Júlio Verne: Dois Anos de Férias - o mundo num tempo de aventuras

Júlio Verne é um nome que quase dispensa apresentação. Escreveu mais de cem obras, e é conhecido sobretudo por aquelas que demonstram alguma premonição tecnológica. Mas há outras menos conhecidas, e uma delas tende a ser recordada com particular nostalgia por aqueles que tiveram a felicidade de a conhecer na sua infância : "Dois Anos de Férias".


01_Nadar_Julio_Verne_cerca_de_1878.jpg Nadar, Júlio Verne, cerca de 1878 (Wikicommons).

O francês Júlio Verne (aportuguesamento de Jules Verne, o seu nome original) é um dos mais conhecidos e traduzidos autores literários. Tendo escrito em abundância, é natural que nem todas as suas obras tenham o mesmo destaque, e que apenas algumas venham de imediato à mente da maioria do público, em particular as que demonstram alguma especulação e premonição tecnológica, garantindo-lhe um lugar na paternidade da literatura de ficção científica: Da Terra à Lua, 20.000 Léguas submarinas, A Ilha Misteriosa.

02_Henri_de_Montaut_ilustracao_de_Da_terra_A_Lua_de_Julio_Verne_1865.jpg Henri de Montaut, ilustração de "Da Terra à Lua" de Júlio Verne, 1865 (wikicommons).

Porém, entre as muitas obras menos conhecidas, há uma que tende a ser recordada com particular reverência por aqueles que com ela se cruzaram nas suas primeiras leituras. Um livro que reúne um culto não organizado, propiciador duma estranha consciência de comunidade quando se descobre que alguém também o leu, que o livro (apesar de se saber que foi impresso aos muitos milhares) não é um segredo só de um, mas de muitos. Um culto muitas vezes transmitido de pais para filhos, com uma feliz sensação de dever cumprido. Um culto celebrado normalmente em privado, mas que por vezes ganha estatuto público, como quando um escritor reconhecido como Milan Kundera o invoca em A insustentável leveza do ser.

O Livro

Esse livro é Dois Anos de Férias.

Nele, Verne retoma um dos seus temas mais caros, que encontrara em Daniel Defoe (autor de Robinson Crusoe): o do náufrago que tem de recorrer ao conhecimento e à inteligência para sobreviver em paragens (inicialmente) desertas. Nesta obra em particular, aplica essas circunstâncias a um conjunto de rapazes que se vêem isolados, e faz acerca da situação um tratado sobre o bem e o mal, a amizade e a responsabilidade.

Resumindo o enredo, sem revelar demasiados pormenores, a história apresenta-nos inicialmente um iate à deriva numa tempestade. Dentro dele não viaja um único adulto, apenas quinze rapazes, quase todos alunos dum colégio interno da Nova-Zelândia que nele tinham previsto passar parte das suas férias de Verão, numa viagem organizada pelos pais. Um acaso da sorte fá-los chegar com alguma segurança a uma terra que descobrem ser uma ilha. Isolados, tratam de se estabelecer, de se organizar e, com os recursos do iate, os seus conhecimentos e a natureza generosa do local, conseguem superar as dificuldades. Organizam-se numa pequena república (imperfeita) de rapazes que elege os seus líderes e determina as suas regras. Por fim, descobrem ter deixado de estar sozinhos na ilha e, depois dum conflito final, conseguem garantir o retorno para junto das suas famílias.

03_Leon_Benett_ilustracao_para_Dois_Anos_de_Ferias_de_Julio_Verne.jpg Léon Benett, ilustração para "Dois Anos de Férias" de Júlio Verne (wikicommons).

04_Leon_Benett_ilustracao_para_Dois_Anos_de_Ferias_de_Julio_Verne_008_ok.jpg Léon Benett, ilustração para "Dois Anos de Férias" de Júlio Verne (wikicommons).

Porventura não será difícil explicar a magia que o livro exerce sobre os seus leitores jovens. Sem elfos, feiticeiros e grifos que a garantam, como acontece em "best sellers" infanto-juvenis mais recentes, a receita do sucesso é bastante simples e começa logo pelo título. A ideia de ter dois anos de férias, como um enorme verão sem deveres escolares, é simplesmente encantatória. Depois, a premissa de uma sociedade gerida por rapazes, sem imposições adultas, abre promessas de aventuras tremendas, caçadas e pescarias, invenções e disparates, que o livro confirma. Todos os seus leitores se lembram da impagável tentativa (falhada) de domar e montar uma ema, uma parente da avestruz, típica do extremo sul do continente americano.

