O homem que matou Sherlock Holmes

Sherlock Holmes aparece em 60 obras do seu criador Conan Doyle, sendo 56 contos e 4 romances. É a personagem mais retratada em programas de TV e filmes e está no Guiness Book, com a marca de 254 aparições. Apesar de amplamente citada, a frase “elementar, meu caro Watson” nunca foi dita pelo Sherlock Holmes original, não aparece em nenhuma das histórias de Arthur Conan Doyle. Quem a cita pela primeira vez é o escritor P.G. Wodehouse em um romance de 1915.


01_Sherlock_Holmes_Hound_of_the_Baskervilles_Annex_Rathbone_Basil.jpg © Sherlock Holmes, "O Cão dos Baskerville", Annex, Rathbone Basil.

Sherlock Holmes sempre morou na Rua Baker, 221B, Londres. No entanto, o endereço nunca existiu. Foi criado para sediar o Museu Holmes. Sherlock entrou para a Royal Academy of Chemistry em 2002. É o único personagem fictício a fazer parte dos quadros da academia pelas suas contribuições para a pesquisa forense.

A utilização do gênero romance com a exploração da temática de crimes surgiu durante o século XIX, por influência do Iluminismo e da Revolução Industrial, e com contributos do avanços na ciência, na tecnologia e no pensamento racional. Estes elementos foram incorporados na literatura e os trabalhos de ficção deram credibilidade à ciência nas práticas de investigação criminal, estabelecendo o modelo do cientista-detetive.

02_Sir_Arthur_Conan_Doyle_Wikicommons.jpg © Sir Arthur Conan Doyle, (Wikicommons).

Nem tudo é tão elementar quanto parece

Sir Arthur Conan Doyle foi o escritor a dar vida a Sherlock Holmes, para depois matá-lo. Algo que tentou justificar em seus escritos: "Eu temo que o Sr. Sherlock Holmes tenha se tornado um daqueles tenores que, tendo sobrevivido a seu tempo, ainda seja tentado a fazer despedidas repetidas para suas audiências indulgentes. Isto deve terminar e ele deve seguir o caminho de toda a carne, material ou imaginária."

Criador e criatura

Nascido em Edimburgo, Escócia, em 1859, Conan Doyle mostrou-se brilhante desde o início: aos seis anos escreveu o seu primeiro romance e aos catorze leu Júlio Verne no idioma original. Aos nove, ingressou em uma escola preparatória jesuíta em Lancashire.

03_Sherlock_Holmes_Statue_Edinburgh.jpg © Estátua de Sherlock Holmes em Edimburgo, (Wikicommons).

Quando estudante de medicina precisava ganhar dinheiro, e, por isso, decidiu completar um ano de estudos em seis meses, para trabalhar como assistente do Dr. Reginald Hoare, em Birmingham. Neste estágio passava a maior parte do tempo lendo ou escrevendo ficções.

O Chamber’s Journal, revista de Edimburgo, publicou a sua primeira história: “The Mystery of Sassara Valley”. Depois, o editor da London Society publicou uma segunda história, “The American’s Tale”, e aconselhou-o a desistir da medicina e a dedicar-se à literatura. No entanto, as obras não venderam.

Formou-se em medicina pela Universidade de Edimburgo em 1885, montou seu consultório, mas continuou a conciliar a medicina com o seu talento literário, dedicando-se a diversos gêneros.

Em 1887 foi publicado pela revista Beeton’s Christmas Annual e deu ao público as personagens mais representativas das histórias de detetive da literatura universal: Sherlock Holmes e o Dr. Watson estrearam-se em “A Study in Scarlet “. Em 1891 abandonou a medicina.

Conan Doyle iniciou um fenômeno que popularizou o método de dedução utilizado nas investigações e o ambiente da Inglaterra vitoriana, apresentando aos leitores uma narrativa vigorosa, em que destacava-se a atemporalidade de certos símbolos e o contraste entre racionalidade e o sobrenatural - particularmente, os elementos do gótico.

