A cor da guerra

Nunca a guerra do Congo foi tão colorida como nas fotografias de Richard Mosse. Muito longe de um sonho cor-de-rosa, o trabalho do fotógrafo irlandês põe a olho nu o conflito armado mais “invisível” da história moderna. Como? Dando visibilidade a algo que, por norma, é também invisível ao olhar: o espectro infra-vermelho.


01_RichardMosse01_01.jpg © Richard Mosse.

Longe do noticiário das 20h, a guerra na República Democrática do Congo é um conflito praticamente invisível para quem vive longe de África. Brutal e sanguinária, como todas as guerras, mas com contornos de crueldade difíceis sequer de imaginar. Iniciada em 1998 e oficialmente terminada em 2003, é uma guerra que continua a espalhar a morte no continente africano: é considerada como o conflito mais mortífero depois da Segunda Guerra Mundial e estima-se que, desde 1998, tenham morrido 5,5 milhões de pessoas, em consequência dos confrontos. Dada a dimensão e invisibilidade mediática do conflito, o fotógrafo Richard Mosse quis usar o fotojornalismo e a arte como veículos de alerta para a guerra do Congo. Tornar visível o invisível acaba por ser o mote do trabalho Infra, que se reflecte tanto no tema tratado, como no medium usado – uma película fotográfica de infra-vermelhos.

É, no fundo, uma pedrada no charco, uma chamada de atenção. Somos cidadãos de um mundo inundado por imagens a cada segundo. Daí que, de tão habituados a imagens de horror e violência nas notícias, o mundo tenha ganho uma couraça de indiferença generalizada. Congo, Síria, Afeganistão… O nosso cérebro vai de tema em tema, esquecendo tudo no momento a seguir. Mosse quis, por isso, quebrar a rotina e fazer questão de que o seu trabalho de fotojornalismo sobre a Guerra no Congo seria lembrado. Basta olhar para as imagens alcançadas: fotos de guerra envoltas num tom rosa, que, de tão artificial, se torna como uma exclamação artística pop sobre um cenário de violência.

02_RichardMosse02_02.jpg © Richard Mosse.

O efeito de antítese não deixa o público indiferente: esta é La Vie en Rose, no mais brutal dos cenários. E, perante as paisagens do Congo e dos grupos armados fotografados, a tão estereotipada doçura do rosa passa a ganhar laivos amargos do vermelho-sangue. E o pop dá passagem a um expressionismo cru…

Nesta representação colorida do mundo, o Photoshop não esteve presente. As imagens captadas pela objectiva de Mosse são resultado da célebre película de infra-vermelho Aerochrome, da Kodak. Esta película fotográfica distingue-se por captar a radiação infra-vermelha. De forma prática, o verde – visível a olho nu – torna-se magenta nas fotografias.

14_RichardMosse08.jpg © Richard Mosse.

E se a guerra é o tema principal de Infra, não é menos verdade que a própria história do Aerochrome está, também ela, ligada aos conflitos armados. Esta película foi usada em grande escala pelas forças dos USA durante a guerra do Vietname, de forma a captar imagens aéreas do território vietnamita. Isto porque a camuflagem das tropas absorve a radiação infra-vermelha, ao contrário da vegetação, que a reflecte. As imagens obtidas pelo Aerochrome permitiam, assim, detectar as posições inimigas no terreno de combate.

A escolha da película não foi, portanto, inocente. O seu uso militar no Vietname fez com que Mosse a voltasse a usar (apesar da descontinuidade da produção, pela Kodak, em 2007) para as suas imagens do Congo, dando origem a uma pluralidade de interpretações e analogias. Por outro lado, ao captar o invisível (radiação infra-vermelha), o fotógrafo irlandês tenta também dar visibilidade ao conflito “escondido” e, desta forma, contrariar a ideia de Antoine de Saint-Exupéry, de que “o essencial é invisível aos olhos”. O objectivo é também repensar, de forma drástica, as representações tradicionais de cenários de conflito. E tudo se conjuga, simultaneamente, perante o espectador: o surreal, o violento e o belo. Porque, em toda a ficção dos tons rosa, há uma beleza onírica que nos capta e prende o olhar.

03_richardmosse03_03.jpg © Richard Mosse.

O trabalho fotográfico, publicado em 2011, ganhou entretanto novos contornos. A viagem de Richard Mosse – e dos colaboradores Trevor Tweeten e Ben Frost – ao Congo está agora retratada numa instalação multimédia que une fotografia e som, em vídeo. Este The Enclave é a representação oficial da Irlanda na 55.ª Bienal de Veneza, agendada entre Junho e Novembro de 2013. Consulte o site oficial de Richard Mosse aqui

04_RichardMosse04_04.jpg © Richard Mosse.

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10_RichardMosse11.jpg © Richard Mosse.

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13_RichardMosse14.jpg © Richard Mosse.


Marisa

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