Tennessee Williams: dos palcos para as telas de cinema

Vencedor do prêmio Pulitzer, suas obras tornaram-se clássicos, referências essenciais para atores e amantes do teatro no mundo inteiro. Conheça um pouco mais da fascinante obra do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams.


01_Tennessee_Williams_NYWTS_01.jpg © Tennessee Williams, (Wikicommons, NYWTS).

Thomas Lanier Williams nasceu em 26 de março de 1911, em Columbus, no estado do Mississippi, Estados Unidos. Sua infância não foi nada fácil, e no futuro ele haveria de transpor fatos dela para suas peças de teatro. Seu pai, Cornelius Williams, era um caixeiro viajante - alcoólatra, viciado em jogatina e extremamente abusivo. Sua mãe, Edwina Williams, era uma mulher instável; o menino cresceria com a impressão de ter sido preterido pelo pai em favor do irmão Dakin, possivelmente porque Tennessee foi uma criança fraca e doente, que tornou-se bastante introspectiva: seu maior divertimento eram mesmo os livros.

Depois de frequentar as universidades do Missouri e de Washington, em 1938 ele se transferiu para a Universidade de Iowa, onde se graduou com um bacharelado em artes. Quando foi recusado pelo exército, sofreu nova ofensiva do pai, que fora veterano de guerra: ele o obrigou a abandonar o jornalismo e se empregar numa fábrica de calçados. Contudo, infeliz e sem perspectiva de sucesso com sua escrita, Williams começou a se viciar em bebida alcoólica; aos 24 anos de idade, largou o emprego e foi em seguida internado num manicômio. Aos 26 anos de idade, adotou o pseudônimo "Tennessee", em função dos anos felizes que viveu na capital daquele estado - Nashville.

03_Tennessee_Williams_NYWTS_03.jpg © Tennessee Williams, (Wikicommons, NYWTS).

Os primeiros sucessos

O sucesso demorou a chegar. Entre o fim da década de 30 e o começo da de 40, Tennessee Williams batalhou para se sustentar, como jovem dramaturgo que luta para ter seu trabalho aceito e reconhecido. Durante essa época, ele chegou a participar de um concurso de dramaturgia em Nova Iorque, para o qual enviou quatro peças de um só ato, publicadas mais tarde sob o título de American Blues; Williams terminou sendo premiado com 100 dólares, além de ter chamado a atenção de um agente de Hollywood, o que que lhe rendeu um contrato de seis meses com a Metro Goldwyn Mayer, como roteirista, ganhando 250 dólares semanais. Nessa época ele começou a trabalhar no manuscrito - inicialmente um roteiro para o cinema - daquele que seria o seu primeiro grande sucesso.

A peça teatral The Glass Menagerie (conhecida no Brasil como À Margem da Vida ou Algemas de Cristal), teve sua pré-estreia em Chicago em 1944 e foi imediatamente um sucesso retumbante, o que a levou à Broadway no ano seguinte, onde ganhou o prêmio do New York Drama Circle Critics Award. Esta peça, que é considerada a mais autobiográfica que Tennessee escreveu em sua carreira, se desenvolve na casa de Amanda, uma mulher amargurada, cujo maior objetivo de vida é conseguir um casamento para a filha Laura, uma jovem que tem um defeito físico nas pernas e se refugia do mundo em sua coleção de bichinhos de cristal.

05_The_Glass_Menagerie_1st_edition_cover_05.jpg © Tennessee Williams, "The Glass Menagerie", capa da 1ª edição. (Wikicommons).

Os êxitos no cinema

Três anos depois, estrearia a peça que é provavelmente a obra mais famosa de Tennessee Williams - Um Bonde Chamado Desejo, que rendeu ao dramaturgo o seu primeiro Prêmio Pulitzer. A peça estreou na Broadway em 3 de dezembro de 1947 e se manteve até 17 de dezembro de 1949; a produção da Broadway foi dirigida por Elia Kazan - grande amigo de Williams - estrelando Marlon Brando, Jessica Tandy, Kim Hunter e Karl Malden. Na produção encenada em Londres em 1949, estiveram nos papeis principais Bonar Colleanom, Vivien Leigh e Renee Asherson, com direção de Laurence Olivier. Um Bonde Chamado Desejo teve inúmeras adaptações para o cinema e televisão, sendo a mais famosa de todas a que foi dirigida por Elia Kazan em 1951, estrelando Marlon Brando, Vivien Leigh e Kim Hunter. Indicada a onze Oscares, ganhou quatro, inclusive o Oscar de Melhor Atriz para Vivien Leigh, no papel de Blanche DuBois - uma das personagens femininas mais emblemáticas do teatro.

