Filmes que davam um sonho

Desde os primórdios cinematográficos, multidões em todo o mundo puderam se maravilhar ao ver que praticamente tudo era possível nas telas. Porém, um de seus primeiros feitos foi cumprir com o ousado desejo das pessoas de compreender e viver lucidamente seus sonhos. Esta foi a prova de que, mais do que arte ou técnica, o cinema também é mágica.


01_Le_Voyage_dans_la_lune_01.jpg © "Viagem ao Centro da Lua", George Méliès (Wikicommons).

É bem verdade que sem o cinematógrafo, o aparelho que ficou famoso pelas mãos dos irmãos Lumière, não haveria cinema. Porém, se não fosse Georges Méliès não existiria a arte de fazer filmes, já que o propósito principal da ferramenta no início era apenas ser uma evolução da prática fotográfica, registrando a realidade em movimento. Foi graças ao francês Méliès que com curtas como Viagem ao Centro da Lua (1902) esta arte se tornou o que é hoje. Além de dar forma e linguagem ao invento, ele também inseriu uma das facetas mais importantes do fazer fílmico: seu papel de transcender o mundo oniricamente.

02_George_Melies_wikicommons_02.jpg © George Méliès (Wikicommons).

Mas se hoje este mundo mágico, em seus 118 anos, é permeado por blockbusters, produções independentes e histórias boas, ruins e artísticas, quer dizer que a sétima arte abandonou suas origens? Na verdade, não. Por mais que seus primeiros anos tenham sido marcados por filmes que traziam aspectos da realidade e se assemelhavam a ela em maior ou menor escala, não demorou até que as influências dos sonhos retornassem. Logo na segunda década do século XX surge o expressionismo alemão, cujo marco inicial é O Gabinete do Doutor Caligari (1920). Mesmo não sendo a primeira, é uma das mais importantes obras com traços oníricos.

03_Gabinete_do_Dr_Caligari_03.jpg © Cartaz do filme "Gabinete do Dr. Caligari" dirigido por Robert Wiene, (Wikicommons, Atelier Ledl Bernhard).

Neste meio tempo, os longas-metragens tomavam rumos diferentes e Hollywood estabelecia-se como um templo cinematográfico, tornando esta arte comercial. Mesmo assim, não demorou até o mundo surpreender-se novamente com o onirismo de Um Cão Andaluz (1929), do surrealista Luiz Buñuel.

Importantes adventos posteriores, como a chegada do som nas telas e as duas grandes guerras, continuaram as mudanças na sétima arte, com filmes que continuavam a mosrar o real e a fantasia.

Com o passar dos anos, o cinema já podia ser considerado algo para todos os gostos. Assim, as produções oníricas também encontraram seu lugar nas mentes e corações dos cinéfilos fãs do estilo, principalmente pelos longas-metragens “nonsense” que começaram a se popularizar a partir de 1960. Entre eles se destacam o terror psicológico Os Inocentes (1961) e o drama emocional Quem tem medo de Virgínia Woolf? (1966). Na década seguinte vários diretores passaram a incorporar esta aura em seus filmes, como Dario Argento e seus giallos e Nicolas Roeg com sua experimentação visual. Logo depois, o americano David Lynch começa a misturar sonhos e realidade, lançando, entre outros trabalhos, Eraserhead (1977) e Blue Velvet (1986).

04_Eraserhead_Poster_04.jpg © Cartaz do filme "Eraserhead" de David Lynch, (Wikicommons).

E depois disto tudo, o que pode garantir a sobrevivência deste gênero tão peculiar da sétima arte? Muitos indicativos, mas um dos principais é sem dúvida a produção independente. Desde o surgimento deste filão, cineastas do mundo todo puderam explorar suas inspirações artísticas e fugir da fórmula comercial, beneficiando a longevidade fílmica onírica. Basta olhar para obras como Trainspotting (1996) de Danny Boyle e Requiem para um sonho (2000) de Darren Aronofsky. Há também o caso de diretores cuja carreira rompe os modelos tradicionais de narrativas calcadas na realidade, sendo Lars Von Trier, um dos criadores do movimento Dogma 95, um dos mais expressivos: incorpora há décadas o irreal em suas tramas.

05_Lars_Von_Trier_Cannes_2011_05.jpg © Lars Von Trier no Festival de Cinema de Cannes, 2011, (Wikicommons, Georges Biard).

Bom, pode-se dizer que uma lista enorme de filmes semelhantes a sonhos lúcidos continua até hoje. Talvez seu principal papel seja lembrar o mundo dos primórdios do cinema, quando tudo era possível, até mesmo as pessoas reviverem coisas que aconteciam enquanto dormiam. Se hoje não tem nada que a sétima arte não possa fazer com seus efeitos especiais e projetos milionários, vale a pena dar atenção a longas-metragens que produzem o mesmo efeito naturalmente. Além de instigar a imaginação, eles fazem pensar, aumentam a cultura e o intelecto, abrem a mente e possibilitam outra percepção do mundo.


jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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