Marianne Faithfull: entre o céu e o inferno

Mais conhecida por seu romance com Mick Jagger nos anos 60, super explorado pela mídia, Marianne Faithfull também teve trabalhos importantes no cenário do rock'n roll da época, além de ter sido um ícone da cultura pop inglesa do fim dos anos 60. Mas sua carreira foi eclipsada pelo abuso de drogas nos anos 70... E então, no fim da década ela renasceu das cinzas, como a fênix. Saiba mais sobre a carreira da cantora, atriz e compositora.


01_Easy_come_easy_go_2008.jpg © Marianne Faithfull, "Easy Come, Easy Go", 2008.

Filha de uma baronesa austríaca e um militar da marinha britânica, Marianne Evelyn Faithfull nasceu em 1946 em Hampstead, Londres. Sem irmãos, a família mudava constantemente de endereço durante sua infância e seus pais se divorciaram quase ela tinha 6 anos de idade. Na adolescência frequentou uma escola católica para garotas e, por volta desta época, participava do grupo de estudantes do Progress Theatre, uma antiga companhia de teatro inglesa que teve como outros membros famosos Judi Dench e Kenneth Brannagh.

Faithfull começou a cantar profissionalmente em 1964, aos 18 anos, interpretando música folk em bares e cafés. Rapidamente se tornou conhecida no meio artístico londrino. Durante uma festa oferecida pelos Rolling Stones, foi descoberta pelo produtor musical Andrew Loog Oldham - agente dos Rolling Stones - que a lançou no mercado fonográfico. Em junho daquele mesmo ano, foi lançado o seu primeiro trabalho importante, "As Tears Go By" - uma canção composta por Mick Jagger e Keith Richards. O single chegou a atingiu a 9ª posição nas paradas de sucesso do Reino Unido e a 22ª nos Estados Unidos (onde permaneceu por nove semanas). Depois viriam outros sucessos como "This Little Bird", "Come and Stay With Me" e "Summer Nights". Seu primeiro long-play, intitulado Come My Way, foi lançado em 1965, apenas no Reino Unido. No mesmo ano ela ainda lançaria outros dois títulos - Marianne Faithfull e Go Away From My World.

02_Go_away_from_my_world_1965.jpg © Marianne Faithfull, "Go Away From My World", 1965.

03_Come_and_stay_with_me_1965.jpg © Marianne Faithfull, "Come and Stay With Me", 1965.

Em 1965, Marianne se casou com o galerista John Dunbar, co-fundador da Indica Gallery, uma galeria de arte de contracultura famosa no fim dos anos 60. O casamento durou pouquíssimo, mas o suficiente para gerar uma criança; no final desse ano nasceu seu único filho, Nicholas. No ano seguinte, já divorciada de Dunbar, ela começou a sair com Mick Jagger, o que resultaria num namoro de quatro anos.

O romance de Faithfull e Jagger foi embalado pelas drogas e estampado nas capas de revistas e jornais. O casal se tornou uma espécie de príncipes da Swinging London - os dois eram artistas, jovens, bonitos, ricos e estavam na moda. Jagger era o líder dos Stones e Faithfull era uma it-girl da época - todas as garotas queriam ser ela. Mas a união da 'bela e a fera' foi vista com desconfiança na época; enquanto Jagger era a personificação do bad boy, Marianne encarnava com perfeição a persona pueril, quase virginal que Andrew Oldham havia criado para ela - mas só à primeira vista. A despeito da imagem criada pela mídia, na realidade, Faithfull era muito mais ousada e atirada no que diz respeito às drogas do que Jagger. Ele ainda era muito hesitante, mas ela estava disposta a experimentar tudo. Faithfull começou fumando maconha e em dois anos estava viciada em cocaína. Em 1967, ela foi encontrada pela polícia vestindo apenas um cobertor de pele durante uma busca por drogas na casa de Keith Richards, em Sussex. Apesar de ter seu nome retirado dos autos do processo, todos sabiam que Marianne era a srta. X - como era referrida pela imprensa - que estava envolvida no incidente. O episódio foi particularmente destrutivo para ela. No fim de 1968 o casal veio ao Brasil passar férias, acompanhados do casal Keith Richards e Anita Pallenberg.

04_North_country_maid_1966.jpg © Marianne Faithfull, "North Country Maid", 1966.

05_Love_in_a_mist_1967.jpg © Marianne Faithfull, "Love Is A Mist", 1967.

