Hedy é um gênio

Que me perdoem o trocadilho com o nome do seriado da personagem Jeannie, mas o único gênio literal do cinema foi Hedy Lamarr - estrela da era de ouro de Hollywood, que de tão bela serviu de modelo para a Branca de Neve de Walt Disney. Sua vida foi cinematográfica, mas sua invenção foi realizada longe das telas: Lamarr é a mãe ancestral da telefonia móvel. Conheça um pouco mais da vida da atriz austríaca.


01_6926605787_3ce1019ab6_o_01.jpg © Hedy Lamarr, (Flickr).

Hedy Lamarr se chamava na verdade Edwig Eva Marie Kiesler. Nasceu em Viena, em 1913. Era filha única de Gertrud Kiesler, uma pianista húngara vinda de uma família burguesa de origens judaicas, e de Emil Kiesler, um banqueiro também judeu, nascido na Ucrânia. Apesar de ambas as origens, a mãe de Hedy havia se convertido e era uma cristã praticante.

Seu papel na criação da telefonia móvel foi tardio, e sobretudo teve reconhecimento tardio. Vejamos, primeiro, como foi sua vida agitada de estrela de cinema e mulher de milionário.

Do Extâse a Hollywood

A atriz iniciou sua carreira no começo dos anos 30, atuando em filmes tchecos e alemães, a maioria sem importância, quando ainda assinava como ‘Hedy Kiesler’; por esta época, estudava teatro em Berlim com o diretor Max Reinhardt, que a chamou de ‘a mulher mais bela da Europa’.

Hedy foi alçada ao estrelato no filme tcheco de Gustav Machatý, Êxtase (Ekstase, 1933) – um polêmico filme que causou reboliço devido às cenas de nudez frontal da atriz e uma outra cena que contava com closes do orgasmo da personagem durante uma relação sexual. Êxtase teve problemas de exibição na Áustria e na Alemanha, e foi condenada pela Legião Católica da Decência nos Estados Unidos, não tendo estreado naquele país até dezembro de 1940. A despeito de toda a polêmica, o filme deu fama e notoriedade internacional a Hedy, e também muita dor de cabeça.

Em 10 de agosto de 1933, aos 19 anos de idade, ela se casou com o milionário fabricante de armas Friedrich Mandl, que se supunha ser o terceiro homem mais rico da Áustria. Para além de muito rico, era muito ciumento e muito controlador, e se opunha veementemente à carreira de atriz da esposa, pelo que gastou uma fortuna na tentativa de readquirir e destruir cópias do filme Êxtase. Ainda assim, o casamento durou quatro anos.

02_Hedy_Lamarr_1942_02.jpg © Hedy Lamarr, (Wikicommons, MGM).

Esse lado controlador de Mandl é descrito por Hedy em sua autobiografia, Ecstasy and Me (1967). Ela conta como ele fazia de tudo para impedi-la de prosseguir com a carreira de atriz, tendo-a inclusive a mantido como prisioneira no castelo da família.

Friedrich Mandl, embora sendo meio-judeu, tinha relações estreitas com os governos fascistas da Itália e Alemanha, vendendo munições para Mussolini. Hedy também contou que Mussolini e Hitler compareceram a várias festas na casa do marido. Ele costumava levá-la a reuniões de negócios com cientistas e outras pessoas mais envolvidos em tecnologia militar – tema em que ela tinha muito interesse - o que acabou por despertar o apreço de Hedy pelo campo científico.

03_Hedy_Lamarr_Algiers_38_03.jpg © Hedy Lamarr, (Wikicommons, Studio).

O fim do casamento teria sido no mínimo cômico, se não épico. Em Ecstasy and Me, Hedy afirma ter se disfarçado como sua própria empregada doméstica, indo embora para Paris. Outros boatos dão conta de uma versão ainda mais engraçada da fuga: Hedy teria persuadido o marido a deixá-la usar todas as suas jóias para um jantar e então simplesmente desapareceu.

Depois de Paris, Hedy foi para Londres, onde conheceu Louis B. Mayer, chefão da MGM – então o maior estúdio cinematográfico de Hollywood. Mayer a contratou e insistiu para que mudasse o seu nome artístico para Hedy Lamarr – em homenagem à estrela do cinema mudo, Barbara Lamarr, morta em 1926.

04_Hedy_Lamarr_publicity_04.jpg © Hedy Lamarr, (Wikicommons, Studio).

Sua estreia no cinema norte-americano deu-se em Argélia (Algiers, 1938) ao lado de Charles Boyer, com boa recepção do público e da crítica. Em Hollywood, ela era constantemente requisitada para papéis de sedutoras glamourosas de origem exótica, e mesmo que sua atuação fosse questionável, sua beleza era hipnótica. Lamarr atuou ao lado dos maiores galãs da época, como Clark Gable, Spencer Tracy, James Stewart, Robert Taylor e John Garfield. Como uma da principais contratadas da MGM, a atriz viveu o auge de sua carreira, sendo uma das grandes divas da era de ouro de Hollywood.

