O meu primeiro encontro com Camus: "A Queda"

Nas margens turvas do rio Sena, uma mulher afoga-se. Jean escuta um grito de longe, fica paralisado, depois percebe que deixou uma mulher matar-se. Isso é suficiente para que toda a sua vida seja revisada, e então torna-se juiz penintente de si mesmo.


01_Albert_Camus_New_York_World_Telegram_and_the_Sun_Newspaper_Photograph_Collection_01.jpg Albert Camus (© Wikicommons, New York World Telegram e The Sun Newspaper Photograph Collection).

Até há bem pouco tempo não conhecia nada da obra de Albert Camus. Este escritor e filósofo, nascido na Argélia, viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu num acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre, foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949). Foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura em 1957.

O meu primeiro encontro com Camus foi uma queda dramática e angustiante. Aliás, foi "A Queda". O livro traduz o sentimento de ansiedade, próprio do indivíduo que traz a angústia e a necessidade de ser ouvido, devido à falta de atitude, que levou Jean-Baptiste Clamence, protagonista da história, a sentir culpa por não ter dado a atenção a um fato que resultou na morte de uma mulher.

02_Albert_Camus_de_Robert_Edwards_02.jpg Albert Camus, (© Wikicommons, Robert Edwards).

A impossibilidade de retroceder no tempo e transformar a omissão em ação fez do personagem um indivíduo ansioso, a ponto de levar o autor a estruturar o texto num monólogo, capaz de colocar o leitor na condição do interlocutor desconhecido, inoperante e absorto. Numa entrevista publicada na Venture Review, em 1960, Camus explica a utilização do monólogo: "utilizei a técnica do teatro, o monólogo dramático e o diálogo implícito,para descrever o artista trágico. Adaptei a forma ao conteúdo e isso foi tudo".

Escrito em 1956, "A Queda" é a divindade em seis capítulos. Jean Baptiste começa sua auto avaliação num bar, "Mexico-City", em Amesterdão. Camus preparou uma excelente crítica ao homem moderno e às suas peculiaridades. A mágica escrita de Camus é posta mais uma vez em prática, são cento e dez páginas que conseguem revelar o que um homem foi e é. O autor mostra mais uma vez - tal como em "O Estrangeiro" - que não é preciso falar muito para falar de algo, a sua escrita é sintética e precisa e o seu objetivo é claro: um homem em crise. Jean Baptiste é Jesus, é João Baptista e também é Camus. Ele é a santissima trindade camusiana. Em suma, ele é um ator.

Um ensaio sobre o reverso da virtude, daquele que um dia disse não haver nenhum problema filosófico em que valesse a pena pensar para lá do suicídio. O livro é um ensinamento, grandioso. Só autores da estirpe de Albert Camus são capazes de levar o leitor à reflexão do comportamento humano, com muitos reflexos irreversíveis para si próprio e para a humanidade.

03_Camus_Monument_in_Villeblevin_France_03.jpg Monumento de Albert Camus em Villeblevin, França (© Wikicommons).


graça c. moniz

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