As icónicas operárias do Office of War Information

A imagem do operário não tende a fazer parte da iconografia norte-americana. Esta valorizou muito mais, ao longo da sua história, as figuras do pioneiro, do cowboy, do patriota ou do empresário. No entanto, durante um curto período, entre 1941 e 1945, a figura do operário, e em particular, a da mulher operária, foi oficialmente promovida ao pódio dos heróis da nação.


01_J_Howard_Miller_We_can_do_it_cartaz_da_Westinghouse_Company_1942_01.jpg J. Howard Miller, "We can do it", cartaz da Westinghouse Company, 1943 (Wikicommons)

É bastante conhecido o cartaz norte-americano "We can do it", de 1943, em que a ilustração de uma operária plena de força e resolução, mas ainda assim graciosa, aparece a garantir que as mulheres fariam a sua parte na frente doméstica enquanto os homens eram recrutados e encaminhados para as batalhas da Segunda Guerra mundial.

O cartaz, encomendado por uma empresa privada que participava no esforço de guerra, não foi um acto isolado no país. Embora feito por iniciativa particular, enquadrou-se num amplo esforço de comunicação que tinha como epicentro o governo federal.

Em Dezembro de 1941, o ataque japonês a Pearl Harbour, porto sede da frota americana do Oceano Pacífico, precipitou a entrada, que se antecipava já há algum tempo, dos Estados Unidos da América na guerra. Em Junho do ano seguinte foi criado o Office of War Information, uma agência governamental que tinha como missão não só definir e coordenar a informação sobre o conflito, como delinear uma política comunicativa que favorecesse o esforço de guerra e o patriotismo.

Ao contrário dos sistemas de propaganda nazi e soviético, o funcionamento do OWI não passava por um controle rígido e total dos meios de comunicação. Apesar de alterações legais decorrentes do estado de guerra, o grosso da sua actividade passava muito mais por ciclicamente estabelecer orientações a que os meios de comunicação davam seguimento de forma (mais ou menos) voluntária, do que pelo policiamento e imposição de conteúdos.

Fazer política com a fotografia

Apesar da sua criação motivada e condicionada pela recente guerra, o OWI não nasceu subitamente do nada. Para além da natural contribuição dos serviços de comunicação das forças armadas, preexistentes ao conflito, esta agência viu ser incorporados nela um conjunto de profissionais e serviços provenientes de entidades criadas pelo governo Roosevelt no âmbito do seu New Deal, o programa de recuperação económica que visava retirar o país da Grande Depressão. Entre eles, encontrava-se o serviço de informação da Farm Security Agency, uma muito bem oleada máquina de produção de imagens que, durante anos, produzira registos fotográficos da situação dramática vivida no espaço rural americano, visando garantir o apoio público a ambiciosos (e dispendiosos) projectos agrícolas do governo federal.

02_Dorothea_Lange_Mae_migrante_California_EUA_1936_02.jpg Dorothea Lange, Mãe migrante, Califórnia, E.U.A., 1936. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Esta experiência acumulada veio a ser vital para a forma bastante expedita e profissional como o OWI definiu o padrão de qualidade e o ideário estético da sua vertente fotográfica. Mas tal não significou que tenha havido uma uniformidade total entre os projectos fotográficos de antes e durante a guerra. Entre ambos há claras diferenças de natureza e de forma.

As imagens do programa da FSA, dirigido por Roy Stryker, enfrentaram as contingência dum jogo político pleno e democrático. Sendo decorrentes do New Deal de Roosevelt, tinham que lidar com a forte oposição conservadora face aos planos intervencionistas do presidente americano. Uma oposição para a qual gastar dinheiro dos contribuintes em planos de auxílio era desperdício, e gastá-lo em campanhas de propaganda era simplesmente um ultraje. Com estes constrangimentos, Stryker sempre tentou impor regras que afastassem o trabalho dos seus fotógrafos das críticas (nem sempre com sucesso). Embora tivessem um objectivo político e propagandístico, as imagens da FSA tinham de ter um carácter documental. Os seus fotógrafos, mesmo tendo directrizes muito precisas sobre o tipo de imagens a obter (cenários de desolação e pobreza rural, camponeses e trabalhadores migrantes empobrecidos e em posturas que evidenciassem tristeza, prostração ou desesperança), não deviam alterar os cenários retratados, encenar factos ou criar situações.

