Thrillers: o fascínio do medo

Pode não parecer, mas os motivos para ver um longa-metragem que nos assuste e deixe os nervos à flor da pele são muitos. Além de aspectos culturais e psicológicos, os enredos bem construídos, crimes e mistérios instigam os espectadores, tornando este tipo de produção uma das mais importantes e tradicionais da história do cinema.


01_Alfred_Hitchcock.jpg © Alfred Hitchcock (Wikicommons, Studio Photo).

O que faz os filmes de suspense e os thrillers, que mantêm os espectadores grudados em suas cadeiras, exercerem um fascínio inexplicável, mesmo renegado por muitos? É algo curioso e paradoxal, que cientistas, psicólogos e os próprios cinéfilos tentam explicar. Entre as diversas hipóteses existentes está a de que o ser humano busca sentir emoções que transcendam suas rotinas, ao mesmo tempo que sabe que o que vê não é real, e isso lhe dá segurança. Outra corrente afirma que tais produções exteriorizam impulsos e instintos animais, criando simpatia e identificação (Vincent Price pensava assim). Seja qual for o motivo, não há como negar que desprender algumas horas para ver uma ou outra obra do gênero é sempre um programa interessante.

Bom, a verdade é que desde que Alfred Hitchcock começou a realizar experimentações com o medo em histórias de crime e mistério, todas as categorias cinematográficas causadoras de arrepios na espinha se tornaram muito populares. De fato, com filmes como Interlúdio (1946), Disque M para Matar (1954) e Psicose (1960), o mestre do suspense instituiu ingredientes chave na fórmula dos thrillers. Além dele, o diretor Michael Powell criou uma trama chocante e revolucionária com Peeping Tom (1960), sendo pioneiro em abordar o voyeurismo como tema. Graças a eles, esse tipo de longas ganharam cada vez mais força.

Durante os anos 70, alguns títulos se tornaram clássicos do gênero, como Amargo Pesadelo (1972), de John Boorman, e Chinatown (1974), de Roman Polanski. O primeiro traz a luta pela sobrevivência de quatro empresários que foram passar um fim de semana no campo e caíram na mão de caipiras maníacos. Já o segundo mostra a história de um detetive que se envolve em uma perigosa conspiração de crimes e mentiras ao ser contratado para investigar um caso de adultério. Na medida em que estas obras foram caindo nas graças do público, criaram uma cartilha contendo elementos que foram bastante usados posteriormente, como a luta pela vida, a busca implacável por algo ou alguém e o enfrentamento de um grande vilão.

02_Roman_Polanski_Cannes_2013.jpg © Roman Polanski no Festival de Cannes 2013 (Wikicommons, Georges Biard).

Nas duas décadas seguintes, a aumento das produções independentes também contribuiu para este caminho fílmico. Tobe Hooper mesclou suspense e terror slasher em Pague Para Entrar, Reze Para Sair (1981), abrindo muitas portas. A produção italiana estava em seu auge com longas como Tenebrae (1982), de Dario Argento, e Delirium (1987), de Lamberto Bava. Alguns diretores realizaram trabalhos baseados em obras literárias, sobretudo as de Stephen King. Entre elas se destacam John Carpenter com Christine, o Carro Assassino (1983) e Rob Reiner com Louca Obsessão (1990). Grandes vilões foram criados nesta época, como o Dr. Hannibal Lecter de O Silêncio dos Inocentes (1991). Certas obras viraram clássicos inovadores, como Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino, e Clube da Luta (1997), de David Fincher.

03_Anthony_Hopkins_Hannibal_Lector_03.jpg Anthony Hopkins interpretando Hannibal Lector em "O Silêncio dos Inocentes".

O medo à maneira do século XXI

Depois de estabelecidos estes critérios para realizar uma boa filmagem do gênero, a partir do século XXI a cultura dos thrillers foi reformulada. A análise da natureza humana em frente ao medo ganhou uma nova roupagem, se apropriando das realidades exibidas anteriormente e instituindo o novo ritmo frenético da vida moderna. Bons exemplos são as neuroses assassinas de um profissional bem sucedido em Psicopata Americano (2000), de Mary Haron, e a rotina sufocante de um trabalhador em O Operário (2004), de Brad Anderson, ambos protagonizados por Christian Bale. Alguns filmes se focaram em mostrar o pior lado do homem, como Irreversível (2002), de Gaspar Noé, e Anticristo (2009), de Lars Von Trier. Com algumas doses de terror e horror, a universalização deste estilo cinematográfico se tornou constante nos últimos anos.

Em vista desta cronologia fílmica, a importância dos thrillers ao longo da história do cinema e da própria sociedade é justificada. Das diversas categorias destas produções, sejam suspenses, policiais ou sobrenaturais, é possível afirmar que todas elas apresentam um ponto em comum. Além de mostrarem diversos aspectos que denotam a complexidade psicológica e emocional dos seres humanos, são reflexos de um mundo que mesmo que pareça distante, nos rodeia.


jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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