A casa na “Rua do Primeiro Filme”

Nomes indissociáveis da história do cinema, devido à invenção do cinematógrafo, os irmãos Lumière mudaram para sempre a representação do mundo. Além da imagem em movimento, as suas inúmeras invenções permitiram criar fotografias a cores e melhorar a fotografia panorâmica de 360º. Em Lyon, a antiga mansão da família presta homenagem a Auguste e Louis.


01_Mansao_Lumiere_01.jpg A mansão Lumière, que hoje em dia alberga o museu (© Biblioteca Municipal de Lyon).

Em Lyon, cidade francesa de ruas medievais, boa comida e vinho, há uma casa que até poderia passar despercebida, no meio de um quarteirão repleto de propriedades imponentes. Não fosse esta mansão de dois andares se situar na Rue du 1er Film (em bom português, Rua do Primeiro Filme) e ser, como o nome indica, a casa-museu dos irmãos Lumière. Nesta ode à Sétima Arte, em que a história da família Lumière e as origens do cinema se confundem, a imagem em movimento é só uma parte das atracções.

02_Vista_aerea_mansao_Lumiere_02.jpg Vista aérea da Villa Lumière, em 1920.

Visitei-o em Novembro passado. Fora do museu, o vento gélido de Inverno, sob um céu intensamente azul, faz-se sentir. Depois do portão exterior, que faz a ligação entre a Rue du 1er Film e a propriedade do museu, o jardim que envolve a casa deixou temporariamente de ser verde para se vestir de castanho. No chão, a placa de homenagem: à la gloire des frères Auguste et Louis Lumière – Inventeurs du Cinématographe (à glória dos irmãos Auguste e Louis Lumière – inventores do cinematógrafo). Escreve-se, desta forma, o mote da visita.

Tanto vista de fora, como pelo seu interior, a mansão é imponente, de exteriores sóbrios e uma fachada envidraçada no rés-do-chão que permite adivinhar um jardim de inverno. É um dos testemunhos mais notórios da fortuna de Antoine Lumière – pai dos irmãos que inventaram o cinematógrafo e um rico industrial/fotógrafo – e foi até apelidada, na altura da construção, em 1899, como “Castelo Lumière”. Foi, aliás, o próprio Antoine que concebeu a casa do quarteirão de Monplaisir, cujos interiores foram inspirados pelas tendências da Art Nouveau.

07_Antoine_Lumiere_07.jpg O pai de Auguste e Louis, Antoine Lumière, com o equipamento de fotografia (© Museu Lumière).

Voltando aos tempos actuais, a casa agora transformada em museu é um dos locais de visita “obrigatórios” da cidade francesa. À entrada, na recepção/loja do museu, descubro um brasileiro que, tal como eu, também se perdeu de amores naquela mansão. De máquina fotográfica e tripé às costas, conta como é estudante de cinema e viajou desde o Brasil, atravessando um oceano imenso, especificamente para visitar este museu. Diz que valeu a pena. E eu, em silêncio, concordo.

Ao longo do andar térreo, a pré-história do cinema (se assim lhe podemos chamar) não foi esquecida. Praxinoscópios, traumatropos e fenaquistoscópios são alguns dos brinquedos ópticos que se podem encontrar no museu. Palavras bizarras do século XIX, estes pequenos aparelhos astuciosos já levavam até aos utilizadores a magia da imagem em movimento, mesmo que não passassem de meros truques de ilusão óptica.

É possível também ver pequenos filmes produzidos pelos irmãos, assim como quadros com cenas icónicas ligadas às produções Lumière. L’arrivée d’un train en gare de La Ciotat (chegada de um comboio/trem à gare de Ciotat), La sortie de l’Usine Lumière à Lyon (saída da fábrica Lumière em Lyon) ou Le Jardinier (o jardineiro), o primeiro filme cómico de sempre, são exemplos que saltam à memória. São, sobretudo, apontamentos curtos do quotidiano francês do final do século XIX, passados nas primeiras exibições públicas de cinema.

03_cinematografo_03.jpg O famoso CinematÛgrafo Lumière.

04_Cinematograph_Lumiere_advertisment_04.jpg O famoso CinematÛgrafo Lumière (anúncio).

O cinematógrafo ganha, neste museu, lugar de destaque. Não há como contornar a importância histórica deste equipamento imponente (e certamente pesado) usado pelos Lumière. Esta câmara tinha a função dupla tanto de captar a imagem em movimento, como de a projectar para a audiência. Vulgarmente associado aos Lumière – o próprio museu refere a mansão da Rue du 1er Film como o lugar onde se inventou o cinematógrafo - a verdade é que a origem do aparelho não gera consensos. Há quem defenda que Léon Bouly foi o único inventor, outros dizem que os Lumière tiveram a ideia e estiveram envolvidos na criação, na última década do século XIX. Mesmo sem certezas, a verdade é que a patente pertence aos Lumière e foram estes que trouxeram notoriedade ao cinematógrafo, através das exibições públicas dos seus filmes.