Após duas séries de notável popularidade – "The adventures of Sherlock Holmes" e "The Memoirs of Sherlock Holmes", percebeu-se que o detetive atingiu um status especial, quase humano. E Conan Doyle começou a pensar numa forma de eliminá-lo. Numa das cartas escritas à sua mãe, ele fez a exposição do problema e de suas principais consequências: "A ideia surgiu em minha mente quando eu estive de férias com minha esposa na Suíça e visitamos as maravilhosas cachoeiras de Reichenbach, um lugar terrível, que eu pensei que seria um túmulo digno para o Sherlock, mas eu enterrei minha conta bancária junto com ele”.

04_Memoirs_of_Sherlock_Holmes_1894_Burt_Illustration_1_wiki_W_H_Hyde.jpg © Ilustração de "Memoirs of Sherlock Holmes", 1894, (Wikicommons, W. H. Hyde).

05_Memoirs_of_Sherlock_Holmes_1894_Burt_Illustration_2_wiki_W_H_Hyde.jpg © Ilustração de "Memoirs of Sherlock Holmes", 1894, (Wikicommons, W. H. Hyde).

06_Memoirs_of_Sherlock_Holmes_1894_Burt_-_Illustration_3_wiki_W_H_Hyde.jpg © Ilustração de "Memoirs of Sherlock Holmes", 1894, (Wikicommons, W. H. Hyde).

07_Memoirs_of_Sherlock_Holmes_1894_Burt_Illustration_4_W_H_Hyde.jpg © Ilustração de "Memoirs of Sherlock Holmes", 1894, (Wikicommons, W. H. Hyde).

08_Holmes_Adventures_Wikicommons.jpg © Ilustração de "Holmes Adventures", (Wikicommons).

Um final antes do fim

Em “The Final Problem” (1894), o Dr. Moriarty, seu eterno inimigo, empurra Holmes para as catacumbas. Quando esta notícia é publicada nos jornais da época, surge um forte debate dos críticos, há leitores a declarar-se de luto e a revista perde mais de vinte mil assinantes.

Tentou-se então fazer algumas pequenas homenagens e uma nova história sobre Sherlock Holmes, "The Hound of the Baskervilles", publicada em 1902, que Doyle coloca, cronologicamente, antes da morte, para evitar qualquer reviravolta. Mas, por força do destino e clamor dos fãs, em 1903 Doyle aceita uma oferta irrecusável e de grande expressão monetária para “ressuscitar” Sherlock Holmes em “The Empty House” e criar uma nova série de short-stories – "The return of Sherlock Holmes". O fantástico detetive teria burlado a própria morte.

No ano de 1930, um pouco antes da sua morte, Conan Doyle escreveu uma espécie de epitáfio: "Hoje, uma cópia deste esboço está no Sherlock Holmes pub, em Londres. Ele mostra um burro de carga pulguento puxando um carrinho de bagagem pesada. Uma pilha alta de casos embalados faz pesar o carrinho para baixo, e cada caso tem o rótulo de diferentes aspectos da vida e obra de Conan Doyle. 'Medicina' é empilhada ao lado de 'Romances históricos'. 'Eleições' colocada em cima de 'Pesquisa psíquica'. 'Contos' e 'Drama' sustentam 'Poemas' e ' A Grande Guerra'. Talvez o caso mais pesado na pilha seja o que está imprensado entre '500 palestras' e ' Austrália ' de 1921. Nele se pode ler: 'Sherlock Holmes'. ”

Das biografias existentes sobre Doyle, destacamos a de Higham, ”The Adventures of Conan Doyle “ (1931), onde o biógrafo considera Doyle, mais do que um produto da sua época, um homem cujas experiências pessoais e emocionais transformaram um “natural storytelling” - usando uma legenda cinematográfica: um “Forrest Gump” – em um grande escritor de impressionante capacidade narrativa.

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luhana pires

arrisca-se na autoria de textos e excertos poéticos, movida por uma espécie de paixão pelas palavras.
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