O esforço da imaginação em "Um Segredo Entre Nós"

Normalmente os filmes nos dão um história completa em que só precisamo seguir sua linearidade atentamente. O que acontece quando as lacunas são tão grandes a ponto de nos forçar a usar nossa imaginação de maneira extraordinária? "Um Segredo Entre Nós" é o ponto de defesa do cinema de interação com o espectador, mesmo que sem nenhuma intenção de sê-lo.


01_Cayden_Boyd_como_Michael_Waechter.jpg Cayden Boyd interpretando o jovem Michael Waechter.

Um Segredo Entre nós foi lançado em 2008, dirigido por Dennis Lee e é daqueles filmes que provavelmente você não assistiria por indicação de ninguém. Não significa que o filme não é envolvente, isso ele é, mas parece que faltou bobina e filme teve que ser terminado às pressas. Mesmo com um elenco de encher os olhos, com William Defoe, Ryan Reynolds e Julia Roberts, mesmo parecendo ser um longa de deixar o queixo caído, há uma linearidade que é traçada e morre sem um último suspiro. Isso pode ser ruim para muitos espectadores.

O filme conta a história de Michael Waechter (Ryan Reynolds), um escritor que, na infância, era extremamente maltratado por seu pai, professor universitário e escritor fracassado Charles Waechter (Defoe), ao mesmo tempo, tinha uma forte ligação com sua mãe, Lisa Waechter, interpretada pela Julia Roberts. O filho cresce e se torna um escritor popular, “vencendo” seu pai neste aspecto da vida. No dia da formatura tardia de sua mãe, a família se reúne, mas um imprevisto acontece: em uma acidente de carro, Lisa morre após Charles desviar de seu sobrinho e bater em uma árvore.

02_Cayden_Boyd_como_Michael_Waechter.jpg Michael Waechter libertando sua raiva.

03_Willem_Dafoe_como_Charles_Waechter.jpg Willem Dafoe como Charles Waechter.

04_willem_dafoe_e_julia_roberts.jpg Willem Dafoe e Julia Roberts.

A história de verdade começa com todo o desenrolar após a morte de Lisa, com o livro novo escrito por Michael e seu flashbacks sobre sua infância dolorosa. Em um dado verão, a sua tia adolescente Jane vai passar a temporada sob os cuidados de Lisa, e ambos criam um grande laço de amizade e cumplicidade.

05_Julia_Roberts_e_Cayden_Boyd.jpg Julia Roberts e Cayden Boyd.

06_Jane_e_Michael_na_infancia.jpg Jane e Michael na infância.

Onde o filme morre?

A história tem um andamento tão lindo que é difícil identificar algum traço nenhum que demonstre uma guinada conservadora do filme (e ela acontece). Nada mesmo.

Michael e Jane, ao chegarem em casa, avistam o carro de Charles destroçado e Lisa já declarada morta, mas não há uma reação de desespero no rosto de Michael, o filho. Pelo contrário, durante o filme todo, seu papel é de amenizar a dor de seu primo, que se culpa constantemente pela morte da tia, de acalantar Jane, de servir como ombro amigo ao amante de sua mãe e de tentar esboçar alguma possibilidade de comunicação com seu pai abusador. Michael é equilibrado, é contestador, é o filho que cresce e não mais precisa obedecer as regras do pai autoritário. Ele, de fato, não mais as obedece. Ele só obedece àquilo que sente que deve obedecer. Ele se guia com suas próprias regras.

08_Michael_tenta_acalmar_seu_primo_apos_a_morte_de_sua_mae.jpg Michael tenta acalmar seu sobrinho, após a morte de sua mãe.

Não posso dizer que seu pai era um puro abusador. Ele era o produto de seu tempo. Era autoritário, o abusava com castigos físicos, mas esboçava elogios (“Filho, você tem uma caligrafia muito bonita”) e se preocupava com a integridade intelectual de seu filho, apesar de, provavelmente, esta integridade perfeita ser considerada somente o reflexo da educação que seu ele lhe deu. Existe uma relação de pai e filho de verdade, não somente uma relação de abusador e vítima.

Ao mesmo tempo, o nome do filme não foi colocado desta forma à toa. No original, se lê “Fireflies in the Garden”, “Vagalumes no Jardim”, o poema que Michael lê aos amigos de seu pai após o mesmo dizer que seu filho recitaria um poema original. Michael, após essa “humilhação” que faz seu pai passar, é obrigado a ficar segurando duas latas de tinta com seus braços esticados para o lado. Este poema não é dele, vale dizer. Não é original e esta é a única razão do castigo.

07_Poster.jpg Poster do filme.

