Rabbits o filme: os coelhos de David Lynch

Um mistério pavoroso? Uma cidade surreal? Onde estão esses coelhos? Quem são eles? Isso importa? É aqui que a imagem vale mais que a história e as emoções saltam em meio à desconexão do filme. Uma obra? Uma colagem? Talvez tudo.


01_rabbits.jpg "Rabbits", de David Lynch.

Rabbits foi lançado em 2002 e é uma pequena série de “horror-comédia” compilada em um único longa por David Lynch. Ele foge completamente de qualquer padrão hollywoodiano de se fazer filmes. Na verdade, por não ser de fato um filme, mas uma colagem praticamente sem edição de diversos micro-episódios, qualquer tentativa de estabelecer um padrão de início, meio e fim está fadada ao fracasso.

03_david_lynch.jpg David Lynch.

Mas não se trata somente disso. Rabbits tem um cenário único, parado, em que o ponto de vista da câmera, também único, imóvel, está distante o bastante para se afirmar que há uma plateia neste “teatro” louco. De fato, se trata de uma encenação sobre um tablado, quase como em um sitcom americano, em que a entrada de cada personagem é recebida com aplausos e assobios.

Os seus três personagens, três coelhos que vivem em sob um clima pesadíssimo, conversam aleatoriamente com perguntas e respostas sem a menor conexão, aparentemente. Quem é o homem de capa verde? Quem é o homem de capa vermelha? O que ele fez? O que é tão horrível? O que são aquele monólogos longos, declamados, sem muito sentido e tão dramáticos?

02_rabbits.jpg "Rabbits", de David Lynch.

A sinopse de Lynch para o filme é: “em uma cidade sem nome, castigada por uma chuva contínua, três coelhos vivem com um mistério pavoroso”. Este mistério precisa ser resolvido, mas não é possível! Vale dizer que esta pequena série foi lançada em seu site, produzida de forma mais ou menos alternativa, mas ainda contando com seus atores xodó, Scott Coffey, Laura Elena Harring e Naomi Watts. Eles estão fantasiados com as roupas de coelhos, mas nada “sexy” ou “clean”. Tudo ali é pesado, tudo ali serve para não ser previsível.

A trilha sonora se relaciona perfeitamente com o seguimento pavoroso dos diálogos. Se trata de uma faixa continuamente reproduzida, intensamente misteriosa e horripilante. As pequenas variações durante o filme, como durantes os momentos em que as luzes se apagam e algo parecido com o demônio surge no fundo do cenário, ajudam a manter o clima de medo e suspense, mesmo sem termos a menor ideia do que temer.

05_Rabbits_O_momento_mais_tenso_do_filme.jpg O momento mais tenso do filme.

Possivelmente isso que dá o gosto especial para Rabbits. Não saber do que se trata, mas sentir o que deve ser sentido, não nos coloca em posição de prever aquilo que devemos temer. Ou seja, não sabemos se iremos ver um monstro, um corpo, um assassino, uma brutalidade com os corpos dos três coelhos, não sabemos nada. As coisas acontecem (ou melhor, não acontecem).

A desconexão

Talvez seja possível traçar um paralelo entre Rabbits e O Bandido da Luz Vermelha. Ambos os filmes não obedecem uma lógica linear, uma conexão estrita entre cenas, não têm objetivos claros, não seguem um padrão de contestação política ou de denúncia das mazelas da sociedade. São filmes que acontecem.

06_Paulo_Vilhaca_como_o_Bandido_da_Luz_Vermelha.jpg Paulo Vilhaça como o Bandido da Luz Vermelha.

Diferente de Rabbits, O Bandido... ainda delimita um personagem e deixa uma história mais ou menos clara: o bandido afundado em crises existenciais que comete seus crimes de maneira sempre inusitada. Jorge pode ser identificado como o sujeito em liquidez, o sujeito mais ou menos consumista, com asco à fixidez, exibido e petulante. Sabe que está ferrado e se acha especial por isso. É por estar ferrado que ele “pode” ser o inconsequente que é.

Entretanto os dois não são filmes “para todos”. São dois filmes que não ligam para quem assiste. Quem assiste que precisa se adaptar ao filme, não o contrário. Quem assiste precisa se apropriar do filme de maneira que ele passe a fazer algum sentido em sua vida particular, mas não há muitas dicas de como firmar uma interpretação universal, uma estrutura na história. O filme parece ser só estética, arte pela arte, algo mais ou menos banal.

Talvez este seja um ponto de forte aproximação de ambos os filmes. Rabbits e O Bandido... são filmes para quem sabe o que é cinema, para quem entende, pois só quem “é do cinema” consegue aguentar uma trama tão desconexa, pedante, chata, monótona e non-sense quanto essas duas. Só quem tem a vagagem cultural necessário para fazer parte do seleto grupo de estudantes, especialistas, críticos ou produtores de cinema que terão o saco necessário para ver ambos os filmes até o fim.

Ao contrário de O Bandido..., Rabbits deixa isso claro por ter sido lançado na sessão paga do site de Lynch. É um filme pra quem quer ver e pra quem quer pagar para ver. Não é pra qualquer um mesmo.

Surreal

Talvez uma ligação possa ser feita com O Cão Andaluz, curta-metragem de Buñuel, do fim da década de 20, em que os efeitos especiais ajudam ao ponto do olho de uma mulher é cortado e tudo parecer muito real.

Em O Cão Andaluz e em Rabbits, as imagens são dispostas sem uma ordem que pareça ser correta (algumas questões do início de Rabbits parecem ser respondidas no fim do filme), as palavras saem da boca dos coelhos com a mesma arbitrariedade das diferentes cenas no curta de Buñuel. Não há um sentido claro em ambos e o conteúdo estético parece ser mais importante que o sentido textual.

Se Buñuel era interpretado pela teoria psicanalítica, por símbolos que as cenas poderiam significar, Lynch é interpretado pela legitimidade da “arte pela arte”. Da arte que não precisa ter sentido político, econômico, cultural e etc e etc, da arte que só precisa ter sentido artístico.

Qualquer produção cultural, por mais que sua intenção seja se delimitar na arte, por mais que tente somente ser arte (arte pela arte), sempre haverá implicações políticas, sociais, econômicas e culturais. Sempre será um símbolo de distinção entre o grupo intelectual (que, além de assistir O Bandido... e Rabbits, também os entende) e a massa, ávida consumidora de filmes popularescos, com explosões, comédia boba e romances previsíveis.

04_rabbits.jpg "Rabbits", de David Lynch.

E é essa distinção que estrutura diversos preconceitos culturais, como a canonização de determinados artistas (os gênios incompreendidos) e o linchamento de outros (os Paulos Coelhos da vida) e que hierarquiza a sociedade em diversos grupos, sendo os dominantes, aqueles que consomem os bens culturais “legítimos”, como Lynch, e os dominados, aqueles que se preocupam somente com os bens culturais de massa, como os filmes hollywoodianos e os livros de Paulo Coelho, bens que não são feitos “para a arte”, mas que são feitos “para o lucro”. Talvez por isso Lynch seja tão aclamado.

Por sorte, o filme está disponível completo pelo youtube:


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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