Em 1941, Hedy atuou ao lado das estrelas Judy Garland e Lana Turner no musical O Mundo é um Teatro (Ziegfeld Girl). Entre 1940 e 1949, participou de dezoito filmes; depois de filmar Sua Alteza e o Groon (Her Highness and the Bellboy, 1945) deixou a Metro, passando a atuar como freelancer pelo resto de sua carreira. O maior sucesso de Lamarr foi o épico bíblico Sansão e Dalila (Samson and Delilah, 1949), dirigido pelo lendário Cecil B. DeMille, o filme foi o mais lucrativo de 1950. Depois de atuar ao lado de Bob Hope em A Cigana me Enganou (My Favorite Spy, 1951), sua carreira entrou em franco declínio. O último filme de Lamarr foi o melodrama Naufrágio de Uma Ilusão (The Female Animal, 1958). Em 1953, ela se tornou oficialmente cidadã norte-americana.

Uma tecnologia ao som do piano

Heddy Lamarr foi co-inventora - ao lado do compositor George Antheil - da tecnologia FHSS (em inglês, frequency hopping spread spectrum). Antheil havia experimentado um controle automatizado de instrumentos musicais, incluindo a sua música para o Ballet Mécanique (filme abstrato de Fernard Léger, de 1924); esta partitura envolvia vários pianos tocando simultaneamente. Durante a II Guerra Mundial, Lamarr se deu conta de que um único torpedo controlado por rádio radar podia danificar severamente e afundar navios inimigos. No entanto, estes torpedos controlados por radar também podiam ser facilmente detectados e bloqueados por interferência de radiodifusão na frequência do rádio controle, fazendo com que o torpedo saísse do seu curso original.

05_6780487122_f98c981de7_o_05.jpg © Hedy Lamarr, (Flickr).

Utilizando o conhecimento técnico de torpedos que adquirira quando fora casada com Friedrich Mandl, Lamarr se uniu a Antheil e ambos desenvolveram a ideia da frequência variável - usando um piano roll para mudar aleatoriamente o sinal enviado entre a torre de controle e o torpedo em rajadas dentro de uma gama de 88 frequências no espectro de rádio frequência (há 88 teclas brancas e pretas em um teclado de piano). O código específico para a sequência de frequências seria realizado de forma idêntica pelo navio de controle e o torpedo. Isto basicamente criptografava o sinal. Era impossível para o inimigo detectar e bloquear todas as 88 frequências, porque exigiria muito mais complexidade. A sequência de frequência variável era controlado por um mecanismo de pianola, que George Antheil já havia usado anteriormente para marcar a música do Ballet Mécanique.

Em 11 de agosto de 1942, a patente foi garantida a George Antheil e 'Hedy Kiesler Markey' (seu nome de casada à época). Embora original, esta primeira versão da frequência variável encontrou oposição na marinha norte-americana e não foi adotada. Na época, Hedy Lamarr manisfestou interesse em adentrar no Conselho Nacional de Inventores (National Inventors Council), mas foi demovida por membros da organização, que acharam que ela podia contribuir mais aos esforços de guerra usando seu status de celebridade para vender bônus.

06_4017419346_90f2acd66a_o_06.jpg © Hedy Lamarr, (Flickr).

A ideia não foi implementada nos EUA até 1962, quando foi utilizada por navios de guerra durante a crise dos mísseis de Cuba, depois que a patente expirou. A patente foi pouco conhecida até pelo menos 1997, quando a Electronic Frontier Foundation deu a Lamarr um prêmio por suas contribuições. No ano seguinte, a empresa canadense Wi-LAN, desenvolvedora da tecnologia wireless, adquiriu 49% da patente da atriz por uma quantia não revelada; o compositor George Antheil falecera em 1959.

A invenção de Lamarr e Antheil serviu de base para a moderna FHSS - por exemplo, o Bluetooth, a COFDM (usada em conexões de internet Wi-Fi) e a CDMA (usada em alguns telefones sem fio). Embora tivesse patenteado sua ideia inovadora, Hedy Lamarr nunca ganhou dinheiro com ela; em 1997 ela recebeu uma menção honrosa do governo dos EUA "por abrir novos caminhos nas fronteiras da eletrônica".

07_6780484248_c5ba349f26_o_07.jpg © Hedy Lamarr, (Flickr).

O envelhecimento da atriz foi ruim. Hedy era uma mulher bastante inteligente, mas não soube cuidar do dinheiro que acumulou durante a carreira no cinema. Por volta dos 40 anos de idade já enfrentava sérios problemas financeiros, além de ter se tornado obcecada por cirurgias plásticas, lamentando a perda da beleza. Em 1966, Hedy foi detida por furto a uma loja, em Los Angeles, mas as acusações foram depois retiradas; em 1991 o episódio se repetiu novamente, mas desta vez na Florida. Ela prometeu não mais quebrar nenhuma lei por um ano, e as acusações foram novamente retiradas. Durante os anos 60 e 70 Hedy chegou a ensaiar um retorno às telas, recebeu vários roteiros para teatro e televisão, mas nada se concretizou.

A atriz foi casada por seis vezes e teve três filhos: James Lamarr Markey (nascido em 1939 e adotado em 1941) com o roteirista e produtor Gene Markey; Denise Loder e Anthony Loder (nascidos respectivamente em 1945 e 1947), com o também ator John Loder.

Hedy Lamarr faleceu aos 85 anos de idade, em 19 de janeiro de 2000, em Casselbery, estado da Florida. De acordo com seus últimos desejos, suas cinzas foram levadas para a Áustria e espalhadas pelos bosques de Viena.

08_8670826841_29f85038d7_o_08.jpg © Hedy Lamarr e Robert Taylor em "Lady of the Tropics" , 1939, (Flickr, MGM).

09_201537742_40c0779b25_o_09.jpg © Hedy Lamarr, (Flickr).


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