O livro de Michael, que deveria ser publicado e ainda estava em manuscrito, também se chama Fireflies in the Garden. A referência ao episódio é óbvia. Se trata de um livro que contaria as dificuldades de sua infância. Seria um livro que denunciaria seu pai e iria expor todos os maus-tratos que já haviam acontecido naquela casa e em sua vida. Em uma conversa com Jane, ela o repreende pelo livro... Ela fica com medo de que saibam sobre “aquelas coisas” (o segredo). Essas coisas não são reveladas. Nem precisam. Não importa saber qual é o segredo, só importa saber que há algo que não deve ser dito.

09_Tia_e_sobrinho_ja_adultos.jpg Tia e sobrinho já adultos.

Então chegamos em um momento onde Michael pergunta para seu pai “como ficaram assim”, com essa relação tensa, nociva. Ambos não gostam de como estão, entretanto, em um flashback, o próprio Michael lembra do dia em que sua mãe descobriu a traição de Charles e seu pai prometeu que “as coisas seriam diferentes”. Isso nos faz pensar que os abusos parariam.

O desenrolar enrolado

“Um segredo entre nós” claramente aponta um foco diferente para o filme. Faz o olhar ser guiado para o “segredo”. Mas esse segredo não é importante.

Em um dado momento, Michael decide não publicar mais seu livro e sai da cidade em uma situação amistosa com seu pai. Ele fica “de bem” com seu abusador, mas não há nada que faça parecer que essa situação seja “boa”. O livro parecia ser o desabafo de Michael, parecia ser o exorcismo de sua infância, entretanto, ao deixar o livro de lado, ao não publicar para conservar a imagem de seu pai (ou algo a mais), em favor de uma suposta “superação”, é possível duvidar do fim do filme.

10_Ryan_Reynolds_como_Michael_Waechter.jpg Ryan Reynolds como Michael Waechter.

11_Michael_conversa_com_o_amante_de_sua_mae_Ela_estava_completamente_apaixonada_por_ele.jpg Michael conversa com o amante de sua mãe. Ela estava completamente apaixonada por ele.

Eu não quero dizer que um filme deve ter um fim linear, super bem elaborado. Pelo contrário, deve nos surpreender. Mas tudo faz parecer que, de repente, o filme acabou.

Isso é ruim? Pode ser, mas vejamos, o que é esse corte? Essa falta de história, como se um pedaço faltasse? Com certeza, isso dificulta qualquer tentativa de analise, afinal, há uma lacuna enorme. Entretanto, o que me parece é que este filme é o exemplo perfeito da liberdade.

Liberdade do espectador

Este filme que foi criticado duramente pela mídia americana tem lacunas tão grandes que obrigam o espectador a tomar uma posição, necessariamente, se virar para entender o que se trata. É necessário, estritamente necessário, que o aquele que vê seja, também, aquele que cria. A criação é puramente imaginativa, não é nada concreto, mas é uma relação firmada com o filme. O filme exige que o espectador seja ativo, não um mero objeto sensível.

É aqui que vemos a possibilidade de um cinema em que o espectador REALMENTE não é só um objeto sensível, mas atividade sensível. O espectador é alguém dentro do filme, não por que muda o que quer ou por que interpreta da maneira que quer, isso é lenda. O espectador é ativo porque as lacunas presentes no filme o forçam a preenchê-las com algum significado. O filme é “chato” quando a significação que é conteúdo das lacunas se torna uma significação de senso comum, uma significação sem interesse de estar ali, ou seja, quando não se pretende preencher as lacunas, mas que as preenche por é necessário que elas sejam preenchidas.

Essas lacunas forçam à todos o seu preenchimento, mas não forçam o interesse pelo preenchimento.

Eu acredito que dizer que o espectador é atividade sensível, é o mesmo que dizer que o filme se modifica da mesma maneira que aquele que assiste é modificado. Claro que um filme linear permite isso, mas creio que com pequenas opções lógicas e práticas. Me parece que o filme linear, “tradicional”, tem como base a noção do “público alvo”. É feito para alguém. É feito para ser entendido de uma determinada forma. Isso não anula a multiplicidade das formas de se interpretar, mas elimina de antemão todas aquelas que não são “interessantes” para aqueles que produzem o filme.

É claro que não dá para ser ingénuo e achar que Um Segredo... é um filme puro, feito para ninguém e para todos. Claro que não. A produção é ligada com a recepção da obra, entretanto, no resultado final, eu creio que essa necessidade de preencher as lacunas foram além daquilo que seria um público “ideal” para este filme. Forçar o espectador a preencher as lacunas é forçar sua imaginação, suas emoções. Não é improvável que, à primeira vista, o filme seja horrível. Mas tentar dar a “segunda vista” é tentar pular para um esforço de significação potente e libertador.

Veja aqui o trailer:


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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