A Centopeia Humana: o choque da repugnância

Lançado em 2009, "A cenopeia Humana" foi coroado como o melhor filme no festival Screamfest de cinema. Não é à toa, já que este terror entra em caminhos não muito visitados no mainstream do cinema - diga-se de passagem, não me parece que venham a ser algum dia explorados.



01_Poster_do_Filme_00.jpg Poster do filme.

A Centopeia Humana é um filme de 2009, dirigido por Tom Six, um alemão que decidiu experimentar um pouco daquilo que vem dos extremos em seus filmes. Criticado duramente por boa parte dos especialistas, foi classificado como filme repugnante, como lixo cinematográfico.

A história

Imagine-se perdido em um pedaço qualquer da Alemanha, sem sinal no celular e com o pneu do carro furado. Você pede ajuda a um morador de uma casa que encontrou por acaso. Aquilo que você não imaginava é que este morador é um cirurgião aposentado (Josef Heiter) que agora se dedica a pesquisas anormais: sua carreira era famosa por ser um exímio cirurgião na separação de gêmeos siameses, mas atualmente ele não quer mais separar, ele quer criar. Ele quer unir.

É aí que o nome do filme faz sentido. Ao sequestrar duas turistas americanas (Lindsay e Jenny) e um turista japonês (Katsuro), o cirurgião declara seu plano: unir pelo sistema digestivo os três jovens e montar uma centopeia humana, cortando as ligações dos joelhos de cada um, de modo que não seja possível permanecerem em pé.

02_As_Turistas_Americanas_Lindsay_e_Jenny_02.jpg As turistas americanas Lindsay e Jenny.

O início, ou o clichê porcaria de filmes de terror

Sim, o início do filme é puro clichê. Atrizes mal preparadas precisam interpretar duas turistas que se perdem nas ruas escuras da Alemanha, onde o pneu do carro alugado estoura e não há sinal no celular para ligar à empresa de locação. Como em todo filme de terror, elas decidem fazer o mais perigoso e saem do carro, entrando numa floresta escura – numa noite fria – para tentar encontrar algo ou alguém que possa ajudar.

Encontram o Dr. Josef Heiter e tudo começa. São dopadas e vão parar no porão/laboratório do Dr. Psicótico. O interessante é que, num dado momento, tudo parece que vai ficar previsível, já que uma das moças consegue se soltar da cama a que estava amarrada e foge. Tudo parece como aqueles filmes que tentam ser hollywoodianos, que empregam atores e atrizes bonitos para interpretar papeis medíocres e que, após a morte de dois ou três, um deles consegue fugir e matar o vilão psicótico.

03_As_Tres_Cobaias_Presas_No_Laboratorio_de_Heiter_03.jpg As três cobaias presas no laboratório de Heiter.

04_Dr_Heiter_04.jpg Dr. Heiter.

Esta sequência do filme, da fuga e da recaptura de Lindsay, uma das turistas, foi considerada como um enche-linguiça. Eu acredito exatamente no oposto.

Na verdade, a função desta primeira parte do filme é exatamente retirar o conforto da previsibilidade dos filmes de terror populares. Ninguém vai te salvar. Mesmo. É este início que marca uma distinção vista em todos os segmentos da história: tudo corre negando aquilo que é previsível. Tudo é o que não parece ser.

O meio, ou o procedimento completo

Depois de recapturada Lindsay, alguns minutos do filme são dedicados a mostrar o procedimento cirúrgico de criação da centopeia. Nada de mais - o importante é saber que ela foi criada. Este segmento mostra os cuidados de Heiter com sua obra e seu gozo em presenciar o processo completo que leva a centopeia tomar forma.

05_O_Esquema_Do_Processo_Cirurgico_05.jpg O esquema do processo cirurgico.

