Dieter Rams: o "bom design" que influenciou a Apple

A Apple é atualmente um marco no que diz respeito ao bom design, definindo as tendências das novas tecnologias. Um design elegante e simples, pensado ao pormenor, onde apenas o essencial tem lugar à vista. Conheça agora Dieter Rams, o designer que influenciou definitivamente o percurso da Apple.


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© Dieter Rams em 2006 (Wikicommons, Vitsoe, licença CC-SA 3.0).

Dieter Rams é um dos criadores que ajudaram a elevar o papel do designer na sociedade e nas empresas. Diz que, quando começou a trabalhar, somente empresas como a AEG e a Olivetti o faziam, pelo que sentiu a necessidade de se dedicar ao desenvolvimento de bom design. É com pena que constata que pouca evolução se verifica nas empresas de hoje, que não compreendem a utilidade do design, recorrendo ao termo como um adjetivo que ajuda a vender os produtos e não como uma disciplina que regula e permite a sua criação, desvalorizando por consequência a profissão dos designers. Na sua opinião, o bom design só é possível quando existe uma colaboração estreita entre os diretores das empresas e os designers e confessa-se presentemente embaraçado perante o rótulo de designer, preferindo o termo alemão “Gestalt-Ingenieur” (engenheiro da forma).

Jonathan Ive, responsável pelo design da Apple, é o primeiro a admitir claramente a influência de Rams no seu trabalho. Ive descreve o trabalho de Rams da seguinte forma: “nenhuma parte parece ser escondida ou celebrada, apenas considerada perfeitamente e completamente apropriada na hierarquia dos detalhes e caraterísticas do produto. Num olhar, sabemos exatamente o que é e exatamente como usá-lo.”. Por seu lado, Rams considera a Apple uma das poucas empresas atuais que continua a tentar elevar o estatuto do design e do designer e que compreende verdadeiramente a plenitude das suas funções e responsabilidades.

Alemão, Rams viveu a II Guerra Mundial durante a sua adolescência e, na altura em que o mundo recuperava da guerra e a Alemanha se reconstruía, decidiu estudar arquitetura e design de interiores na Faculdade de Belas-Artes de Wiesbaden. Porém, o seu fascínio pelo ofício de carpinteiro do avô falou mais alto e levou-o a abandonar os estudos para se tornar aprendiz de carpinteiro. Mais tarde, terminou o curso e trabalhou em algumas empresas da área.

02_Braun_Sk61_02.jpg © Dieter Rams, Braun SK 61 (Wikicommons, Xavax).

03_Braun_SK_4_03.jpg © Dieter Rams, Braun SK 4 (Wikicommons, Xavax).

Em 1955, foi contratado pela Braun como arquiteto e designer de interiores, numa fase em que a empresa tinha perdido o seu fundador e em que os seus filhos pretendiam modernizá-la. Com uma reputação ligada à engenharia de som e ao desenvolvimento de novos produtos, a Braun encontrou em Dieter Rams o seu futuro. Nos 40 anos em que trabalhou para a firma, Rams desenvolveu uma grande quantidade de produtos usados mundialmente e reconhecidos até hoje, devido ao seu questionar constante e à sua incansável busca pelo bom design. Num discurso dado na Braun em 1980, Rams explica o seu entendimento acerca do que carateriza um bom designer. “Penso que os bons designers devem ser sempre vanguardistas, sempre um passo à frente dos tempos. Devem – e têm – de questionar tudo o que geralmente é considerado óbvio. Devem ter intuição para a mudança de atitudes das pessoas. Para a realidade em que vivem, para os seus sonhos, os seus desejos, as suas preocupações, as suas necessidades, os seus hábitos de vida. Têm também de ser capazes de compreender realisticamente as oportunidades e fronteiras da tecnologia.”

Sendo o bom design uma questão fundamental para ele, enunciou dez princípios através dos quais podemos avaliar qualquer produto de design, especialmente os seus próprios, e concluir se o design é bom ou não.

Os seus 10 princípios dizem que o “Bom Design”:

É inovador. Rams defende que a capacidade de inovar está longe de se esgotar, já que a tecnologia evolui continuamente, pelo que o design deve inovar em parceria com a tecnologia.

Torna um produto útil. Afirma que os produtos são comprados para serem usados e que, por isso, têm de ser, não só funcionais, como corresponder a determinados critérios estéticos e psicológicos. Ressalva ainda que os produtos devem evidenciar a sua utilidade, retirando tudo o que possa diminuí-la.