03_Arthur_Rothstein_campones_e_filhos_durante_tempestade_de_poeira_Cimarron_Oklahoma_EUA_Abril_de_1936_03.jpg Arthur Rothstein, camponês e filhos durante tempestade de poeira, Cimarron, Oklahoma, E.U.A., Abril de 1936. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Um país forte em tempos de guerra

A acção do Office of War Information dá-se num quadro bastante distinto. A declaração de guerra criara um estado de excepção, um momento de alguma suspensão da crítica pública ao governo, e não apenas de tolerância, mas mesmo de vivo apoio relativamente a programas declaradamente propagandísticos. Os fotógrafos do OWI tiveram uma liberdade muito superior no seu trabalho, recorrendo a todas as "armas" que lhes fossem úteis. A sua intervenção nas imagens é bastante mais visível. Puderam orquestrar livremente os seus modelos, escolhê-los, por vezes, criar situações, encenar acções e usar iluminação artificial sempre lhes conviesse.

Para além desta liberdade operativa, radicalmente distinta, também a natureza simbólica das imagens foi diferenciada. Numa América em guerra, a última coisa que interessava eram fotografias de gente desanimada e impotente, necessitada de ajuda. Sendo função do OWI promover o patriotismo e a moral dos americanos nos tempos difíceis da guerra, as imagens que criou seguiam um sentido diametralmente oposto. A América que se queria veicular era um país constituído por gente forte, determinada, resoluta, capaz de suplantar os mais duros obstáculos. E é aí que as séries de imagens de operárias a colaborar com o esforço de guerra se inserem.

Ao contrário do que por vezes aparece descrito, a participação de mulheres em trabalhos fabris não foi uma novidade trazida pelas duas guerras mundiais. Concretamente no caso americano, o operariado feminino existia desde o advento desse tipo de produção e era constituído maioritariamente por membros de comunidades étnicas minoritárias e por emigrantes. O que as guerras mundiais trouxeram de novo foi um foco positivo sobre uma situação que, por norma, desagradava à sociedade americana. As imagens de mulheres operárias, de autores como Lewis Hine, por exemplo, foram feitas sob um ponto de vista de denúncia da exploração laboral e da pobreza.

04_Lewis_Hine_operaria_portuguesa_Fall_River_Massachusetts_EUA_1916_04.jpg Lewis Hine, operária portuguesa, Fall River, Massachusetts, E.U.A., 1916. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

A necessidade dessa nova perspectiva advém das condições específicas do período. O recrutamento dos homens em idade combatente, associado ao súbito aumento de encomendas militares, deixou a indústria americana com uma grande necessidade de mão-de-obra. Nem o recrutamento de todas as mulheres que a grande depressão empurrara para o desemprego, ou para sectores com pior remuneração (limpezas, lavandarias, serviço doméstico), seria suficiente para preencher o vazio então existente. A solução passaria por cativar e recrutar um novo contingente para o trabalho fabril: as mulheres de classe média e média alta.

Operárias com glamour

O OWI traçaria para esse fim uma estratégia vencedora. Longe de documentar o carácter duro da vida nas fábricas, procurou retratar o novo operariado fabril feminino com glamour. As jovens mulheres que fez fotografar, e que encaminhou para a comunicação social, em nada se assemelhavam às vítimas da natureza e da depressão que a FSA fizera questão de registar. Geralmente bonitas, bem vestidas, compostas (raramente o vestuário aparecia maculado pelo trabalho), maquilhadas, transbordavam de feminilidade e graça. Fotografadas com ar sério e determinado, eram exemplos de contribuição patriótica, eram as heroínas da frente doméstica. Também elas combatiam os alemães e os japoneses, construindo as armas que os derrotariam.

Retratadas com sofisticação, a cores, muitas vezes com iluminação artificial, as operárias do OWI estavam próximas das figuras da moda e das estrelas de cinema. Eram idealizações, uma espécie de pin-ups castas.

Emblemáticas desta linha de comunicação, são as imagens realizados por dois fotógrafos contratados pelo Office of War Information, Howard R. Hollem e Alfred T. Palmer, que definiriam o modelo logo no ano inicial da agência.

05_Irma_Lee_McElroy_Corpus_Christi_Texas_Agosto_1942_05.jpg Howard R. Hollem, Irma Lee McElroy, Corpus Christi, Texas, E.U.A., Agosto de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

06_Lucile_Mazurek_Milwaukee_Wisconsin_Fevereiro_de_1943_06.jpg Howard R. Hollem, Lucile Mazurek, Milwaukee, Wisconsin, E.U.A., Fevereiro de 1943. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

07_Mary_Josephine_Farley_Corpus_Christi_Texas_1941_45_07.jpg Howard R. Hollem, Mary Josephine Farley, Corpus Christi,Texas, Agosto de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

08_Mary_Louise_Stepan_Fort_Worth_Texas_1941_45_08.jpg Howard R. Hollem, Mary Louise Stepan, Fort Worth,Texas, E.U.A., Outubro de 1942, Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

09_Operadora_de_torno_Fort_Worth_Texas_EUA_Outubro_de_1942_09.jpg Howard R. Hollem, Operadora de torno, Fort Worth, Texas, E.U.A., Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

