Slap! Abram alas para o contrabaixo...

O que faz um contrabaixo se diferenciar em meio a toda a sorte de instrumentos e sonoridades? Em muitos casos, seu destino se resume a bases e acompanhamentos musicais. Mas graças ao talento de alguns músicos visionários, sua imagem mudou perante o mundo, com a inigualável técnica do slap.


01_Bootsy_Collins_Photo_01.jpg © Bootsy Collins, (Wikicommons, Itamar Dantas de Oliveira).

Desde os protótipos até os estereótipos musicais, a supremacia de alguns instrumentos é inegável. Muitas vezes pela estética sonora agradável, são enaltecidos solos de guitarra mega virtuosos do rock, ou o saxofone bem trabalhado do jazz, ou o piano da música erudita. Exemplos não faltam, mas o que dizer dos patinhos feios responsáveis pela condução de ritmo, como a bateria e o contrabaixo? Cada um busca seu lugar na música do próprio jeito. O primeiro usa de recursos como solos rápidos e quebras constantes de ritmo. Já o segundo tem um jeito muito particular de se destacar, inspirado inclusive na percussão: o slap e o pop.

Tudo bem que o pizzicato – jeito padrão de tocar instrumentos de corda com os dedos – sem dúvida merece respeito. Afinal, desde seu aparecimento no século XVII muitos aspectos musicais foram beneficiados, incluindo os do contrabaixo. Além disto, Jaco Pastorious, que é para o baixo o que Jimmy Hendrix é para a guitarra, o usava. O problema é o resultado do alcance sonoro desta técnica, que o restringiu ao acompanhamento melódico, sobretudo antes da criação de caixas e amplificadores. Foi ao surgir o som metalizado resultante de batidas e puxadas de dedos em notas e acordes que o mundo escutou os graves com mais atenção.

Mas de onde veio este método responsável por uma sonoridade tão peculiar? Mesmo que muitos creditem o feito a Larry Graham, cujo groove nos dedos revolucionou entre outros o funk, o soul e o disco, registros mostram sua existência desde as primeiras décadas do século XX. Em 1920 e 1930, alguns pioneiros do jazz de Nova Orleans como Wellman Braud e Steve Brown já faziam experimentações martelando suas mãos nas grossas cordas de violoncelos, a fim de obter um ritmo mais encorpado. Claro que a maneira de Graham, que começou a tocar nos anos 60, usar o instrumento aperfeiçoou o slap. Chamou-lhe 'Thumpin' and Pluckin', e esse modo único de fazer melodias acertou o mundo da música em cheio, o transformando em vários aspectos.

03_Marcus_Miller_Photo_03.jpg © Marcus Miller, (Wikicommons).

Nos estilos musicais já citados, uma gama de artistas talentosos começou a usar a técnica com sucesso. Stanley Clarke, Marcus Miller e Victor Wooten trouxeram para o universo jazzístico sons encorpados por suas batidas nas cordas, adotadas por muitos outros no meio. Do lado dos ritmos mais dançantes, Bootsy Collins também se tornou um dos maiores representantes do método. Inicialmente baixista de James Brown, logo enveredou para uma bem sucedida carreira a solo, com o Parliament-Funkadelic e projetos paralelos. Além dele, destaca-se ainda Louis Johnson, que atuou do lado de Michael Jackson e no The Brothers Johnson.

Em contrapartida, o slap não impressiona somente pelo ritmo original e as possibilidades que oferece no contrabaixo. Seu uso em gêneros pouco prováveis, cuja hegemonia pertence aos outros instrumentos (como o rock’n roll e o metal) merece destaque. Basta ouvir as músicas marcadas pelos riffs graves de Red Hot Chilly Peppers, resultado das batidas e puxadas nas cordas de Flea. Mike Gordon oferece aos fãs de Phish um som que permite a mistura de vários ritmos e estilos, que vão do progressivo ao country. Há ainda nomes como Les Claypool, que, se apropriando do peso de alguns estilos, trouxe melodias únicas, criando o funk-metal do Primus.

02_Flea_of_Red_Hot_Chili_Peppers_at_the_Oxygen_Festival_in_2006_Leon_Wilson_02.jpg © Flea, Red Hot Chilly Peppers, (Wikicommons, Leon Wilson).

Além destes, muitos outros contrabaixistas profissionais e amadores usam esta maneira de tocar em praticamente todas as esferas da música onde há a presença do instrumento. Graças a sua existência, o baixo deixou de ser um acompanhamento melódico e começou a assumir um lugar de destaque em várias ocasiões. Afinal de contas, quatro cordas não perdem em nada para seis, ou para teclas de piano, ou para tambores de percussão. Ainda mais quando conseguem reproduzir o som de todos eles praticamente ao mesmo tempo.


jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/música// @obvious, @obvioushp //jeferson scholz