A Revolta do Vinagre: Reviravoltas De Uma Manifestação Na Era Do Espetáculo

A Revolta do Vinagre foi um momento histórico surpreendente e miraculoso da história do Brasil, foi o estopim e o início de uma guerra silenciosa pelo poder com as massas. É esse episódio marcante da história em São Paulo e, como um todo, no Brasil, que vou comentar.



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A Pauta Inicial

A tarifa do transporte público havia aumentado em diversas regiões do país, mas foi em São Paulo que as manifestações tomaram proporções de revolta. Encabeçada pelo Movimento Passe-Livre, a primeira manifestação, no dia 6 de junho, tomou a Av. Paulista, uma das principais vias de SP, e iniciou aquilo que viria a se tornar a Revolta do Vinagre.

Logo neste primeiro momento, a população paulistana pôde ver um pedaço do que seria sua semana daquele dia para frente. A polícia reprimindo ferozmente cada agrupamento de manifestantes e os manifestantes tentando manter a unidade e se defendendo da maneira que podiam.

A pauta era clara: contra o aumento da passagem. Simples assim. Entretanto, após a repressão violenta da Polícia Militar do Estado de São Paulo, a manifestação começou a defender questões que se juntaram à redução da tarifa do transporte: liberdade para a manifestação era uma delas.

A Rua É Tomada

A cada nova manifestação, a rua era tomada por mais e mais estudantes, todos em coro e todos conseguindo parar a cidade de São Paulo. As manifestações estavam funcionando e isso era um sinal claro de esperança. “As lutas voltaram às ruas”, podia-se pensar, já que tudo dava a entender que era exatamente isso que estava acontecendo.

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Vale dizer uma coisa importante: quer queira, quer não, o MPL (Movimento Passe-Livre) é claramente de esquerda. O bojo das manifestações, o grosso do caldo, era de juventudes de partidos de esquerda. Aquilo era, de fato, uma manifestação da esquerda. Bastava estar na rua para perceber que, sem sombra de dúvidas, se tratava de uma manifestação vermelha.

É necessário ter outra coisa em mente: nenhuma ação da esquerda é pró-ordem. É claro, também, que a repressão da polícia em todas as manifestações até o dia 13/06 era a repressão de uma ordem vigente contra aquilo que a ameaça. Era a primeira ação para conter qualquer tipo de transformação social.

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A violência da polícia era a mão de ferro do agente repressor. Era a maneira de acabar com a manifestação, de acabar com a luta que foi retomada e rocolocada nas ruas. Até que chegou a quinta-feira, 13/06. Que, por suas consequências mórbidas, eu chamo de Quinta-Feira Sangrenta.

Quinta-Feira Sangrenta

Neste dia aconteceu o Quarto Grande Ato Contra o Aumento da Passagem. Eu não inseri uma seção para falar dele à toa. Realmente foi um ato divisor de águas. Saímos em peso às ruas, estávamos em torno de 15 mil manifestantes, tomamos várias vias de entrada para a Av. Paulista. Mais do que nos dias anteriores, e sob o clamor de uma mídia conservadora, a polícia foi mais dura e mais repressiva.

Ela fez seu papel de maneira exemplar: tentou acabar com a manifestação caçando cada manifestante e os prendendo por porte de vinagre. Mais ou menos como um porte ilegal de vinagre... Possível ingrediente para fabricação de bombas caseiras...

Para informação geral, o vinagre é aquilo que alivia os efeitos do gás lacrimogênio. Ele é a única defesa perante esse gás. Isso nos leva a concluir uma coisa: a ação da polícia foi preventiva, o aparelho policial estava retirando uma das duas maneiras de se defender, estava deixando a manifestação mais vulnerável e mais impotente.

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Eu disse que o aparelho policial estava retirando uma das duas maneiras de a manifestação se defender. Não falei isso por nada: os meios de comunicação estavam retirando a outra maneira de se defender. Para os meios de comunicação, todas as ações da manifestação eram consideradas vandalismo, desde depredar agências bancárias (o que é uma violência de caráter mais simbólico que prático, já que a agência representa o banco e o sistema que está sendo desafiado) até formar barricadas nas ruas (que é uma técnica de defesa por excelência).

Para a grande mídia, a manifestação era um antro de vândalos e arruaceiros, e ela mesma pediu uma ação mais dura da polícia. Pediu uma repressão mais violenta e conseguiu: mas com efeitos colaterais, já que foi nesta quinta-feira sangrenta que, simbolica e literalmente, mais sangue correu.

Por Quê Sangrenta?

