A canonização de "O Bandido da Luz Vermelha"

"O Bandido da Luz Vermelha" é um pedaço da juventude de Sganzerla. Um pedaço que não quer ser político e nem fácil de ser interpretado. Resta saber: que pedaço é esse? Até mesmo seria bom perguntar: a quem serve este pedaço de Sganzerla?


01_Paulo_Vilhaca_como_o_Bandido_da_Luz_Vermelha.jpg Paulo Vilhaça como o Bandido da Luz Vermelha.

Muitas e poucas coisas podem ser ditas sobre O Bandido da Luz Vermelha. Eu acredito que o artigo de Carim Azeddine, publicado na revista Contracampo, já fala um pouco daquilo que pode ser visto de cara.

O filme foi produzido em 1968, num país semi-industrial onde o cinema com certeza não estava em foco. A produção cinematográfica era cercada por dificuldades quase intransponíveis, da falta de recursos até à falta de ânimo dos produtores.

02_Poster_do_filme.jpg Poster do filme.

Sganzerla não ficava fora deste microcosmo. Apesar de pertencer a uma classe culta, com gostos não-populares que se desviava para algo chamado por muitos de “experimental”. A influência de Godard é clara e é amplamente apresentada por Azeddine, assim como a característica de ruptura do filme. Não se trata mais de acompanhar uma linha reta, de seguir uma narrativa do tipo “passo a passo”. Agora é a vez do erro proposital, de experimentar a não-linearidade. De apreciar o instante e de acabar a cena nele.

03_O_Teatro_Da_Vida_O_Bandido_Da_Luz_Vermelha_Rogerio_Sganzerla_1968.jpg O teatro da vida.

O filme “fala de igual para igual com o espectador”, mas o espectador não é qualquer um: ele é um semelhante do diretor, é um alguém com as mesmas influências e a mesma “bagagem” de Sganzerla. Caso você não tenha esta bagagem, problema teu.

Um bandido com crises existenciais

O bandido bonito, forte, que assalta casas luxuosas e mantém longos diálogos com suas vítimas é um objeto perfeito para o filme. Claro que o filme foi inspirado no criminoso da vida real, mas o personagem é detalhadamente fabricado para ser um ninguém que virou alguém exatamente pelo tédio da vida cotidiana.

07_bandido.jpg O Bandido.

Criminosos brotavam por São Paulo, mas um deles se destacou e se transformou em um quase Robin Hood, excepto por alguns detalhes importantes. Roubava dos ricos, matava pessoas, não dava nada para os pobres e tinha profundas crises existenciais. Jorge era um ferrado. Um sujeito sem dinheiro, sem futuro, era um nada. Ao que parece, roubar casas luxuosas fazia parte do complemento de vida que ele precisava. Era um fetiche meticulosamente construído para satisfazer uma necessidade que não poderia ser satisfeita de maneira comum. Era a tentativa de se sentir completo.

É quase como um sintoma. Se você procurar um pouco mais, vai achar o que está reprimido.

Mas o importante é que nada está lá à toa. A vida do crime, o mundo degradado, a prostituta da Boca do Lixo que lhe passa a perna e é morta, o político que fala em público sobre sua ligação com o submundo paulista, nada disso é só complemento do filme. Tudo faz parte do mundo sombrio que ali é retratado.

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Diferente?

Então nos pegamos pela primeira dúvida: que filme novo é esse? Novo pra quem?

Se o filme é claramente um produto cultural “feito sob medida” para especialistas em cinema, então de que vale sua presença? Vai ver, é por isso mesmo que faz parte do cinema marginal. Se é assim, então como é possível vê-lo?

Pode-se dizer que qualquer pode ver. Qualquer um verá e tirará sua própria conclusão. Mas eu não acredito. Me parece que há interpretações que são consideradas “mais certas” do que outras. Mais legítimas. De acordo com Azeddine, é necessário entender que este é um filme feito para uma classe culta. Seu significado “correto” (considerado legítimo) é aquele que se pode retirar das classes cultas, amantes do cinema experimental europeu.

Cinema descompromissado? Talvez seja mais correto dizer que ser descompromissado envolve ignorar o que é popular. O compromisso não está somente no objetivo político (que o filme também abandona), mas está em qualquer firmação de desejo. Não fazer filme para a indústria cultural é uma firmação de compromisso. É uma decisão.

05_Helena_Ignez-como_sua_amante_e_vitima.jpg Helena Ignez como sua amante e vítima.

Esta decisão localiza o filme como “clássico”, como algo canonizado, exatamente por não ser do “povão”. Mas não ser do povão não é somente não ter uma temática do povão - afinal, o tema de O bandido... é, sim, um tema popular, inclusive há vários clichês populares, há uma estrutura mais ou menos popular, com o vilão galanteador, o policial incansável e doente, o redator-chefe estressado e etc. Não ser do povão envolve, também, como dispersar estes elementos: o filme tem uma maneira clara (e obscura) de fazer isso. Nada faz muito sentido e nem se relaciona linearmente. É um grande recorte.

06_O_cliche_do_redator_chefe.jpg O cliché do redator chefe.

É claro que as características populares não estão aí, também, como um trunfo, mas são pedaços da realidade do lugar onde o filme foi produzido. Não é um filme aristocrático, não é um filme considerado o primor da arte. O cinema não tem um status tão legítimo, se comparado com o teatro ou, talvez, com outras formas de arte como as artes plásticas, mas está num meio termo de “popular” e algo que tem potencial para ser “erudito”. Sganzerla é do tipo que tentou fazer do cinema algo mais erudito. Se conseguiu? Bom, eu não acredito.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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