Gran Torino e a fabricação do anti-herói

Clint Eastwood já está velho, todos sabemos, mas seus filmes ainda são a agressividade escorrendo do pacote! Gran Torino é aquele longa em que, ao tratar de maneira dramática e violenta um dado assunto delicado, ao tomar temas como a xenofobia e as gangues do subúrbio, o velho mostra seu valor como diretor.


01_gran_torino_movie_01.jpg © "Gran torino", o filme.

Gran Torino é um filme lançado em 2008 (e dirigido pelo próprio Clint) que não perdoa seu personagem principal. Não tenha dúvida, Walter Kowalski – Clint veiaco e linha-dura - não é um santo. Ele é conservador, grosso, extremamente ríspido e nada amável. É um veterano de guerra que só ia à igreja para agradar sua esposa.

O filme começa com a morte de sua esposa e a dúvida cruel entre seus filhos: o que fazer com o pai rabugento? Eu acredito que o longa pode ser delineado a partir dessa questão. É aqui que é mostrada uma ruptura entre o Walter da família Kowalski e o Walter morador de Detroit. Vale dizer que a vida de Walter foi no subúrbio de Detroit, junto com outros trabalhadores brancos das indústrias automobilísticas da região (ele, por exemplo, trabalhou durante sua vida toda na GM).

02_No_velorio_de_sua_esposa_02.jpg No velório de sua esposa.

O Walter da família é morto com o falecimento da única ligação que ele tinha com esta: sua esposa. A discussão dos filhos não é boba. Se trata de saber o que fazer com um pedaço de carne repulsivo que é, por coincidência, seu pai. Não há mais ligação nenhuma e isso é confirmado no momento em que Walt precisa se internar no hospital da região e não consegue avisar (e pedir a responsabilidade pela internação) ao seu filho. O filho não deu atenção ao pai e o pai não se humilhou pela atenção negada.

Resta a vida do Walter morador de Detroit, mais ou menos xenófobo que não consegue fazer (e nem quer) amizade com ninguém. É esse Walter que pega seu vizinho, Thao, um asiático da etnia hmong, tentando roubar seu Gran Torino. O roubo seria meio que o teste inicial para Thao entrar em uma gangue de asiáticos da região. Para reparar o dano moral que o ato trouxe à família, Thao foi forçado a trabalhar para Walter por uma semana, e é nesta semana de trabalho que começa o início de uma amizade. Por incrível que pareça!

03_A_gangue_asiatica_tentava_coagir_Thao_ate_que_eles_foram_humilhados_por_Walter_03.jpg A gangue asiática tentava coagir Thao, até que eles foram humilhados por Walter.

05_Um_dos_milhares_de_momento_em_que_Walter_tem_vontade_de_matar_alguem_05.jpg Um dos milhares de momentos em que Walter tem vontade de matar alguém.

07_Clint_Eastwood_em_optimo_momento_interpretando_Walt_o_veterano_de_guerra_07.jpg Clint Eastwood em óptimo momento interpretando Walt, o veterano de guerra.

De novo pai?

Walter, então, se vê ligado a uma família e a uma cultura de que ele não tinha nem ideia que poderia fazer parte. O veterano de guerra é considerado um herói no bairro após ter salvo Thao das insistências da gangue. As oferendas não param de chegar às escadas de sua varanda. Até que, um dia, a irmã de Thao, Sue, o convida para uma festa em sua casa. É aí que um dos momentos mais marcantes acontece: o velho se olha no espelho e percebe que tem “mais coisas em comum com essas pessoas que com sua própria família". E isso é genial.

04_Sue_irma_de_Thao_04.jpg Sue irmã de Thao.

É claro que não se pode dizer que Walt Pai desabrochou depois da sua "iniciação" na família hmong, mas com certeza alguns de seus aspectos foram retornando e se expressando em sua relação com Sue e Thao.

06_Walter_ensinando_um_pouco_da_vida_para_Thao_06.jpg Walter ensinando um pouco da vida para Thao.

Eis que acontece o imprevisto. O durão Water é morto a tiros pela gangue asiática após esboçar alguns movimentos rápidos com a mão dentro da blusa, que fez parecer que o velho estava empunhando uma arma.

A morte, é bom dizer, é muito estratégica: afinal, Walter estava morrendo (pelo menos é isso que o sangue que ele cospe cada vez que tosse indica). Sua vida tomou um significado diferente com a interação com a família hmong e ele sabia que esta família nunca estaria em paz enquanto a gangue do bairro ainda estivesse solta. Ser morto no meio da rua com várias testemunhas foi a solução óbvia e, talvez, única. E deu certo.

Herói?

Essa situação martirizante é a situação de um herói? Eu acredito que essa é a primeira coisa que pode passar pela cabeça. Bom, um herói também pode ser mártir, mas Walter com certeza não é um herói. Com certeza ele não carrega um passado exemplar e nem mesmo um presente bem construído. Ele não carrega os "bons valores" e é muito mais fácil reconhecê-lo como um conservador idiota qualquer do que como um herói, como um vanguardista.

Então ele é um anti-herói?

Eu também não acredito que ele seja um anti-herói porque sua morte é definitivamente uma morte de herói. Okay, agora ficamos num pedaço confuso do texto. Ele é ou não um herói? Ele é ou não um anti-herói? Eu acredito que essa classificação é muito importante, pois ela define um pouco do caráter do filme, talvez a maior parte do que poderia ser visto de um ponto de vista mais ou menos político.

E aí? Walter é mais um conservador metido a besta ou é um revolucionário de seu tempo?

Eu acredito que a resposta não pode ser encontrada sob estes termos. Me parece que a figura do Walt é fabricada. Não é um anti-herói, não é a imagem do egoísta que, para defender seu próprio umbiguismo, acaba fazendo o bem para alguém (e destruindo um mal universal que o afetava individualmente). Walter se mata conscientemente. Um anti-herói de verdade em sua situação, provavelmente, fumaria cigarros até morrer e beberia todos os dias. Seguiria sua ética rigidamente, mas não daria um pedaço de sua vida pelo bem de uma família asiática.

Bom, herói ele não seria a priori. Sua história já é marcada por tudo aquilo que um herói não deveria ser e seu presente é uma arma de fogo pronta para ser disparada.

Walter é o anti-herói que todo bom-mocismo gostaria de ver. É o herói que todo malvadão idolatraria. É uma união dos opostos que castra a ambos.

Walter é a fabricação mercantil do sujeito que “faz a diferença”. Nem tão mau, nem tão bom, mas faz a diferença. Agrada gregos e troianos. Não tem nem sal e nem açúcar. Ou melhor, no caso, tem sal E açúcar.

É claro que isso não retira a multiplicidade de pontos que podem ser observados no filme e também não retira o conteúdo exemplar que ele fornece, mas é bom entender que aquilo que se vê na telona é um pedaço daquilo que se vive no cotidiano. Não só nos temas, mas na própria construção inconsciente dos personagens, dos limites de ação.

O Walter, sendo um anti-herói bom moço, pode ser visto em termos de consumo: ele é aquele chocolate laxante, aquela manteiga sem colesterol, é o pedaço de carne sem gordura, é o refrigerante diet e etc e etc.. Ele é como a vida na pós-modernidade: um conjunto de coisas vazias. Ele é aquela banda marginal que vai tocar no Faustão e que toca com prazer, é aquele fumante ou aquele beberrão que tem repulsa por drogas ilícitas.

É só uma casca.

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Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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