E além do cinema?

Menos conhecida do público é a relação dos irmãos Lumière com a imagem panorâmica 360º e a fotografia a cores. Estas são duas vertentes que a mansão-museu também enfatiza. O visitante sobe poucos degraus, para o meio de uma tela branca, redonda. De um momento para o outro, deixamos de estar na Lyon do século XXI para estarmos rodeados pelas vistas de uma rua de inícios do século passado. Gentes reais, numa rua real, presentes na imagem a 360º projectada com vários metros de altura.

05_Photorama_05.jpg O Photorama Lumière (© Museu Lumière).

Bem certo, não foram os Lumière que inventaram a fotografia panorâmica a 360º. Mas o Photorama Lumière e o Périphote, ambos equipamentos patenteados pelos dois irmãos, trouxeram maior inovação a esta área. O Périphote é um equipamento de captação de imagem, no qual a objectiva roda em torno do aparelho, com velocidade regulável por motor. Já a Photorama era a menina dos olhos dos Lumière, porque permitia pela primeira vez projectar uma panorâmica perfeita, sem perturbações na imagem e com grandes dimensões. O único exemplar do Photorama encontra-se no museu de Lyon. Apesar das grandes expectativas dos irmãos para o sucesso desta invenção, os resultados não foram os esperados. Depois da imagem em movimento, os franceses não viam motivos para grande entusiasmo perante uma fotografia panorâmica estática.

Longe da imagem a preto e branco, há também que falar do Autochrome e… de fécula de batata. Outra das patentes registadas por estes irmãos franceses, este foi um processo que trouxe a cor, de forma generalizada, às fotografias do princípio do século XX. É considerado o primeiro procedimento fotográfico a cores, inventado em 1903 e comercializado a partir de 1907 (os sistemas prévios não tinham qualidade e eram demasiado complexos para terem sucesso comercial). O segredo residia exactamente na utilização de fécula de batata tingida em três cores, que permitia captar e filtrar a luz. Até meados dos anos 30, foi o método de fotografia a cores mais usado.

09_autochrome1_e_2_09.jpg Exemplos das fotografias em placa Autochrome Lumière.

10_autochrome_3_10.jpg Exemplos das fotografias em placa Autochrome Lumière.

11_autochrome_4_11.jpg Exemplos das fotografias em placa Autochrome Lumière.

No museu, a glória das placas Autochrome é recordada em estreita ligação à família Lumière. Dezenas de imagens de momentos do dia-a-dia da família podem ser vistas pelos visitantes da mansão-museu. Fotografias de instantes de descanso, reuniões familiares, brincadeiras, tios, sobrinhos, irmãos… Pedaços de vidas que “viajaram” no tempo, até nós, com cores que se aproximam de uma pintura impressionista.

De Paris ao mundo

06_Gabriel_Veyre_06.jpg Gabriel Veyre, em Marrocos (fotografia através de placas Autochrome Lumière).

De volta ao cinema, o cinematógrafo Lumière mostrou a imagem em movimento ao mundo, mas também trouxe o mundo à imagem em movimento. É certo que o universo Lumière remete para a vida parisiense e para o quotidiano francês da viragem do século. Mas parte do sucesso da marca Lumière deveu-se ao trabalho dos vários realizadores que percorreram o mundo em busca de cenários exóticos que pudessem ser êxitos comerciais na Europa.

Gabriel Veyre foi o mais conhecido dos realizadores Lumière, muito devido à qualidade dos seus filmes e às fotografias belíssimas que produziu em Marrocos, com placas Autochrome. Daí que Veyre também tenha um espaço de homenagem dentro do museu Lumière, lembrando as produções do jovem estudante de Farmácia que um dia decidiu seguir uma vida de aventura e, com um cinematógrafo ao ombro, rumar ao México, Japão, Indochina, Canadá e Marrocos. É, aliás, neste último país que acaba por se instalar até ao fim da sua vida, em 1936. A reportagem fotográfica em Autochrome que realiza por Marrocos, em 1935, é considerada uma obra-prima.

Acaba-se a visita pelo Museu Lumière e é altura de regressar ao Inverno rigoroso que reina em Lyon. À saída do jardim, o retrato de grandes proporções dos dois irmãos que mudaram radicalmente as artes visuais parece despedir-se dos visitantes. Auguste e Louis, de perfil carregado, casaco preto e camisa branca, naquela que é a fotografia mais reconhecida dos irmãos Lumière. Do outro lado do jardim, começam outros preparativos: daqui a poucas horas começará mais uma sessão de cinema no Instituto Lumière que, a poucos metros da mansão Lumière, assume funções de cinemateca de Lyon. Filmes clássicos e contemporâneos passam, diariamente, no ecrã do Instituto, naquela que é a derradeira homenagem ao legado dos Lumière: a própria existência do Cinema.

Visite o website do Museu Lumière.

08_Louis_Auguste_08.jpg Os irmãos Auguste e Louis Lumière.


Marisa

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