05_Leon_Benett_ilustracao_para_Dois_Anos_de_Ferias_de_Julio_Verne_001_ok.jpg Léon Benett, ilustração para "Dois Anos de Férias" de Júlio Verne (wikicommons).

06_Leon_Benett_ilustracao_para_Dois_Anos_de_Ferias_de_Julio_Verne_002_ok.jpg Léon Benett, ilustração para "Dois Anos de Férias" de Júlio Verne (wikicommons).

07_Leon_Benett_ilustracao_para_Dois_Anos_de_Ferias_de_Julio_Verne_003_ok.jpg Léon Benett, ilustração para "Dois Anos de Férias" de Júlio Verne (wikicommons).

Para além destes aspectos particulares, o livro partilha algumas características com a restante obra de Verne, desde um ritmo bem gerido a um conjunto de mistérios e conflitos que vão permitindo um crescendo de tensão que culmina perto do final (que naturalmente é um final feliz). E claro, também neste livro, há uma engenhoca especulativa, um enorme papagaio de lona feito pelos jovens náufragos que, à semelhança de um balão, se eleva nos ares arrastando um cesto tripulado. Uma engenhoca que se revela perigosa.

08_Leon_Benett_ilustracao_para_Dois_Anos_de_Ferias_de_Julio_Verne_004_ok.jpg Léon Benett, ilustração para "Dois Anos de Férias" de Júlio Verne (wikicommons).

O Tempo e a Obra

Independentemente da sua eficácia nas camadas mais jovens, uma leitura adulta dos "Dois anos de Férias" permite entender aspectos que escapavam nas primeiras passagens pela obra (frequentemente lida e relida até exaustão da encadernação e do papel), ou que causavam apenas alguma incomodidade e estranheza. Este, como os outros livros de Verne, é em boa medida um produto do seu tempo. No que denota de bom e no que evidencia de mau.

O século dezanove é século dos nacionalismos emergentes e da sistematização do colonialismo. E não é preciso muito esforço para perceber a pegada desse contexto civilizacional na obra.

Na disputa pela liderança da colónia de rapazes, destacam-se os dois elementos: o abnegado e criterioso Briant, o verdadeiro herói do livro, e o orgulhoso Doniphan. Briant é francês e Verne fez incorporar nele as virtudes republicanas de dedicação ao colectivo, do primado do racionalismo. Doniphan, um inglês, em contrapartida, aparece como uma corporização dos valores aristocráticos, como um poço de individualismo. Briant e, em menor escala, o americano Gordon são os construtores de uma sociedade que cuida dos seus: gerem e organizam. Doniphan e os seus apoiantes são os caçadores por excelência, a sua ânsia predatória sobrepõe-se aos interesses da comunidade e a sua eficácia na matança fá-los sentir mais merecedores que os demais. São impulsivos e pouco previdentes.

O ressentimento de Doniphan perante o comando de Briant quase leva a uma secessão entre a comunidade e ao despoletar dum conflito interno. Na reviravolta final, o reconhecimento da razão de Briant feito pelo jovem inglês é a vitória simbólica dos valores republicanos sobre a tradição aristocrática. Da França sobre a Inglaterra.

Um outro aspecto importante é o papel dado a Moko, um jovem grumete, o único membro da tripulação a bordo do iate Sloughi quando o descobrem desgovernado numa tempestade. Moko tem sensivelmente a mesma idade dos demais rapazes, mas é negro. Júlio Verne escapa a uma caricatura racista e faz de Moko uma das personagens mais sábias, equilibradas e decisivas da história. Irritantemente, porém, Moko é voluntariamente subalterno e servil, não participa nas decisões e votações, apesar de frequentemente dar soluções para problemas e de ser tremendamente corajoso. 

Moko representa o negro bom, evoluído pelo contacto com a civilização europeia mas sem aspirações de igualdade. O negro que sabe o seu lugar. De alguma forma, Moko é o espelho daquilo que as mentes "bem-intencionadas" do século dezanove entendiam ser o produto futuro do empreendimento colonial: uma mão-de-obra eficiente, fiável e inócua, resgatada do primitivismo e paganismo pela caridade e iniciativa europeias.

Mas maniqueísmo nacionalista e viés colonial à parte, Dois anos de férias é uma obra de grande optimismo. O livro incorpora uma perspectiva do mundo que crê que, através do conhecimento e da razão, é possível criar um caminho de progresso técnico e social. Os jovens, com excepção de Moko, todos de origem europeia e educados, estão já armados com valores que impedem um retrocesso civilizacional. Sabem como se organiza uma sociedade funcional, como se analisa e interpreta o mundo, e como dele se extrai a fortuna material. Apesar dos desentendimentos internos, regulam-se pelo concreto e o observável, nunca mergulhando no irracional, no barbárico, no medo. A cultura e a ciência salvam-nos.

