A eterna adolescência dos Beach House

A música dos norte-americanos Beach House possui a beleza intemporal dos sentimentos genuínos e o lirismo poético dos ideais que perduram. O duo composto por Victoria Legrand e Alex Scally conseguiu o culto do público e o reconhecimento da crítica ao longo de quatro discos de refinado romantismo e doce melancolia. Obras que parecem eternizar o fogo e o gelo que a adolescência suporta.


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Quem se esqueceu da adolescência? Quem não é fruto desse desabrochar cataclísmico e desordenado? Muitos a viveram com estranheza, desejando que passasse depressa; muitos nunca se livraram dela e continuam a arrastar na adultícia as correntes do seu fantasma; muitos não a tiveram simplesmente. E que tem a música a ver com isto? Muito, quando mais nada permite comunicar com o mundo ou enquadrar a miríade de sensações novas e a avalancha de emoções que faz cada dia conter as quatro estações do ano. Inadvertidamente (ou não), um duo de Baltimore, Estados Unidos, transporta-nos de modo flagrante para essa entropia de amores idealizados, rebeldia em bomba relógio e misantropia constante. O seu nome é Beach House.

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Victoria Legrand e Alex Scally conheceram-se em 2004 e a química das canções levou-os à união musical que perdura até hoje. Editaram o primeiro disco, homónimo, em 2006 e quem escutou atenta e abertamente não conseguiu fechar-lhes as portas do coração. Beach House é o ponto de partida tímido mas solene para uma viagem onírica, etérea e romântica como poucos conseguiram realizar no universo da música popular. Chamaram-lhe Dream Pop, sucedâneo do Shoegaze, folk reencarnada num teclado e numa guitarra eléctrica. Soa a música feita em quarto escuro. Iluminado de dia pelo sol que perfura persianas fechadas e à noite por velas que derramam cera num caos silencioso. Uma música de lirismo poderoso, intensa sem ser explosiva, pulsante sem perder a timidez e a introspecção. As melodias sombrias, misteriosas e docemente melancólicas de Master of None, Apple Orchard ou Tokyo Witch são portas de entrada para a solidão reconfortante, deixando para trás um mundo demasiado real.

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Em 2008, Devotion inicia a discreta depuração sonora do duo. As ambiências de contos de fadas e sonhos despertos prosseguem, mas enegrecem. A atmosfera é agora mais austera, suavemente gótica, púbere em farrapos, agridoce nas emoções. As canções de filigrana do primeiro disco crescem para lamentos dolentes, de amor sonhado, desejado, interrompido. O sofrimento de não ter e, por isso, não ser. A sublimação pela idealização. E tudo se torna mais suportável e belo ao som de Heart of Chambers, You Came to Me ou Gila. O quarto escuro começa a ser demasiado esconso para corações que transbordam e que se arrastam penosamente buscando um bater sincronizado e, de preferência, hipster.

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Dois anos depois, os Beach House chamaram Teen Dream ao seu terceiro capítulo. E não deixa de ser curioso, porém previsível, que a primeira prova da maturidade criativa de Victoria % Alex remeta para um sonho adolescente. É um disco com poucas ou nenhumas falhas, um contínuo rendilhado sonoro, escapista como sempre, mais onírico e emotivo que nunca. Remete para dias fora de casa, sem eira nem beira, perto mas longe, desde que seja nos braços daquele ser estranho que nos fascina e nos faz sentir tão bem (Zebra). Traz à memória as primeiras paixões, que não cabem no peito e despontam sensações tão novas e intensas que só nos apetece sofrer mais uma vez mas sentir tudo de novo (Silver Soul. E o inevitável regresso a casa, num corpo amarrado a uma mente liberta (Used to Be). Se as melodias continuam a ser de sonho, as letras tornam-se mais agridoces, palavras de desespero e desassossego embrulhadas em encantadoras harmonias. Como Walk in the Park, exemplo perfeito de alienação e angústia adolescente, uma panaceia imaginária para um bullying real. Ou como o sonho teen também pode ser um pesadelo.

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Bloom fecha, em 2012, a tetralogia discográfica dos Beach House até à data. E fecha-a com chave de ouro, pois é a sua obra mais conseguida. Um crescendo criativo e um aprimoramento ao nível das composições e dos arranjos que faz do álbum um quebra-corações melódico e lírico. A urgência de fugir de um lar tóxico (Wild)Paixões que surgem, evoluem, que se negam e confundem em formato widescreen (Myth). Wishes e a força motriz do desejo, que vale por si só quando a certeza ultrapassa a posse de quem se ama. On the Sea e a sua esperança na redenção e paz, num novo princípio lavado pelas ondas. E, neste imenso oceano emotivo, de beleza sofrida e deslumbramento em carne viva, fica a frase que se repete ao fechar o disco e que resume na perfeição a música dos Beach House: It's a strange paradise.

Não sabemos o que virá a seguir. Se Victoria Legrand continuará a cantar de rosto tapado pelos longos cabelos e se Alex Scally continuará a arrepiar com os seus penetrantes rasgos de guitarra. Certo é que não se podem esperar grandes variações na fórmula do duo, apenas belas e refinadas canções, intemporais como os sentimentos que musicam. Foram vistos pela última vez em Forever Still, um curto e contemplativo filme que explora exemplarmente o seu universo. Voltem ou não, deixam sempre saudades e estão sempre presentes. Como essa adolescência que nos definiu e é difícil esquecer.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.
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