"A Doce Vida", de Federico Fellini: a liquidez do amor

Décadas à frente do seu tempo, Fellini nos presenteou com uma obra premonitória: "A Doce Vida" trata da liquidez das relações e da mercantilização de toda a vida privada. É neste ponto em que as celebridades começam a ser tornar mercadorias que a notícia vale mais que o fato.


01_la_dolce_vita_1960_2_01.jpg © "A Doce Vida", Marcello com Sylvia.

Gerado em 1960, "A Doce Vida" de Federico Fellini é considerado como um marco na carreira do diretor: se diz que marca a ruptura com o neo-realismo que o caracterizava antes e que assinala a introdução do simbolismo em suas obras. Eu diria mais: é uma obra premonitória.

Não usei o verbo 'gerado' à toa: não consigo dizer que o filme foi simplesmente feito. O fato de ser uma premonição de uma mudança estrutural na sociedade faz dele um produto cultural precocemente criado. É uma obra que nasceu com poucos meses de gestação e talvez aí seja possível entender sua lógica estranha e sua expressão precoce do tempo que viria para fundamentar uma sociedade pautada no consumo, no espetáculo e na insegurança.

02_Cartaz_do_Filme_02.jpg © "A Doce Vida", cartaz do filme.

02A_revista_leaf_cartaz_filme_doce_vida_02A.jpg © "A Doce Vida", revista Leaf, cartaz do filme.

Uma colcha de retalhos

Por não utilizar uma narrativa linear, Fellini faz do filme um monstro de aparência delicadamente horrível. É aí que se vê a repetição, em cada segmento do filme, de uma estrutura de insegurança, incerteza, hedonismo e consumo exacerbado.

Marcello é um jornalista da imprensa sensacionalista. Ele é responsável por obter furos de reportagem sobre a vida de famosos, ricos e aristocratas decadentes. Apesar de comprometido, Marcello tem inúmeros casos extraconjugais, ainda que sinta certa compaixão para com sua namorada/esposa: afinal, suas tentativas de suicídio são por culpa do explícito descaso que ele tem para com ela. Emma (a parceira), tem plena certeza de que as noitadas de Marcello são regadas por paixões pontuais e sabe que ele não liga para a fidelidade ou para o relacionamento de ambos.

Os casos que ele cobre vão desde a chegada de Sylvia, uma grande atriz norte-americana que, ingenuamente, vive num mundo cor-de-rosa cheio de felicidade; a uma suposta aparição da Virgem Maria no subúrbio de Roma – com uma cobertura midiática incrível que inclui a manipulação das ações que deveriam ser espontâneas dos familiares das crianças que viram a Virgem. Tudo calculado e nada livre, da maneira como a mídia é, mas que se esforça de um jeito sobrenatural para não parecer.

03_Marcello_Mastroianni_Como_Jornalista_da_Imprensa_Marrom_03.jpg Marcello Mastroianni como jornalista da imprensa marrom.

04_Anita_Ekberg_como_Sylvia_04.jpg Anita Ekberg como Sylvia.

Amor líquido

O ponto que considero interessante no filme é a liquidez das relações:

A insegurança de se amar alguém, representada na declaração que Madalena, sua primeira amante durante o filme, faz para Marcello minutos antes de cair nos braços de outro homem qualquer (Madalena diz que o ama, mas que sabe não ser uma parceira ideal, que sabe que não é fiel) – declaração essa que, além de expressar a insegurança de uma relação, também deixa claro o hedonismo daquela sociedade: a declaração é, ao mesmo tempo, um desabafo.

05_DolceVita_Anouk_Aimee_Maddalena_05.jpg Anouk Aimée como Madalena.

O evitar de uma relação fixa, represento na bela briga entre Marcello e Emma quando, abruptamente, ele rejeita todas as formas fixas, rígidas, que Emma tinha de o amar. Mas, mesmo assim, a leva para casa e faz as pazes, não perdendo seu objeto de desejo garantido.

06_dolce_vita_Yvonne_Furneaux_Emma_06.jpg Yvonne Furneaux como Emma.

O hedonismo de Sylvia, que é muito mais claro que o hedonismo do bacanal, no fim do filme, ou que o hedonismo de Madalena, durante a festa aristocrata. Sylvia é a simbolização dos EUA entrando na cultura italiana. Não são só os carros em alta velocidade, mas também a felicidade instantânea sem sentido. A alegria boba, ingênua, gozadora, que não lida com a parte negra da vida, permeia todo o filme.

A decadência dos centros de autoridade moral, representados pelo falso milagre da família pobre de Roma e pelo momento em que os helicópteros param no ar com a estátua do Cristo, para que os jornalistas peguem o telefone das lindas moças na piscina.

O espetáculo, no sentido debordiano da palavra: a vitória da aparência, da imagem, do imediato, sobre a essência, sobre o processo como um todo – a mercantilização de todas as esferas da vida, representada pelos paparazzi! No filme, são quase um grupo de corvos, acompanhando Marcello e perseguindo todas as celebridades e todos os momentos de que se pode tirar algumas boas fotos.

07_Os_Paparazzi_sempre_presentes_07.jpg Os Paparazzi sempre presentes.

A falta de significado na vida

Fellini antecipa um mundo de sensacionalismo e de mercantilização: um mundo onde a imprensa se torna mais um nó dentro da rede do mercado, onde seu compromisso com a realidade é um compromisso mediado pela esfera econômica, onde é possível, até mesmo viável, ter vários paparazzi nas ruas e jornalistas sensacionalistas esperando qualquer furo das mais recentes celebridades.

08_Federico_Fellini_Walter_Albertin_World_Telegram_08.jpg © Federico Fellini (Wikicommons, Walter Albertin, World Telegram).

De maneira mais geral, é nesta obra que observamos a ascensão da incerteza e insegurança dos laços humanos, combinada com a mercantilização – a incerteza e a insegurança são produtos de uma era sem autoridades morais, onde tudo se passa como se fosse o próprio indivíduo o dono de sua vida e de suas decisões, onde tudo é avaliado por categorias de consumo.

O monstro no fim do filme, a criatura marinha horrenda e a impossibilidade de se comunicar com Paola, a menina pura do hotel, terminam simbolicamente e de maneira mais complexa aquilo que a cena do pai de Marcello, arrasado após não conseguir ir para a cama com a dançarina de cabaré, de maneira simples, quis dizer: vive a vida o mais rápido possível, o mais intenso possível, porque, depois, nada mais vai poder ser feito e nada mais vai fazer sentido.

Frase essa, óbvio, acalantadora de ouvidos jovens e seduzidos por um mundo de velocidade e fantasia, mas aterradora para ouvidos treinados: viver tudo e rápido é saber que a vida tem um limite de tempo e que esse limite de tempo da própria vida é menor que o limite de tempo da existência. É viver por um tempo para, depois deste tempinho, carregar a carcaça para lá e para cá.

O filme mantém claras em nossa mente as consequências da mercantilização da vida: quando o mundo é dos jovens e velozes, os velhos e lentos são excluídos sistematicamente. Perdem suas vidas, mesmo ainda existindo. Veja o trailer e corra atrás do filme!


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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