Dante: uma topografia do Inferno

Pode ser um lugar subterrâneo habitado pelas almas dos mortos; segundo alguns dogmas religiosos, o destino de suplícios, onde os condenados estão submetidos aos demônios. Uma morada de muitos demônios. Local de tormento e martírio atroz. Desordem ou confusão. Desassossego e inquietação: eis o inferno. Vejamos como o poeta Dante o mostrou ao mundo ocidental


01_Dante_pintura_alegorica.jpg © Pintura Alegórica de Dante, Agnolo Bronzino, (c. 1530), (Wikicommons).

A Divina Comédia, de Dante, propõe que a Terra está no meio de uma sucessão de círculos concêntricos que formam a esfera armilar e o meridiano onde é hoje Jerusalém seria o lugar atingido por Lúcifer ao cair das esferas mais superiores e que fez da terra santa o Portal do Inferno. Portanto, o Inferno responderia pela depressão do mar Morto, onde todas as águas convergem.

Dante Alighieri elaborou um poema envolvendo personagens bíblicos do Antigo ao Novo Testamento, descobrindo-os, ou revelando-os no interior inferno. Seus personagens principais são o próprio autor e seu poeta preferido, Virgílio, o autor da Eneida.

02_William_Blake_1757_1827_Dante_e_Virgilio_nos_portoes_do_Inferno.jpg © Ilustrações de William Blake (1757-1827) para a "Divina Comédia" de Dante Alighieri, "Dante e Virgílio nos portões do Inferno" (Wikicommons).

Dante: os versos do Inferno

“Deixai toda esperança, vós que entrais” é a frase gravada em um grandioso portal que conduz ao inferno. O poema de Dante Alighieri descreve a topografia do inferno e os seus nove círculos infernais, as gradações de punições, demônios e sistemas de servidão. Diante do inferno, Dante e o espírito de Virgílio – poeta da Antiguidade e seu guia - se depararam com o barqueiro Caronte, às margens do rio Aqueronte, para efetuarem a travessia e logo após vislumbrar um castelo, localizado no primeiro círculo, chamado Limbo.

03_William-_Blake-_Antaeus_Setting_Down_Dante_and_Vergil-1826.jpg © Ilustrações de William Blake (1757-1827) para a "Divina Comédia" de Dante Alighieri, "Anteus entregando Dante e Virgílio" (Wikicommons).

Do segundo ao quinto círculo, reservados como prateleiras de catálogos, os pecados cometidos sem culpa, embotados pela inconsciência do ser humano. No início do segundo círculo, foi destacada a figura de Minós ou o juiz do inferno. Ele escuta as confissões de cada pecador e os distribui para os círculos de acordo com o número de voltas que se enrolam em sua cauda. Adiante, o terceiro círculo, onde há a apresentação de Cérbero, figura que espanca os gulosos jogados na lama sob uma chuva incandescente. À entrada do quarto círculo, Dante e Virgílio se deparam com o demônio Plutão, que defende o local. Os avaros e pródigos são punidos empurrando pesos enormes como castigo. Descendo ainda mais chegam ao rio de sangue fervente, chamado Estige, localizado no quinto círculo infernal; aí são castigados os irados. No sexto círculo do inferno está a cidade de Dite; ela é uma espécie de transição dos pecados sem culpa para aqueles realizados com consciência. Chegando ao sétimo círculo, eles se deparam com o Minotauro de Creta e com o rio Flegetonte. O Minotauro é o guardião dos três vales, onde estão os culpados por violência: os homicidas, os suicidas e “os que cometeram atos violentos contra Deus”, ou hereges. Mais adiante, eles chegam ao oitavo círculo ou Malebolge, espaço reservado aos fraudulentos. Ele é dividido em dez fossos, ligados por meio de pontes, onde os punidos são classificados em sedutores, aduladores, adivinhos, corruptos, hipócritas, ladrões do sagrado e semeadores da discórdia.

05_William_blake_inferno_cao_das_tres_cabecas.jpg © Ilustrações de William Blake (1757-1827) para a "Divina Comédia" de Dante Alighieri, "Cérbero" (Wikicommons).