Cenas do filme "A Streetcar named desire". Sem dúvidas, o cinema foi um outro grande veículo de consagração do trabalho de Tennesse; o mundo haveria de reconhecer e reverenciar ainda mais seus textos quando eles foram adaptados para o cinema. Assim foi com The Glass Menagerie, A Streetcar Named Desire, The Rose Tattoo e várias outras. The Rose Tattoo estreou na Broadway em 1951 e haveria de ser laureada com o Tony Award de Melhor Peça Teatral. Conhecida no Brasil como A Rosa Tatuada, o texto conta a história de Serafina Delle Rose, uma viúva ítalo-americana da Louisiana que se enclausura após a morte do marido, afastando qualquer chance de retomar sua vida, esperando que sua filha faça o mesmo. Originalmente, Williams escreveu o papel de Serafina para a sua grande amiga, a atriz italiana Anna Magnani. Contudo, em 1951, o inglês dela era ainda muito limitado e a atriz Mauren Stapleton acabou interpretando o papel no teatro com maestria. Quando a peça foi levada ao cinema em 1955, agora com Anna Magnani no papel principal, dirigida por Daniel Mann, Williams fez questão de ele mesmo adaptar o roteiro, junto com Hal Kantar. A performance memorável de Magnani acabou por lhe render o Oscar de Melhor Atriz daquele ano. Anna Magnani no cinema em "The Rose Tattoo" 06_StreetcarNamedDesire_06.jpg © Tennessee Williams, "A Street Car Named Desire", capa da 1ª edição. (Wikicommons).

07_theRoseTattoo_07.jpg © Tennessee Williams, "The Rose Tattoo", capa da 1ª edição. (Wikicommons).

Em 1955, Tennessee Williams recebeu seu segundo e último Prêmio Pulitzer, pela peça Cat on a Hot Tin Roof (conhecida no Brasil como Gata em Teto de Zinco Quente). A peça narra um dia na vida de uma família sulista abastada, reunida para comemorar o aniversário do patriarca 'Big Daddy' - ele não sabe mas está com um câncer terminal, e o único que não quer esconder-lhe a verdade é o seu filho caçula, Brick. Brick foi um famoso jogador de futebol americano, mas agora não passa de um alcoólatra, que anda com ajuda de muletas, por causa de um acidente que sofreu enquanto estava bêbado. Maggie, sua esposa que ele rejeita, pensa que a razão do seu alcoolismo é para esquecer a verdadeira natureza do relacionamento entre Brick e o amigo do time de futebol, Skipper, que cometeu suicídio recentemente. Quando todos se reúnem à noite, frente a frente, é hora de lavar a roupa suja e pôr tudo em pratos limpos. Apenas três anos depois de sua estreia na Broadway, Gata em Teto de Zinco Quente foi levada às telas de cinema, em sua mais famosa adaptação, dirigida por Richard Brooks e estrelando Elizabeth Taylor e Paul Newman. Contudo, as insinuações homossexuais quanto ao relacionamento de Brick e Skipper - que são abertas na peça - foram completamente veladas nesta versão cinematográfica.

Elisabeth Taylor e Paul Newman numa cena de "Cat on a hot thin roof" 08_CatOnAHotTinRoof_09.jpg © Tennessee Williams, "Cat on a Hot Tin Roof", capa da 1ª edição. (Wikicommons).

