Norman Rockwell: um retrato popular da América

Norman Rockwell tinha um dom: uma facilidade impressionante de registrar em pinturas o mundo e as pessoas à sua volta. Isso fez com que gerações se maravilhassem com suas criações. O modo de vida americano clássico e cenas do cotidiano, registradas por ele, lhe renderam um lugar permanente no universo da cultura pop.


01_Norman_Rockwell_photo_1_01.jpg © Norman Rockwell, (Wikicommons, James Vaughan).

Se vale a velha máxima de que quando morremos o que fica são as nossas ações e aquilo que produzimos, entre aqueles que permanecem em nossas vidas e em nossa cultura está um desenhista americano mundialmente famoso por seu engenho e suas imagens icônicas. Seu nome? Norman Rockwell.

Mas o que fez o prolífico artista de Massachusetts ser tão especial? Para começar, desde o início de sua carreira, nas primeiras décadas do século XX, até a sua morte, em 1978, foi ele quem provavelmente melhor registou uma certa visão histórica e estética dos EUA ao longo dos anos. Nascido em 1894, começou a seguir sua vocação aos 14 anos, quando entrou na National Academy of Design e na Art Students League. Em 1912 publicou seu primeiro trabalho de destaque - um livro de ilustrações intitulado Tell Me Why: Stories Of Mother Nature. A partir de então, a perfeição e minúcia de sua obra passaram a encantar o mundo.

02_Norman_Rockwell_photo_2_02.jpg © Norman Rockwell, Meninos com carrinho de bebé, (Wikicommons).

Entre os inúmeros adjetivos que melhor poderiam descrever este indivíduo de grande talento, patriota e detalhista precisam estar na lista. Foi voluntário para lutar na Primeira Grande Guerra. Depois, retratou a vida americana em seus milhares de desenhos, desenvolvendo um modus operandi de um perfeccionismo peculiar. Antes de dar vida a uma nova ilustração, seus esboços eram trabalhados exaustivamente, como se reproduzisse uma fotografia em toda a sua perfeição visual pelo próprio punho. Desde Boy and Baby Carriage (1916), sua primeira produção para o Saturday Evening Post, onde trabalhou por mais de quatro décadas, é possível ver sua grande capacidade de retratar cenas quase mais reais que a própria realidade.

Criatividade, aliás, é algo que também nunca faltou ao ilustrador. Não somente dentro da cultura norte-americana, mas na própria pop art em si, pouquíssimos elementos escaparam de seu quase onipotente pincel. The Law Student (1927) traz toda uma gama de significações, com o rapaz estudando compenetradamente ao lado de fotos do presidente Abraham Lincoln. O político também aparece em April Fool: Girl with Shoepkeeper (1948), junto com a Monalisa e outros elementos escondidos entre as pequenas estátuas, os livros das estantes e os animais empalhados. Há vida num universo cheio de referências em cada uma de suas ilustrações.

03_Norman_Rockwell_photo_3_03.jpg © Norman Rockwell, The Gossips, (Wikicommons, Eric Shoemaker).

Outro mérito presente em toda a obra de Rockwell é sua sensibilidade para pintar retratos. Desde pessoas comuns, como o mineiro de Mine America’s Coal (1943), até um dos presidentes mais famosos da história americana em Portrait of John Kennedy (1960), o artista conseguiu captar a essência humana usando de uma complexidade simplista quase paradoxal. Ao ilustrar Rosie The Riveter (1943), outro símbolo dos EUA, mais ingredientes da essência humana na austeridade da mulher desenhada são mostrados. Já em The Gossips (1948), há a mistura de várias emoções nas reações dos personagens que estão passando uma fofoca para a frente.

04_Norman_Rockwell_The_Saturday_Evening_Post_04.jpg © Norman Rockwell, The Saturday Evening Post, (Wikicommons).

Infelizmente, o mundo nem sempre é justo e mesmo que o ilustrador tenha escrito com tinta permanente sua página na cultura pop, não há um grande reconhecimento de sua obra. Ao se utilizar de traços realistas, evocando características do passado e mesclando-os com a sociedade em que vivia, sua ligação com as correntes artísticas contemporâneas se deu de maneira pós-moderna, influenciando a muitos. Talvez por isto, infelizmente, o trabalho de Rockwell que mais habita o imaginário coletivo são talvez os papais-noéis das latas de Coca-Cola.

Apesar dos pesares, tamanha intimidade e aptidão para a sua profissão deram ao desenhista uma vida próspera até falecer, aos 84 anos, devido a um enfisema. Seu legado se estendeu tanto ao cinema (em cenas de filmes como Império do Sol e Forrest Gump: O contador de histórias) como à música, em composições como Dreamland, da banda Our Lady Peace’s, inspirada em seus desenhos. Os milhares de fatos e pessoas reais e fictícias de suas gravuras mostraram em um mundo fantástico o que há de melhor naquele em que vivemos.

05_Fact_e_Fiction_by_Norman_Rockwell_1917_05.jpg © Norman Rockwell, Leslie - Illustrated Weekly Newspaper, (Wikicommons, United States Library of Congress's).


jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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