Por que eu digo isso? A posição de mestre em que ele se coloca vai desde o controle sobre a vida até o controle sobre a morte. Heiter é o senhor que, por meio de cuidados e remédios, faz sua criatura viver, e que, sem este interesse em mantê-la viva, sem remédios e cuidados, pode deixá-la morrer. É o poder de fazer viver e deixar morrer. É controlo sobre os aspectos mínimos da vida para o aumento da sua duração, para o aumento do tempo de exploração em cada corpo.

Eu creio que o maior exemplo disto está na cena onde ele e os três turistas, já como centopeia, estão no jardim de sua casa e, num momento em que o líder da centopeia, o turista japonês, diz que precisa defecar, Heiter se enche de energia e grita “Alimente-a! Alimente-a!” e, ao ver que Lindsay, a parte do meio da centopeia, está realmente “se alimentando”, ele grita “Engula!”. Sua felicidade está ligada ao processo completo e bem sucedido da centopeia, está em fazer viver sua criação. A coprofagia é uma condição necessária para isso.

06_Cena_do_Jardim_06.jpg Cena do jardim.

Entretanto, nem tudo sai como esperado. Policiais vão até sua casa para investigar o desaparecimento dos turistas e o Dr. Heiter não consegue disfarçar muito bem.

O fim, ou a morte de tudo e todos

Jenny, o rabo da centopeia, já estava morrendo, pois não se recuperou do processo cirúrgico – era necessário complementar a centopeia.

08_Jenny_a_parte_de_tras_08.jpg Jenny, a parte de trás.

Os policiais são duas opções, mas nada corre bem - não tomam o tranquilizante por completo. Quando pensamos que finalmente Heiter será pego, a centopeia será desfeita e tudo terminará bem, o incrível acontece: após uma fuga, Katsuro entra em crise existencial e se mata.

07_Katsuro_o_turista_japones_cabeca_da_centopeia_07.jpg Katsuro, o turista japonês, cabeça da centopeia.

Não para por aí. Os policiais e o Dr. Heiter também morrem em seu pequeno embate. Como previsto pelo doutor, Jenny termina por morrer. Onde paramos? Somente a parte do meio da centopeia fica viva, parada, sem ação. Ela depende das outras partes para se mover. As outras partes estão mortas. Isso é exatamente o inesperado – nada corre como deveria correr, apesar de tudo caminhar para o óbvio.

09_Pos_Cirurgia_09.jpg Pós-cirurgia.

Durante todo o filme, a coprofagia é implícita e só tem espaço direto em uma cena. A repulsa está em o filme ser aquilo que o terror não deveria fazer. Não falo das imagens, mas falo da narrativa. O filme segue uma linha em que cada segmento que separei deveria acabar de uma dada maneira, mas acaba de outra. Todos eles começam com um clichê e acabam com a negação deste clichê. O filme é rejeitado, é classificado como ruim exatamente por não ser o tipo ideal de terror.

Ele é um balde de repugnância para os moralistas e um balde de clichês para os especialistas, mas estas duas características são só superficiais, já que, como dito, a repugnância é mais implícita do que explícita e os clichês não vão até o fim, não terminam como clichês, têm alguma alteração. Como existem mudanças não previstas em cada segmento, aquilo que é percebido facilmente é a parte repugnante e clichê... É a única parte que pode ser apreendida sem muitos problemas pelo espectador, já que todas as "quebras" do clichê atuam em oposição ao próprio clichê.

Também, no sentido popular do termo, não há um final para o filme. O fim do longa é uma porta aberta, mas não é uma porta aberta por permitir uma sequência na mesma linha. É uma porta aberta por não ser uma conclusão de nada. Desta forma, a única conclusão a que consigo chegar é que o filme é bom pelo mesmo motivo pelo qual é categoricamente classificado como ruim: por não ser previsível, por enganar com os clichês. Por ser aquilo que não parece ser.

vinicius siqueira

tem seu interesse fixado em sociologia francesa e psicanálise freudiana. Ainda é um estudante, mas quem não é?
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