10_Oyida_Peaks_Corpus_Christi_Texas_Agosto_de_1942_10.jpg Howard R. Hollem, Oyida Peaks, Corpus Christi, Texas, E.U.A., Agosto de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

11_Rebitadora_Fort_Worth_Texas_1941_45_11.jpg Howard R. Hollem, Rebitadora, Fort Worth, Texas, Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

12_acabamentos_num_bombardeiro_B_17_outubro_de_1942_12.jpg Alfred T. Palmer, Acabamentos num bombardeiro B-17, Long Beach, Califórnia, E.U.A., Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

13_duas_operarias_durante_a_montagem_dum_caca_P_51_Outubro_de_1942_13.jpg Alfred T. Palmer, Duas operárias durante a montagem dum caça P-51, Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

14_Montagem_de_bombardeiros_B_25_Inglewood_California_Outubro_de_1942_14.jpg Alfred T. Palmer, Montagem de bombardeiros B-25, Inglewood, Califórnia, Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

15_Montagem_de_bombardeiros_B_25_Inglewood_California_Outubro_de_1942_AA_15.jpg Alfred T. Palmer, Montagem de um bombardeiro B-25, Califórnia, EUA, Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

16_Operadora_de_maquina_rebitadora_Long_Beach_California_Outubro_de_1942_16.jpg Alfred T. Palmer, Operadora de máquina rebitadora, Long Beach, Califórnia, Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

17_Operaria_durante_montagem_de_motor_de_aviao_California_Junho_de_1942_17.jpg Alfred T. Palmer, Operária durante montagem de motor de avião, Califórnia, Junho de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

18_Trabalhando_num_bombardeiro_Nashville_Tennessee_Fevereiro_de_1943_18.jpg Alfred T. Palmer, Trabalhando num bombardeiro, Nashville, Tennessee, Fevereiro de 1943. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

19_operarias_na_montagem_de_um_bombardeiro_Long_Beach_California_outubro_de_1942_19.jpg Alfred T. Palmer, Operárias na montagem de um bombardeiro, Long Beach, Califórnia, Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

20_Operaria_em_formacao_Long_Beach_California_Outubro_de_1942_20.jpg Alfred T. Palmer, Operária em formação, Long Beach, Califórnia, Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

21_Pintando_a_insignia_da_Forca_aerea_num_bombardeiro_Nashville_Tennessee_fevereiro_de_1943_21.jpg Alfred T. Palmer, Pintando a insignia da Força aérea num bombardeiro, Nashville,Tennessee, Fevereiro de 1943. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

22_Operarias_durante_a_montagem_de_um_bombardeiro_Long_Beach_California_Outubro_de_1942_22.jpg Alfred T. Palmer, Operárias durante a montagem de um bombardeiro, Long Beach, Califórnia, Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

23_Na_pausa_de_almoco_Long_Beach_California_Outubro_de_1942_23.jpg Alfred T. Palmer, Na pausa de almoço, Long Beach, Califórnia, Outubro de 1942. Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

A campanha de incentivo ao trabalho feminino nas fábricas teve um evidente sucesso, e o seu impacto na cultura popular e corporativa foi enorme. As operárias entraram no imaginário público através das fotografias e cartazes do OWI, mas não só. Capas de revistas, cartazes de empresas privadas e até êxitos musicais como "Rosie the Riveter", ergueram as jovens trabalhadoras americanas a um estatuto de enorme prestígio. 

As razões deste sucesso são várias e intrincadas. Ao imperativo patriótico de ajudar o país num momento difícil, argumento retoricamente supremo, somavam-se outros interesses mais privados. Por um lado,a nova situação convinha profundamente às grandes corporações industriais. As novas contratações femininas ganhavam substancialmente menos que os seus equivalentes masculinos (o salário duma operária chegava a ser, por vezes, apenas um terço daquele que era auferido por um homem em funções iguais) e isso fazia-se sentir nos seus resultados económicos, sem quaisquer reflexos negativos no prestígio das empresas. Por outro lado, mesmo com toda a desigualdade salarial, as jovens americanas tinham por essa via acesso, muitas vezes pela primeira vez, à independência económica. Depois de mais de uma década numa terrível depressão económica que custava a desaparecer, havia um súbito vislumbre de prosperidade, apesar de o país se encontrar envolvido numa dura guerra.

Mas este apreço americano pelas suas operárias, e esta inusitada confluência de interesses, tinham uma validade muito determinada. Acabada a guerra, desmantelado o Office of War Information, e com o retorno dos soldados, as icónicas heroínas da frente doméstica foram maioritariamente descartadas, de forma rápida e sem que fossem tidas em conta as suas aspirações. Para elas estariam reservados papéis mais tradicionais e secundários. Esperava-se apenas que fossem as donas-de-casa exemplares que encheriam as revistas dos anos cinquenta, e as mães do chamado Baby Boom, o período de elevada natalidade que duraria até o início dos anos sessenta.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...
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