vida e obra de Marcel Proust

1936, Asheville, Carolina do Norte. Na palma da mão de uma enfermeira, um Scott Fitzgerald moribundo rabisca uma lista de 22 livros que seriam de leitura obrigatória. Apenas um autor vem repetido ali: Marcel Proust.


01_marcel_proust.jpg Marcel Proust, 1900 (Wikicommons).

Uma lista curiosa, aquela: Shakespeare não consta; nem James Joyce. Se conjugarmos o estado emocional e psicológico de Fitzgerald naquele ano – a revista Esquire publicou um texto da sua autoria, “The Crack Up”, no qual confessava ter construído a sua vida com recursos que não possuía, sendo obrigado a “hipotecar-se física e espiritualmente” – com algum conhecimento da obra de Proust, percebemos o porquê da insistência neste: abordou de forma claríssima sentimentos como a desilusão, a inquietação, o sofrimento, a ansiedade, a decepção, tão conhecidos hoje por todos nós, jovens e velhos.

Mas não se preocupe, senhor leitor: para dissecar e explorar Proust não tem, obrigatoriamente, de ler o infindável Em Busca do Tempo Perdido (a frase mais longa teria, se disposta em linha recta num corpo de texto normal, pouco menos de quatro metros e daria 17 voltas em torno da base de uma garrafa de vinho). Calma, respire fundo - Alain de Botton ajuda-o. Perdão, Marcel, sei que este apontamento ao leitor é avesso às suas teorias de sobrevivência, mas hoje as pessoas vivem a velocidades idiotas, não praticam o seu colossal slogan “n’allez pas trop vite” e, se não protegesse o leitor da sua quilométrica obra, ele ficaria assustado.

Lamento que haja este sentimento generalizado, esta falta de vontade em aprofundar e desenvolver determinado pensamento, tema, decisão, mas é verdade que hoje em dia prevalece a procura da gratificação instantânea e experimentamos, cada vez mais, a cultura do imediato. Dito de outro modo, queremos o que queremos no momento em que percebemos que o queremos. Estamos voluntária e inconscientemente a desistir de uma das coisas mais importantes da nossa vida: o período de espera. Ter de esperar e de lidar com as nossas urgências, necessidades e expectativas sem as termos instantaneamente satisfeitas é o que constrói o nosso carácter e é aquilo que nos falta nesta era das mega velocidades.

02_Marcel_Proust_et_Lucien_Daudet.jpg Marcel Proust (sentado), Robert Flers (esquerda), Lucien Daudet (direita), 1894 (Wikicommons).

Até no amor é assim... Vejam-se as sábias palavra de um colunista luso (João Pereira Coutinho) a este propósito:"o amor não sobrevive aos ritmos da nossa modernidade. O amor exige tempo e conhecimento. Exige, no fundo, o tempo e o conhecimento que a vida moderna de hoje não permite e, mais, não tolera: se podemos satisfazer todas as nossas necessidades materiais com uma ida ao shopping do bairro, exigimos dos outros igual eficácia. Os seres humanos são apenas produtos que usamos (ou recusamos) de acordo com as mais básicas conveniências. Procuramos continuamente e desesperamos continuamente porque confundimos o efêmero com o permanente, o material com o espiritual. A nossa frustração em encontrar o "amor verdadeiro" é apenas um clichê que esconde o essencial: o amor não é um produto que se compra para combinar com os móveis da sala. É uma arte que se cultiva. Profundamente. Demoradamente."

De todo o modo, e voltando a Proust, Botton explica-o num livrinho “Como Proust Pode Mudar a sua Vida”, muitíssimo útil para os mais descontentes circunstanciais e para os insatisfeitos crónicos. Em primeiro lugar, central na sua obra é a busca das causas subjacentes ao esbanjamento e à perda de tempo – nada mais actual, portanto. Em segundo lugar, ensina-nos a sofrer com êxito. Como? Para Proust, a dor é uma forma de adquirir sabedoria, de desenvolver a nossa ginástica mental (melhor que o curso de Matemática ou de Direito, aliás). «A felicidade faz bem ao corpo, mas é o sofrimento que desenvolve a força da mente», diz Marcel. Enfim, Proust é contra a corrente filosófica que se preocupa com a procura da felicidade por entender que há uma sabedoria muito superior na procura de formas de ser infeliz de maneira adequada e produtiva. Um utilitarista do sofrimento, este Proust.

03_manuscrito_A_la_recherche_du_temps_perdu.jpg O manuscrito de “Em Busca do Tempo Perdido”, (Wikicommons)

04_Marcel_Proust_Pere_Lachaise.jpg O túmulo de Proust, visitado por milhares de turistas, no famoso cemitério Parisiense Père Lachaise, (Wikicommons).


graça c. moniz

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