É estético. Reforçando o segundo princípio, Rams considera que a qualidade estética dos objetos que nos rodeiam influencia a nossa vida e que nenhum produto pode ser bonito se não for bem feito.

Torna o produto compreensível. Mais uma vez em reforço do segundo princípio, defende que o bom design deve ser auto-explicativo, tornando clara a estrutura, utilidade e modo de funcionamento do objeto.

É discreto. Na sua conceção de bom design, Rams faz uma marcada distinção entre o design e a arte/decoração. Segundo ele, o design é feito para ser usado e não para ser decorativo, pelo que deve ser o mais discreto possível, de forma a não interferir com a expressão individual de cada pessoa.

É honesto. Não tenta iludir o consumidor, afirmando ser melhor do que realmente é ou trazer benefícios que efetivamente não traz.

É duradouro. Vivendo numa sociedade que considerava desperdiçadora, Rams via o bom design como uma forma de diminuir o desperdício e a necessidade de troca constante. Assim, o bom design não deve seguir as modas, porque estas passam e tornam-se antiquadas. Não estando sujeito às modas, o design mantém-se sempre atual, não havendo necessidade de substituí-lo.

É pensado até ao último detalhe. Por respeito ao utilizador, o designer deve pensar todos os aspetos do produto, não deixando nada ao acaso.

É amigo do ambiente. Visto que o design, em particular o de produto, pode produzir uma grande quantidade de desperdícios, Rams alerta para a necessidade de fazer uso dele para preservar recursos e minimizar a poluição, não só física mas visual, no decorrer de todo o ciclo de vida dos produtos.

É o menos design possível. Rams defende o regresso à simplicidade no que se refere ao design. Para ter qualidade, o design deve concentrar-se no essencial, deixando de lado todo o excedente e cumprindo assim todos os princípios anteriores.

Braun_Coffee_Grinder_-dieterrams.jpg Moinho de café, por Dieter Rams. Foto: Austin Calhoon, licença GFDL

04_Dieter_Rams_e_Dieter_Lubs_Calculator_Braun_ET66_1987_04.jpg © Dieter Rams e Dieter Lubs, Calculadora Braun (Wikicommons, Kippelboy).

Ao serviço da Braun, Rams teve um papel pioneiro a nível do design, chegando a criar um código de cores para os produtos que se mantinham nos neutros branco e cinzento escuro, com toques de alumínio e a exceção do verde para o botão de ligar. Através desta simplicidade extrema, o designer pretendia assegurar aos consumidores que, apesar da constante evolução da tecnologia, seriam sempre capazes de compreender facilmente o funcionamento dos aparelhos da Braun.

A sua demanda pelos elementos modulares e combináveis entre si foi ao ponto de criar uma série áudio, a Áudio 1, especificamente para ser disposta no sistema de prateleiras 606 que desenvolvera para a empresa de móveis Vitsœ+Zapf.

05_606_Universal_Shelving_System_05.jpg © Dieter Rams, 606 - Sistema Universal de prateleiras (Wikicommons, Vitsoe).

Numa época em que as pessoas começavam a ansiar pela tecnologia, considerando-a um símbolo de progresso, as empresas sentiram a necessidade de melhorar o aspeto dos seus aparelhos que, até então, tinham permanecido escondidos dentro de móveis de madeira, cujo intuito era o de se assemelharem o mais possível aos móveis normais. Com o rádio/gira-discos SK4, Rams deu início à tendência de tirar partido da transparência do plástico para mostrar o interior dos aparelhos. Continuou a comandar o seu aspeto com uma estética glacial e simples, logo copiada pelos concorrentes.

O mesmo se passou quando, durante o desenvolvimento do sistema de hi-fi Atelier 1 e colunas L1, separou, pela primeira vez, as colunas do aparelho em si, o que permitia compactá-lo. Mais tarde, e sempre ao ritmo dos avanços tecnológicos, abandonou o estilo glacial com o sistema de hi-fi Studio 1000, substituindo-o pelo preto, que conferia um aspeto mais denso e tecnológico aos produtos, como metáfora para a sua robustez tecnológica. Os aparelhos eletrónicos passaram a ser pretos durante os trinta anos seguintes.

inês petiz

é artista. E não poderia ser nenhuma outra coisa.
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