Yasujiro Ozu: a sensibilidade para as coisas

No passado dia 16 de Setembro celebraram-se os 60 anos da estreia em cartaz de “Viagem a Tóquio” (1953), uma das obras-primas do realizador japonês Yasujiro Ozu. Foi esse mesmo filme que ficou em terceiro lugar na lista resultante da votação internacional dos “melhores filmes de sempre”, de 2012, realizada pela revista Sight & Sound. Para Wim Wenders, por exemplo – e a sua autoridade dificilmente é questionável – a obra de Ozu é “um tesouro sagrado do cinema”. Mas porquê?


01_yasujiro_ozu_01.jpg © Yasujiro Ozu, (Wikicommons).

Nascido em Tóquio, filho de um comerciante e educado num colégio interno, Ozu não terá sido um aluno exemplar. Desde cedo se interessou pelo cinema e aproveitava o tempo para ver o máximo de filmes que podia. O seu primeiro emprego foi como assistente de fotografia e de realização. Três anos depois, em 1927, dirigiu o seu primeiro filme, Zange no yaiba (A espada da penitência), um filme histórico. Realizou mais 53 filmes - 26 dos quais nos seus primeiros cinco anos como realizador e todos, menos 3, para os estúdios Shochiku.

Em 1937, com 34 anos, numa altura em que os estúdios demonstram algum descontentamento com o insucesso comercial dos filmes de Ozu, apesar dos louvores e prémios com que a crítica o celebra, é recrutado e serve na China como cabo de infantaria durante dois anos. A sua experiência militar leva-o a escrever um extenso diário onde se inspirará mais tarde para escrever guiões cinematográficos.

Os filmes de Ozu são mais crónicas do que filmes: examinam as “lutas” básicas que todos nós enfrentamos na vida – os ciclos de nascimento e morte, a transição da infância para a idade adulta e, sobretudo e mais importante, a tensão entre a tradição e a modernidade. Por outro lado, a II Guerra Mundial marcou profundamente a obra de Ozu, tornando-o num dos maiores cronistas das mudanças que a família e a intimidade sofreram no pós-guerra. Aliás, há até quem diga que este foi o mais japonês de todos os realizadores japoneses (Donald Richie em “Ozu: Vida e Filmes”): o seu tema central foi a família japonesa e, mais do que isso, a sua dissolução. O que parece uma hipérbole será, afinal, uma verdade.

Mas porquê? O que tem, afinal, Ozu de especial? Podia resumir num termo bizarro: mono no aware (literalmente significa “sensibilidade para as coisas”). É uma expressão usada para descrever um estado de espírito que frequentemente se encontra em textos básicos “Zen” e nas tradicionais narrativas Japonesas. Significa uma aceitação e celebração do Mundo e das pessoas. "Mono no aware" saboreia-se em vários filmes de Ozu, como Dia de Outono, Viagem a Tóquio (pt) / Era uma vez em Tóquio (br) Primavera tardia (pt) / Pai e filha (br) e Bom dia. A criação deste sentido de mono no aware, nos filmes de Ozu, vê-se por exemplo numa típica personagem que diz “Ii tenki desu ne?” (“Tempo bom, não é?"), após uma mudança radical familiar e social, como o casamento indesejado da filha no pano de fundo de um Japão em mutação rápida. O núcleo da obra de Ozu é isso mesmo: descreve a transformação da vida no Japão, a forma como os japoneses lidaram com a lenta deterioração da família japonesa e, por isso, com a deterioração da identidade nacional.

02_Late_Spring_Coke_02.jpg © Yasujiro Ozu, "Primavera " (Wikicommons).

04_Vase1_04.jpg © Yasujiro Ozu, "Primavera Tardia" (Wikicommons).

Wim Wenders diz que os filmes de Ozu descrevem o desenvolvimento do capitalismo no Japão do século XX ou, mais precisamente, o desaparecimento da velha pequena burguesia e a sua proletarização perante as (o)pressões da globalização. Sem dúvida que é a classe média o ponto central da fase mais madura da obra de Ozu. Aliás, aquela visão crítica do capitalismo levou mesmo alguns críticos a concluir que Ozu defendia valores feudais.

03_I_Was_Born_But_1932_03.jpg © Yasujiro Ozu, "I Was Born, But…(Wikicommons).

Por outro lado, Ozu tem outra marca: as cenas em que filma espaços vazios (naturezas mortas, interiores sem ninguém, fachadas de edifícios e paisagens. Esta tendência foi sem dúvida adoptada pelos modernos cineastas ocidentais e asiáticos (Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi, Jim Jarmusch, Hal Hartley). Num livro sobre Ozu, David Bordwell chama a esses espaços vazios de "intermediários", porque ocorrem, geralmente, entre cenas. Como interpretá-los? Gilles Deleuze afirma que são imagens directas do tempo, "a forma imutável daquilo que muda". Dão aos filmes de Ozu uma sensação de durée, que não é bem o mesmo que "duração", mas sim de uma espécie de "tempo dialéctico" (Jean-Paul Sartre).

O cineasta japonês faleceu no dia 12 de dezembro de 1963, na mesma cidade onde nasceu, Tóquio, vítima de um cancro. No dia em que fazia exactamente 60 anos. Vale a pena ver o documentário de Wim Wenders, "Tokyo-Ga", sobre Ozu.


graça c. moniz

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