L. S. Lowry: “uma vista da janela”

Um pintor do “invisível”. Assim ficou conhecido L. S. Lowry, artista nascido em Manchester e que se interessava por paisagens urbanas e vivas do noroeste inglês, normalmente à vista de todos mas a que quase ninguém dava (dá) importância. Uma pessoa tímida e surpreendente. Com trabalhos reconhecidos, embora artista desconhecido. Até que ponto esta ambiguidade?

Going to Work.jpg L. S. Lowry, Going to Work

Um parto difícil

Laurence Stephen Lowry (1887 – 1976) foi um pintor inglês que desenvolveu a sua arte durante mais de 40 anos, essencialmente, na região onde nasceu. O seu olhar, nos quadros que desenhou e pintou, debruçou-se na maioria das vezes sobre episódios da vida do dia-a-dia das pessoas das cidades, em zonas industriais. Desta forma, acabou por desenvolver um estilo próprio de pintura que foi sendo denominado de "matchstick men", à base de paisagens urbanas com figuras humanas, no noroeste da Inglaterra. Também se interessou por paisagens despovoadas, ainda que esta sua faceta menos “personalizada” fosse descoberta após a sua morte. Pintava o que todos dizem saber mas que poucos conseguem ver.

01_Longdendale_L_S_Lowry_de_WIKI_Stephen_Burton_01.jpg © L. S. Lowry, Longdendale, (Wikicommons, Stephen Burton).

03_On_the_Lowry_trail_geograph_org_uk_03.jpg © No trilho de Lowry, (Wikicommons, Steve F.).

A perspectiva de uma “sombra”

Lowry nasceu de um parto difícil que deixou a sua mãe cada vez mais debilitada até morrer. O nascimento de um rapaz, quando esta esperava uma menina, também dificultou a alegria e a relação entre ambos. Sendo uma mulher nervosa, conservadora e controladora, a educação de Lowry, dominada mais pela mãe do que pelo pai, ressentiu-se e, em diversos aspectos, segundo o pintor, tornou a sua infância infeliz e a sua personalidade tímida. Desde cedo demonstrou ter um jeito artístico, mais do que escolar, que a sua mãe não valorizava mas, à medida que a depressão da mãe se tornava mais profunda e neurótica, Lowry começou a tentar ganhar a vida à custa da sua arte, principalmente pintando auto-retratos. Com o falecimento da sua mãe, a vida económica da família complicou-se: algumas dívidas persistiram mas todo o afogo que pautou a sua infância/adolescência e o início da fase adulta começou a sofrer um revés ao mesmo tempo que se deu o progressivo reconhecimento do valor artístico de Laurence. Chegou a ser nomeado artista oficial para o momento da coroação da Rainha Isabel II.

Lowry também é visto como um pintor “domingueiro” pelo olhar ingénuo, aparentemente inocente, das paisagens que escolheu para retratar. O uso que faz das figuras que pinta e das linhas que desenha, relativamente despreocupadas e simplistas, caracteriza-lhe o estilo, bem como a ausência de efeitos do tempo nas paisagens e horizontes. No fundo, todo esse olhar direccionado é fruto de uma perspectiva própria (inevitavelmente) mas toldada pela educação familiar que teve ou pela infância que não conseguiu ter. Esse olhar ingénuo, patente nos seus quadros, pode não ser mais do que uma forma de preencher um vazio de infância, tentando senti-lo numa idade adulta. A ser verdade, o que será isto senão a prova provada do poder que todos temos quando educamos, sem que disso tenhamos consciência ou façamos caso?

The Cripples.jpg L.S. Lowry, The Cripples

Francis Terrace, Salford 3.jpg L.S. Lowry, Francis Terrace, Salford

Lowry ostenta o record de prémios honoríficos britânicos rejeitados, o que pode revelar um indício de repulsa pelo artificial e pelo que cobre a natureza das coisas, mais do que de gratificação ou de agradecimento. Precisamente, essa natureza que Lowry notou, enquanto adulto, que não a sentiu, enquanto criança. Para além disto, a timidez de Lowry não deixa de surpreender alguns quando a sua vida sempre se fez com amizades duradouras, como a que teve com o artista Harold Riley, e convívios continuados que foi fruindo durante a fase adulta. Não gostava de interferências de estranhos na sua privacidade, apesar de ele mesmo se dar aos amigos que teve. Chegou a ser considerado o maior artista britânico de todos os tempos mas, hoje, é um desconhecido.

Não terá durado muito o reconhecimento. A sua figura acabou por ser, hoje, uma sombra das suas perspectivas desenhadas, o que prova que a memória do passado, mais tarde ou mais cedo, se transforma numa necessidade de esforço para não cair no esquecimento. O drama entre não esquecer o passado e preparar o futuro pode ser sobre-humano. No fundo, as ambiguidades do pintor são as ambiguidades da memória colectiva que, neste caso, nunca deixou de ser humana e, por isso, selectiva. Os nossos limites também nos educam, desde que nos lembremos deles.


Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".
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