A fase psiquiátrica: homossexualidade e loucura

Com as mortes do pai e do avô em 1956 e 1958, Williams começou a fazer psicanálise, o que viria a influenciar fortemente o seu trabalho posterior. Suddenly, Last Summer (literalmente, De Repente, no Último Verão), de 1958, é tida como a primeira peça teatral de sua produção 'psiquiátrica' ou 'antropofágica'; este é um dos trabalhos mais lúcidos e poéticos do autor. A peça, de um único ato, consiste basicamente em dois longos monólogos. Catharine Holly, uma parente pobre de uma rica família de Nova Orleans, começa a demonstrar sinais de insanidade depois de presenciar a morte de seu primo Sebastian, sob circunstâncias misteriosas, num vilarejo espanhol. Violet Venable, mãe de Sebastian, tentando esconder a verdade sobre a homossexualidade e a morte do seu filho, ameaça lobotomizar Catherine por causa dos relatos impertinentes da jovem, a única testemunha ocular da macabra morte de Sebastian. De Repente, no Último Verão é até hoje uma das peças mais famosas de Tennessee e foi adaptada para o cinema exatamente um ano após sua estreia no teatro. Na versão cinematográfica, dirigida por Joseph L. Mankiewicz, estrelaram Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn e Montgomery Clift; o resultado final foi simplesmente impecável, embora o filme difira bastante da versão teatral, adicionando outros personagens e núcleos inexistentes no texto original da peça. Taylor e Hepburn, ambas, foram indicadas ao Oscar de Melhor Atriz por suas interpretações soberbas de Catharine Holly e Violet Venable.

Trailer de "Suddenly last summer" 09_SuddenlyLastsummer_09.jpg © Tennessee Williams, "Suddenly, Last Summer", capa da 1ª edição. (Wikicommons).

Tennessee Williams tinha um carinho profundo por sua irmã Rose, que apresentara sintomas de esquizofrenia desde jovem e tinha sido internada em vários hospitais psiquiátricos. Sem perspectivas de melhora e cada vez pior, a jovem foi submetida a uma lobotomia em 1943, que desastrosamente terminou por incapacitá-la para o resto da vida. Williams providenciou para que Rose fosse assistida para o resto de sua vida, mas a invalidez da irmã teve sérias consequências nele mesmo, contribuindo para o seu alcoolismo e dependência química de várias anfetaminas e barbitúricos diferentes. Homossexual assumido, Williams teve um relacionamento de mais de dez anos com Frank Merlo, um ator de origem siciliana que havia servido na marinha norte-americana durante a II Guerra Mundial. Os dois se conheceram em Nova York e logo se apaixonaram. O romance durou de 1947 até a morte de Merlo, em 1963; ao lado dele, Tennessee viveu o período de maior estabilidade amorosa e psicológica de sua vida, e o auge de sua carreira. Frank Merlo representava a calmaria no meio da tempestade de Tennessee Williams.

04_Andy_Warhol_and_Tennessee_Williams_NYWTS_04.jpg © Tennessee Williams e Andy Warhol (Wikicommons, NYWTS).

Fim do êxito, fim de vida

Após o estrondoso sucesso dos anos 40 e 50, as décadas seguintes lhe trouxeram vários fracassos de público e crítica. Williams nunca parou de escrever, mas a qualidade do seu trabalho foi influenciada negativamente pela depressão e o consumo crescente de álcool e drogas. A crítica nunca conseguiu aceitar o novo estilo de escrita que Tennessee desenvolveu durante os anos 60 e insistia em comparar seus últimos trabalhos com os primeiros, segundo ele mesmo alegou. Dentro de sua obra, especula-se que várias de suas heroínas foram inspiradas em sua irmã Rose e em outros membros de sua família, incluindo ele mesmo. Laura Wingfield e Amanda Wingfield de The Glass Menagerie foram inspiradas em Rose e em sua mãe, Edwina, respectivamente. Assim como Blanche DuBois teria sido baseada em Rose. Outras personagens masculinas também podem ter sido baseadas no próprio Tennessee - tais como Tom Wingfield em The Glass Menagerie, e Sebastian em Suddenly, Last Summer.

Sua obra, caracterizada pela densidade psicológica, é permeada por temas como homossexualidade, alcoolismo, instabilidade mental, tensão sexual, e outros assuntos de abordagem espinhosa. De sua vasta produção constam mais de vinte peças de teatro principais, cerca de setenta peças de um ato só, vários contos, dois romances e dois livros de poesia.

Tennessee Williams foi encontrado morto no seu quarto do Hotel Elysee, em Nova York, no dia 25 de fevereiro de 1983; tinha 71 anos de idade. A causa mortis do dramaturgo foi um engasgo.


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