O conturbado relacionamento de Jagger e Faithfull projetou-se em algumas das mais famosas canções dos Rolling Stones. O vocalista da banda era um rapaz nascido no interior da Inglaterra, sem muito conhecimento cultural. Já Marianne era uma intelectual nata, de origem aristocrática. No fim das contas, ela acabou por expandir os horizontes dele muito mais que o LSD. "Sympathy for the Devil" (1968) foi em parte inspirada em O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov, um livro que Marianne havia apresentado a Jagger. A canção "You Can't Always Get What You Want" (1969) teria sido supostamente escrita sobre ela, e o clássico da banda "Wild Horses" (1971) falaria sobre a ruptura do casal em alguns versos. O romance serviu de inspiração até para a música de Lenon e McCartney "And Your Bird Can Sing" (1966). Além disso tudo, Marianne foi co-autora e a primeira a gravar, em 1969, "Sister Morphine" - outro sucesso dos Stones, imortalizado na versão do álbum Sticky Fingers, de 1971. Originalmente a canção foi creditada somente a Jagger/Richards; só depois de uma longa batalha judicial Marianne Faithfull foi creditada como co-autora.

Embora muitas vezes seu visual chamasse mais atenção que suas músicas, Marianne tinha uma voz única - que, ao contrário de muitas contemporâneas suas nos anos 60, projetava sensualidade, como fazia Michelle Phillips no The Mamas & The Papas. Sua música era resultado de uma mistura às vezes híbrida, com elementos do rock, pop, folk, blues e psicodélico: pode soar esquisita, mas é bela, e rapidamente se torna agradável. Não levaria tempo para que o público percebesse que os fatos da vida privada da artista influenciariam drasticamente sua trajetória artística - que, com o passar dos anos, decairia profundamente. Em 1967, Marianne lançou seu último álbum dos anos 60, Love in a Mist; passariam 10 anos até que ela voltasse a gravar outro disco. Ao mesmo tempo, a cantora desenvolveu uma relativa bem-sucedida carreira de atriz no cinema, teatro e televisão.

Em seu projeto de ser uma atriz séria, Faithfull estreou no teatro profissionalmente em 1967, no papel de Irina na montagem de As Três Irmãs, de Tchekhov, no Royal Court Theatre, em Londres. No ano anterior ela havia aparecido como ela mesma no filme de Jean-Luc Goddard Made in U.S.A. Na França, Marianne também participou da comédia musical Anna (1967) - o primeiro filme a cores feito para a TV francesa. Em 1968 ela teve um de seus melhores momentos no cinema, estrelando ao lado do astro francês Alain Delon o clássico cult psicodélico A Garota da Motocicleta (The Girl on a Motorcycle) do diretor britânico Jack Cardiff. Marianne teve a proeza de ser a primeira atriz a pronunciar a palavra "fuck" num filme de estúdio -  Depois Que Tudo Terminou (I'll Never Forget What's'isname, 1967). Em 1969 ela interpretou Ofélia, em Hamlet, nas duas produções de Tony Richardson no teatro e no cinema, baseadas na obra de William Shakespeare. Ela também apareceu, como Lilith, no filme experimental de Kenneth Anger Lucifer Rising (completado em 1972 mas só estreado oito anos depois). Marianne ainda esteve presente na gravação do lendário The Rolling Stones Rock and Roll Circus, em 11 de dezembro de 1968, cantando "Something Better".

O romance com Mick Jagger terminou em maio de 1970 e no mesmo ano Marianne perdeu a guarda de seu filho, tendo tentado o suicídio. Daí para a frente, sua vida pessoal entrou em colapso e a carreira foi praticamente interrompida. Parecia que aquele anjo que levara refinamento à música inglesa estava agora vivendo no inferno. Levaria anos para que a cantora voltasse a se restabelecer. Ela chegou a viver dois anos perambulando pelas ruas do Soho, em Londres, dependente de heroína e sofrendo de anorexia nervosa. Seus amigos tentaram levá-la para reabilitação várias vezes. Durante os anos 70 ela fez poucas aparições. A mais memorável delas foi cantando "I Got You Babe" com David Bowie, na NBC, em 1973. Em 1975 Marianne lançou seu único trabalho em disco naquela década - Dreamin' My Dreams (relançado dois anos depois com o nome de Faithless), sob forte influência da música country, o único de sua carreira neste gênero. Mas ela ainda levaria alguns anos para voltar à música plenamente.