04_William_Blake_1757_1827_Tortura_Inferno_Canto19.jpg © Ilustrações de William Blake (1757-1827) para a "Divina Comédia" de Dante Alighieri, "Tortura" (Wikicommons).

Na parte mais funda do inferno está o nono círculo, local onde desaguam os rios Estige, Flegetonte e Aqueronte, que formam o rio Cocito. Esta é a única parte do inferno que contradiz a noção tradicional que possuímos do mundo inferior. Dante apresenta uma parte fria ao extremo e um diabo aprisionado, no centro da Terra, congelado da cintura para baixo. Além de todo o fogo, o gelo glacial e muitos mitos greco-romanos. Perante a leitura do poema notamos a precisão com que Dante descreve e dá vida ao inferno cristão e as punições que uma alma sofreria quando condenada. Estamos perante a mentalidade medieval e a necessidade religiosa de conscientizar o homem para temer o “mal”. Nas igrejas, eram comuns as pregações que destacavam o inferno, ou o diabo; e o medo passou a fazer parte da pregação.

O destino desta obra de Dante na cultura ocidental foi imenso: a narração da jornada do homem (simbolicamente, o próprio Dante) através dos três reinos do além confirmou-se uma obra-prima da literatura italiana e universal, e um dos documentos mais influentes do pensamento europeu.

Trecho do Canto III: ... treme a terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.

“POR mim se vai das dores à morada, Por mim se vai ao padecer eterno, Por mim se vai à gente condenada.

“Moveu Justiça o Autor meu sempiterno, Formado fui por divinal possança, Sabedoria suma e amor supremo.

No existir, ser nenhum a mim se avança, Não sendo eterno, e eu eternal perduro: Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”

Estas palavras, em letreiro escuro, Eu vi, por cima de uma porta escrito. “Seu sentido” — disse eu — “Mestre me é duro”

Tornou Virgílio, no lugar perito: “Aqui deixar convém toda suspeita; Todo ignóbil sentir seja proscrito.

“Eis a estância, que eu disse, às dores feita, Onde hás de ver atormentada gente, Que da razão à perda está sujeita”.

Pela mão me travando diligente, Com ledo gesto e coração me erguia, E aos mistérios guiou-me incontinênti.

Por esse ar sem estrelas irrompia Soar de pranto, de ais, de altos gemidos: Também meu pranto, de os ouvir, corria.

Línguas várias, discursos insofridos, Lamentos, vozes roucas, de ira os brados, Rumor de mãos, de punhos estorcidos,

Nesses ares, pra sempre enevoados, Retumbavam girando e semilhando Areais por tufão atormentados.

A mente aquele horror me perturbando, Disse a Virgílio: — “Ó Mestre, que ouço agora? “Quem são esses, que a dor está prostrando?

“Deste mísero modo” — tornou — “chora Quem viveu sem jamais ter merecido Nem louvor, nem censura infamadora.

“De anjos mesquinhos coro é-lhes unido, Que rebeldes a Deus não se mostraram, Nem fiéis, por si sós havendo sido”.

“Desdouro aos céus, os céus os desterraram; Nem o profundo inferno os recebera, De os ter consigo os maus se gloriaram”.

“Que dor tão viva deles se apodera, Que aos carpidos motivo dá tão forte? “Serei breve em dizer-to” — me assevera.

“Não lhes é dado nunca esperar morte; É tão vil seu viver nessa desgraça, Que invejam de outros toda e qualquer sorte.

“No mundo o nome seu não deixou traça; A Clemência, a Justiça os desdenharam. Mais deles não falemos: olha e passa”

Bandeira então meus olhos divisaram, Que, a tremular, tão rápida corria, Que avessa a toda pausa a imaginaram.

E após, tão basta multidão seguia, Que, destruído houvesse tanta gente A morte, acreditado eu não teria. [...]


luhana pires

arrisca-se na autoria de textos e excertos poéticos, movida por uma espécie de paixão pelas palavras.
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