O mundo ilustrado de Barrenetxea

Bruxas, aviadores, gigantes, figuras caricatas e anónimas de um mundo imaginário. Ou então personagens bem conhecidas da literatura clássica, como a curiosa Alice do País das Maravilhas, ou o genial Sherlock Holmes. São, bem certo, demasiadas personagens para um livro só, mas todas fervilham numa única mente: a do ilustrador basco Iban Barrenetxea.


01_Blancanieves_los_siete_enanitos_01.jpg © Iban Barrenetxea, "Branca de Neve e os Sete Anões".

O traço de Iban Barrenetxea é facilmente reconhecível: ilustrações do universo infanto-juvenil, muitas figuras esguias, de longas pernas, ou tão redondas que poderiam rebolar por qualquer encosta. Além disso, há toda uma aura familiar nas imagens que o ilustrador cria – seja nas longas barbas de um qualquer gigante, ou nos pormenores com que enriquece as suas bruxinhas, personagens tão comuns nas estórias infantis.

02_El_gigante_Magnus_02.jpg © Iban Barrenetxea, "O Gigante Magnus".

03_Brujarella_03.jpg © Iban Barrenetxea, "Brujarella".

Além disso, há outro aspecto que o distingue. O basco não é só ilustrador e aventura-se também no outro lado de um livro: as palavras. Dos 14 livros em que trabalhou como ilustrador, três deles são também escritos por si. Até porque, confessa à obvious, o desejo de fazer ilustrações nasceu mais por amor aos livros em si do que por gostar de desenhar. Entretanto, os livros já foram traduzidos para línguas como russo, francês e até coreano.

A veia de ilustrador só começou há cerca de três anos. Antes disso, Iban era um “aborrecido designer gráfico”, nas suas palavras, durante mais de “10 longos, longos anos”. Mas mesmo nessa altura, a paixão pela escrita e pela ilustração já se manifestava. Aqui e acolá, nos tempos mortos entre projectos, o basco mantinha um blog que começou a despertar o interesse de editores. E, depois disso, foi só dar o salto… ou melhor, pegar na vassoura e voar para uma nova vida: a de autor/ilustrador a full-time.

Na bagagem de trabalhos já feitos conta com ilustrações de Sherlock Holmes (de Sir Arthur Conan Doyle), David Copperfield (de Charles Dickens), Branca de Neve e seus sete amigos anões (dos Irmãos Grimm) ou da pequena Alice de Lewis Carroll. Sobre esta última, Iban conta que nem hesitou quando lhe fizeram a proposta de ilustrar uma nova edição da obra. “Há livros que são demasiado divertidos para dizer que não”, afirma.

07_Sherlock_07.jpg © Iban Barrenetxea, "Sherlock Holmes".

08_Sherlock_cover_08.jpg © Iban Barrenetxea, "Sherlock Holmes".

04_David_Copperfield_04.jpg © Iban Barrenetxea, "David Copperfield".

05_Alicia_05.jpg © Iban Barrenetxea, "Alice no País das Maravilhas".

E como se dá uma nova cara a personagens já tão habituais no universo literário global? Para o ilustrador basco, é importante usar as referências já existentes de forma a criar novas ilustrações. “Para mim, o objectivo não é criar algo ousado, quebrar tradições, ser absolutamente moderno… Para mim, o objectivo é contar estórias e imagens que se liguem com o leitor”, explica Iban.

06_avion_06.jpg © Iban Barrenetxea, "Avión".

A importância da imaginação

O mundo imaginário de Iban começou na infância, como seria de esperar. Como tantos de nós, o ilustrador sentia necessidade de imaginar o seu próprio universo para ilustrar os livros que lia. Algo que ainda faz sempre que lê um livro. E não deixa de recomendar: “sonhar acordado” com as imagens é a parte mais importante do processo para um ilustrador. “Uma vez que consigas ver a imagem dentro da tua mente, o resto é meramente técnica”.

Iban reconhece a responsabilidade elevada de criar livros para crianças. “Leitores não são feitos através de ‘livros fáceis’; quem é um grande leitor tornou-se assim ao ler ‘bons livros’”, opina. Daí que leve muito a sério o que faz, embora retirando imensa diversão do trabalho. E, sobretudo, nunca escreve uma estória apenas como desculpa para desenhar uma ilustração. O importante para o ilustrador basco é contar a estória, da melhor maneira possível.

Quando o trabalho em causa é ilustrar o texto de outras pessoas, o truque é absorver o texto até que ele se torne parte integrante do artista. Só assim as imagens podem surgir com clareza na mente do ilustrador e, depois, na página.

E para o futuro haverá outros clássicos irresistíveis que Iban queira ilustrar? Perante a questão da obvious, a resposta do ilustrador é clara: “Há tantos, que precisaria de viver 300 anos”. Mesmo assim, os mundos literários fantásticos das Mil e Uma Noites, Ilha do Tesouro e das obras de Julio Verne chamam-lhe a atenção. Assim, como os seus próprios livros, que espera continuar a escrever. Afinal, pensa mais um pouco, “300 anos não é suficiente”.


Marisa

sonha em abrir uma livraria-chocolataria para que possa juntar os seus dois prazeres. E quer deixar impressões digitais de chocolate nos livros que mudaram a sua vida.
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