nova Iorque, Junho de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

Entre 1936 e 1948, ano em que decidiu afastar-se e abrandar, passando a trabalhar em filmes educativos, William Paul Gottlieb foi um incansável divulgador. Publicou artigos no "Washington Post" e na marcante revista "Down beat", animou programas de rádio, promoveu encontros inolvidáveis entre músicos. A fotografia foi apenas um elemento na profunda paixão que o fazia mover em torno do "jazz". No entanto, é a componente do seu trabalho que mais perdura, a que verdadeiramente nos marca ainda. As suas fotografias, feitas "lutando" contra o equipamento, auto-financiadas, sem assistentes (recorria sistematicamente a membros da audiência para manobrar os "flashes" auxiliares que usava para obter efeitos de iluminação mais interessantes) trazem-nos um olhar único, empático e próximo, dum período decisivo na história daquele género musical. Nelas podemos perceber o fulgor que as "big bands" transmitiam, podemos intuir o seu lento declínio na preferência da juventude americana e podemos ver a reformulação do jazz como fenómeno de culto em torno de lendas como Billie Holiday, Charlie Parker ou Dizzie Gillespie.

Mas, quando se deleitar com as imagens que apresentamos abaixo (uma pequena selecção dum vasto espólio), e se gostar de pensar no papel do acaso na nossa existência, pode sempre divertir-se com uma pequena constatação: muito do nosso imaginário visual do "Jazz" dever-se-à não só à genialidade dum homem, mas também à intervenção na sua vida dum pequeno e desagradável verme "Trichinella".

08_Louis_Armstrong_Nova_Iorque_Julho_1946_08.jpg © William Gottlieb, Louis Armstrong, Nova Iorque, E.U.A., Julho de 1946; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

09_Billie_Holiday_Downbeat_New_York_cerca_Fev_1947_09.jpg © William Gottlieb, Billie Holiday no Downbeat, Nova Iorque, E.U.A., Fevereiro de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

10_Count_Basie_1946_48_flat_10.jpg © William Gottlieb, Count Basie, 1946-48; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

11_dancarinos_num_clube_de_jazz_Washington_1938_48_11.jpg © William Gottlieb, dançarinos num clube de jazz, Washington, E.U.A., 1938-48; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

12_Dizzy_Gillespie_Nova_Iorque_Maio_1947_12.jpg © William Gottlieb, Dizzy Gillespie, Nova Iorque, E.U.A., Maio de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

13_Benny_Goodman_no_400_Restaurant_Nova_Iorque_Julho_1946_13.jpg © William Gottlieb, Benny Goodman no 400 Restaurant, Nova Iorque, E.U.A., Julho de 1946; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

14_Ella_Fitzgerald_Dizzy_Gillespie_Ray_Brown_Milt_Milton_Jackson_e_Timmie_Rosenkrantz_no_Downbeat_Nova_Iorque_setembro_1947_14.jpg © William gottlieb, Ella Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Ray Brown, Milton Jackson e Timmie Rosenkrantz no Downbeat, Nova Iorque, E.U.A., Setembro de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

15_Charlie_Parker_e_Tommy_Potter_no_Three_Deuces_Nova_Iorque_Agosto_1947_15.jpg © William Gottlieb, Charlie Parker e Tommy Potter no Three Deuces, Nova Iorque, E.U.A., Agosto de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

16_Django_Reinhardt_no_Aquarium_Nova_Iorque_Novembro_1946_16.jpg © William Gottlieb, Django Reinhardt no Aquarium, Nova Iorque, Novembro de 1946; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

17_Duke_Ellington_no_Aquarium_Nova_Iorque_1946_48_17.jpg © William Gottlieb, Duke Ellington no Aquarium, Nova Iorque, E.U.A., 1946-48; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

18_Erroll_Garner_Nova_Iorque_1946_48_18.jpg © William Gottlieb, Erroll Garner, Nova Iorque, E.U.A., 1946-48; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

19_Fats_Navarro_Nova_iorque_1946-48_19.jpg © William Gottlieb, Fats Navarro, Nova iorque, E.U.A., 1946-48; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

20_Les_Paul_Nova_Iorque_Janeiro_1947_20.jpg © William Gottlieb, Les Paul, Nova Iorque, E.U.A., Janeiro de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

21_Miles_Davis_e_Howard_McGhee_Nova_Iorque_Setembro_1947_21.jpg © William Gottlieb, Miles Davis e Howard McGhee, Nova Iorque, E.U.A., Setembro de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

22_Oscar_Moore_Nat_King_Cole_e_Wesley_Prince_Nova_Iorque_Julho_1946_22.jpg © William Gottlieb, Oscar Moore, Nat King Cole e Wesley Prince, Nova Iorque, E.U.A., Julho de 1946; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

23_Sarah_Vaughan_no_Cafe_Society_Nova_iorque_Agosto_1946_23.jpg © William Gottlieb, Sarah Vaughan no Café Society, Nova iorque, E.U.A., Agosto de 1946; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

24_Sonny_Greer_no_Aquarium_Nova_Iorque_Novembro_1946_24.jpg © William Gottlieb, Sonny Greer no Aquarium, Nova Iorque, E.U.A., Novembro de 1946; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

25_Thelonious_Monk_no_Minton_s_Playhouse_Nova_Iorque_Setembro_1947_25.jpg © William Gottlieb, Thelonious Monk no Minton's Playhouse, Nova Iorque, E.U.A., Setembro de 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

26_Frank_Sinatra_no_Liederkrantz_Hall_Nova_iorque_1947_26.jpg © William Gottlieb, Frank Sinatra no Liederkrantz Hall, Nova Iorque,E.U.A., 1947; Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, (Wikicommons).

Júlio Assis Ribeiro

é um homem cheio de qualidades. Sobre a maior delas, não há unanimidade. Mas muitos estudiosos inclinam-se para a sua capacidade de aparecer desfocado, ou tremido, nas fotografias.
Saiba como escrever na obvious.

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