Uma outra visão: O Deus das Moscas, de Golding

Um tal optimismo e perspectiva não seriam possíveis a outros autores. Seis décadas, vários genocídios, duas guerras mundiais e duas bombas atómicas depois, o prémio Nobel William Golding trabalharia, no famoso O Deus das Moscas (The Lord of Flies), de 1954, uma situação semelhante.

09_Autor_desconhecido_William_Golding_1983.jpg Autor desconhecido, William Golding, 1983 (Wikicommons).

No meio duma guerra, um avião de evacuação britânico despenha-se. Todos os sobreviventes são crianças que ficam sós numa ilha. Também aqui os jovens se tentam organizar, elegem o seu líder e procuram implementar um conjunto de tarefas. Mas Golding não partilha da fé de Verne na prevalência da civilização. Na sua ilha há igualmente um grupo dos caçadores, liderado por Jack Merridew, o equivalente do orgulhoso Doniphan, que se ressente do líder eleito, Ralph. Mas desta feita, o chefe escolhido pelos pares não incorpora plenamente as certezas e o espírito de dever do Briant de Verne. Nem a sua assertividade.

A pequena república de Golding não funciona. O líder não consegue implementar as tarefas necessárias à sobrevivência e à procura dum resgate adulto. Não consegue evitar o espalhar dum medo irracional entre as crianças, tornadas crentes na existência duma terrível besta na ilha. Não consegue evitar a secessão dos caçadores e os conflitos. As crianças descambam na selvajaria e combatem entre si. Matam-se. O seu conflito derradeiro culmina na própria destruição da ilha através do fogo.

Por fim, é o fogo que os assinala e faz chegar a eles um navio que os resgata, terminando abruptamente a sua descida à barbárie. O oficial que os recolhe não evita demonstrar o seu desapontamento perante os monstros tornados crianças novamente pela sua presença. Esperava mais de um bando de rapazes britânicos e civilizados.

As crianças de Golding nem são bons selvagens, nem boas amostras da civilização e da educação. Libertos da supervisão adulta, as tentativas de estabelecer regras e viver em sociedade cedem à pulsão individualista, à luta pelo poder e à mais destrutiva irracionalidade. A ciência e a educação não salvaram o mundo do genocídio e do morticínio das guerras mundiais, nem do medo constante da Guerra Fria, e não evitariam certamente, para Golding, que um grupo de crianças criasse o seu próprio trilho para a destruição.

A inocência perdida

Entre as duas obras há semelhanças, mas há igualmente diferenças. O livro de Verne é inquestionável e incomparavelmente mais positivo que o de Golding. Embora perpassem por ele alguns dos males do seu tempo, Dois anos de Férias é muito mais optimista acerca da natureza humana que o livro do autor inglês, escrito na ressaca da Segunda Guerra Mundial e no início da era atómica. Embora fossem decerto visíveis para Júlio Verne os sinais dos perigos que se confirmariam no século seguinte, a sua perspectiva fazia-o crer que os males do progresso eram "dores de crescimento", que a seu tempo o sentido da História libertaria a humanidade das suas limitações.

É talvez este optimismo que torna Dois anos de férias particularmente apaixonante. O Deus das Moscas (ou O Senhor das Moscas, como também aparece traduzido noutras edições) é uma obra marcante e incontornável, muito mais conhecida, mas não é verdadeiramente um livro para crianças. A sua distopia infantil encerra uma descrença profunda.

O livro de Verne, pelo contrário, é acessível aos pequenos leitores. Como acontece nos contos tradicionais, é uma história divertida mas dotada duma moral. Dá-lhes aventuras, perigos e lições. Revisto sob o olhar adulto, dá-nos a oportunidade de olhar para a inocência perdida. Para a nossa própria, para o tempo em que o líamos sem ideia da contingência histórica que o delimitou, quando era possível vê-lo apenas como uma história de aventuras. E, para uma certa inocência cultural, um momento histórico em que era possível acreditar que a ciência e a técnica, e a razão enfim, por si sós, resgatariam a humanidade dos seus defeitos.

E essa oportunidade permite-nos uma viagem tão (ou mais) fantástica quanto a que os jovens do livro fizeram nos mares do Sul do século dezanove.

10_Leon_Benett_ilustracao_para_Dois_Anos_de_Ferias_de_Julio_Verne_s005_ok.jpg Léon Benett, ilustração para "Dois Anos de Férias" de Júlio Verne (wikicommons).


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...
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