O sangue pode ser divido entre o real e o simbólico. O sangue real que escorreu e que fez a diferença foi o sangue dos jornalistas da grande mídia. É óbvio que muitos manifestantes saíram feridos, mas isso acontecia desde o Primeiro Grande Ato – ninguém nunca ligou pra isso: manifestante ferido não significava muita coisa, já que a notícia era sempre dada como uma defesa legítima da polícia.

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Desta vez, o sangue de jornalistas também pingou nas ruas de São Paulo e a grande mídia que, até a Quinta, rejeitava as manifestações, mudou sua posição. Explico isso mais à frente.

O sangue simbólico foi das próprias manifestações. Este foi um sangue que só conseguimos olhar no Ato seguinte, na segunda-feira, mas que já cheirava mal logo no dia seguinte à manifestação. Logo na sexta-feira já foi possível ver que a manifestação claramente de esquerda havia sido apropriada pela grande mídia que, além de mudar sua posição, aceitando as manifestações e as abraçando, não perdeu tempo e colocou suas próprias demandas como demandas essenciais. Foi aí que tudo começou a virar uma grande festa.

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O Golpe De Mestre

Foi aí que a manifestação perdeu seu caráter político. Foi aí que, de repente, os partidos começaram a ser rejeitados e expulsos das manifestações pelos novos manifestantes. Mas eu creio que é necessário entender quem é esse novo manifestante.

O manifestante que começou a ir às ruas a partir do dia 17/06 era exatamente aquele que dependia da grande mídia para tomar uma ação. A manifestação com caráter político se transformou em uma manifestação ufanista de classe-média sem pauta e sem demandas políticas. A manifestação que, repito, era política, foi moralizada. Os cartazes que exigiam honestidade, que eram abaixo a corrupção, que exigiam um “mundo melhor” e etc. e etc., tomaram as ruas. Foi neste momento que a ideia “não é só pelos 20 centavos [valor do aumento do transporte público]” se transformou em uma maldição.

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A mídia apoiou superficialmente a manifestação que realmente acontecia (que isso fique claro), já que ela mesma instalou suas próprias demandas naquilo que ela retratou como sendo a manifestação – a distorcendo e a instrumentalizando. A grande mídia também fez um recorte de “manifestação legítima" (pessoas de branco com a bandeira do Brasil) e “manifestação ilegítima” (basicamente, tudo que acontecia até a Quinta-Feira Sangrenta), que conseguiu eliminar qualquer ação que não estivesse em seu escopo de interesses.

Sob esse pressuposto, todas as mais diversas demandas, mesmo sem nada de político e sem qualquer caráter de desafio à ordem vigente, entraram na manifestação. Uma manifestação de esquerda se tornou uma manifestação de direita em pouquíssimos dias com a ajuda maciça dos meios de comunicação.

O Pós-Vinagre

Hoje, tudo se passa como se os quatro primeiros atos, os atos antes da instrumentalização midiática das manifestações, não tivessem existido. Como se eles tivessem sido apagados da história. Como se as manifestações tivessem começado na segunda-feira, 17/06, com pessoas vestidas de branco e com a cara pintada de verde a amarelo, cantando hinos ufanistas. A tarifa baixou, mas tudo se passa como se isso fosse resultado e mérito pleno dos últimos dias de manifestação, quando ela deixou de ser uma real manifestação e se tornou uma passeata.

08_Latuff_retratando_o_prefeito_e_governador_do_estado_de_SP_08.jpg Latuff, retratando o prefeito e governador do estado de São Paulo.

A Revolta do Vinagre foi transformada em uma passeata da paz contra a corrupção. Foi o golpe de mestre para anular o caráter contra a ordem que esta revolta tinha e foi o golpe de mestre para retirar a polícia das manifestações, já que, após a entrada da mídia, os “novos manifestantes” passaram a reprimir toda a ala esquerda da manifestação. A ala que já era reprimida pela polícia.

Os gritos de “sem violência” eram feitos junto com esforços para rasgar bandeiras de partidos e movimentos (inclusive do movimento Afro e LGBT) – era um grito que só servia para anular qualquer defesa contra a violência das ações de uma massa que não sabia muito bem porque estava lá e que não sabia muito bem o que fazer. Fazia o que era agitada a fazer.

Esta ruptura foi, com certeza, o sangue simbólico derramado. O resultado mórbido da Quinta-feira Sangrenta. O desdobramento lamentável que prova a força dos meios de comunicação - além, claro, de seus interesses particulares.

09_Ilustracoes_sobre_a_revolta_09.jpg Ilustração sobre A Revolta.

vinicius siqueira

tem seu interesse fixado em sociologia francesa e psicanálise freudiana. Ainda é um estudante, mas quem não é?
Saiba como escrever na obvious.

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