O álbum Broken English (1979) marcou a retomada com força total da carreira. Se antes Faithfull se assemelhava mais a uma 'garota de ensino médio', com uma beleza quase santificada, agora ela assumia os seus demônios e se reinventava como uma rockeira punk. Aclamado pela crítica como um dos melhores trabalhos da cantora, Broken English trazia uma mistura inédita e bem sucedida de rock, punk, new wave e dance, com uso ilimitado de sintetizadores. A influência vinha em parte do novo marido, Ben Brierly, da banda punk The Vibrators. Musicalmente irretocável, visualmente lindo, o disco alcançou boas posições nas paradas de vários países, principalmente França, Alemanha e Austrália. Além do grande sucesso da faixa-título e de "The Ballad of Lucy Jordan" (imortalizada como tema do filme Thelma & Louise de 1992), destacam-se a bombástica e polêmica "Why D'Ya Do It" e uma versão definitiva para o clássico de John Lennon "Working Class Hero". Broken English também comprovou a drástica mudança da voz de Marianne, afetada gravemente pelos anos de abuso de drogas, álcool e cigarro. Sua voz agora soava mais seca, rouca e grave. Na reedição deluxe de Broken English, lançada em 2013, foi incluída pela primeira vez a mixagem original do disco, além de um filme de 12 minutos dirigido por Derek Jarman com os videoclipes de "Witches' Song", "The Ballad Of Lucy Jordan" e "Broken English", mais cinco faixas bônus, incluindo a regravação arrasadora de "Sister Morphine".

07_Broken_english_1979.jpg © Marianne Faithfull, "Broken English", 1979.

Após o lançamento de Dangerous Acquaintances, em 1981, Faithfull se mudou para Nova York. O álbum foi encarado com desapontamento pela crítica especializada, principalmente por ter aberto mão dos bem sucedidos arranjos new wave do trabalho anterior em detrimento de um rock mais 'pasteurizado'. Ela continuou pelos anos 80 alternando discos de grande expressão artística com outros trabalhos não tão célebres, mesmo ainda lutando contra a dependência química em meados da década. Em 1987, Faithfull lançou seu primeiro álbum depois de se recuperar do tratamento pelos longos anos de vício em heroína - Strange Wheater. O disco era mais uma reinvenção de Marianne, um trabalho mais voltado ao blues e jazz, muito bem recebido pelos críticos, no qual ela recria canções de Bob Dylan, Billie Holiday, Bessie Smith e o seu próprio clássico "As Tears Go By". Strange Wheater foi dedicado a Howard Tose, um homem com quem Marianne havia se envolvido amorosamente durante o período em que esteve internada na clínica de reabilitação, e que havia se suicidado tempos depois. Em 1986 ela se divorciou do músico Ben Brierly.

09_Strange_weather_1987.jpg © Marianne Faithfull, "Strange Weather", 1987.

Em 1990, Faithfull lançou o excelente Blazing Away, onde passeava com êxito pelos sucessos de sua carreira. O álbum foi gravado ao vivo no ano anterior na Catedral de St. Ann, em Nova Iorque. Em 1994 ela lançou sua autobiografia, Faithfull. Em 1991, participou da montagem d'A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Bretcht, no Gate Theatre, em Dublin, no papel da prostituta Jenny. Este trabalho serviu de inspiração para a criação de um novo disco e de projetos futuros; o primeiro foi o álbum em parceria com o pianista Paul Trueblood, baseado na música de Kurt Weill e Bertolt Bretcht - 20th Century Blues - seguido de The Seven Deadly Sins, gravado com a Orquestra Sinfônica da Rádio de Viena e por fim uma turnê de grande sucesso com Trueblood, que culminou na gravação do DVD Marianne Faithfull Sings Kurt Weill, durante o Festival internacional de jazz de Montreal. No fim dos anos 90, Faithfull participou da canção "The Memory Remains" do álbum ReLoad (1997), do Metallica, e apareceu também no videoclipe da canção. Em 1999 foi lançado o DVD Dreaming My Dreams, uma espécie de documentário da vida pessoal e trajetória artística da cantora.

10_Blazing_away_1990.jpg © Marianne Faithfull, "Blazing Away", 1990.

Faithfull continuou gravando discos durante os anos 2000. Mais recentemente, ela ganhou notoriedade por sua aparição como Imperatriz Maria Theresa no filme Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006) de Sofia Coppola, e por ter protagonizado o longa Irina Palm (2007), cuja atuação lhe rendeu uma nomeação de Melhor Atriz no European Film Awards. Seu último disco, o 19º de sua carreira, é Horses and High Heels, lançado em 2011. Atualmente, Faithfull vive em Paris e está gravando um novo álbum de material inédito, mas o trabalho foi em interrompido devido a problemas de saúde, em julho de 2013.


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