Kraftwerk, os homens-máquina

Hoje em dia, os Kraftwerk são uma instituição alemã tão conhecida como a sauerkraut e o Oktoberfest. A influência do colectivo de Düsseldorf na popularização da música electrónica é imensa e flagrante e nada no panorama artístico dos últimos 40 anos seria o mesmo sem eles. Chegaram a ser chamados os "Beatles da electrónica", no culminar de um caminho de origens discretas, mas que a disciplina, um instinto melódico ímpar e um fascínio obsessivo pela tecnologia tornaram fenómeno lendário.


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Quem apenas conhece os Kraftwerk na sua fase mais tardia, em toda a estética rigorosa, formal e futurista que os caracteriza, não imagina que tudo começou assim. A música do colectivo Organisation, primeiro assomo da dupla Ralf Hütter e Florian Schneider, os dois mentores maiores dos Kraftwerk, pouco tinha de electrónica e de canções estruturadas e imediatas. Frutos do advento do Krautrock, o movimento vanguardista do rock alemão de finais dos anos 60 do século passado, os Organisation editaram apenas um álbum, Tone Float, que sobreviveu até hoje mais como curiosidade de culto que propriamente pela relevância musical.

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Foi dentro deste espírito, experimental, intuitivo e de corte e colagem criativa, que as primeiras obras portadoras do nome Kraftwerk foram criadas. A dupla de álbuns inaugural continua ainda hoje a ser uma audição complexa e desafiadora, onde temas como Von Himmel Hoch ou Klingklang oscilam entre a sedução e a alienação. É em 1973, com a edição de Ralf und Florian, que começam a despontar os primeiros indícios do som clássico dos Kraftwerk, por via de laivos melódicos que se entranham e de um sentido rítmico mais atrevido. Elektrisches Roulette, Tanzmusik ou Ananas Symphonie são um primeiro vislumbre das potencialidades tecnológicas na criação de paisagens sonoras passíveis de alcançar um público mais alargado e menos elitista.

Não deixa de ser estranho que os Kraftwerk tenham decidido eliminar estes três primeiros registos da sua discografia oficial. São pedras no caminho, mas que lhes permitiram erigir um castelo. Por outro lado, é compreensível que o seu ano zero seja associado a uma tremenda alteração na sua estética e na sua sonoridade. E a um sucesso inesperado e estrondoso inspirado pela longa condução na primeira auto-estrada construída na Alemanha: Autobahn. Depois deste tema, nada voltou a ser o mesmo na vida dos Kraftwerk nem na música popular. Pela primeira vez a possibilidade da massificação de sonoridades puramente electrónicas era real e palpável. E, se esta longa odisseia é a peça-chave do álbum com o mesmo nome, a vibração pulsante e melodicamente efusiva da belíssima Kometenmelodie 2 deve ser tratada com igual reverência. Estávamos em 1974 e os Kraftwerk conseguiam o seu primeiro clássico absoluto.

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No ano seguinte adensam-se as explorações da electrónica mais avant garde em Radio-Activity. Pela lógica, talvez devesse ser este o antecessor de Autobahn, com a sua ambiência sombria e minimal e o regresso a territórios mais experimentais. É também o primeiro disco totalmente electrónico e produzido pelo grupo, uma obra que parece conjurar o espírito da Guerra Fria e a paranóia nuclear da época, algo especialmente notável no tema-título, um dos mais conhecidos e perenes dos Kraftwerk. Mas o título do álbum possui um duplo sentido e a radioactividade acaba por ser igualmente actividade radiofónica. Radioland e Antenna colocam o ouvinte a pairar no éter, algures entre a estática e o ruído que assombram as melodias.

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A segunda obra-prima da carreira dos Kraftwerk é o album posterior, Trans-Europe Express . Novamente envolto numa temática conceptual, desta vez a Europa, o disco pinta um quadro algures entre o romantizado e o decadente do Velho Continente. Composições imensas como Europe Endless e o imortal tema-título arrastam-nos em viagens oníricas e planantes, da luminosidade da primeira ao mergulho nocturno da segunda. A despersonalização e a fusão homem-máquina começam a fazer-se sentir com maior intensidade na estética dos Kraftwerk e Showroom Dummies é exemplo flagrante. Tal como a fria fronteira entre realidade e imagem de The Hall of Mirrors.

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O corolário musical e estético do quarteto de Düsseldorf surge com The Man-Machine, disco de 1978. Para além da colaboração com o artista plástico Emil Schult, responsável pelas capas dos seus álbuns desde 1973, os Kraftwerk investem numa imagem mais apelativa sem deixar de ser formal, derivativa do suprematismo. Musicalmente, este é o disco mais acessível do grupo, uma sucessão de penetrantes melodias robóticas que nos fazem crer que as máquinas possuem emoções. Um disco impregnado de clássicos intemporais como The Robots , Neon Lights ou The Model.

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Após um hiato de 3 anos, surge Computer World, o último disco realmente relevante do grupo germânico. Desta feita a temática subjacente gira em torno do advento da informatização. Nesta altura os computadores estavam longe da universalização, mas o imaginário kraftwerkiano não poderia deixar incólume qualquer inovação tecnológica ou futurista. Computer World, Computer Love ou Pocket Calculator são registos nostálgicos de uma era em que se olhava com enlevado deslumbramento para algo trivial hoje em dia. Mas também evocações de alienação emocional e relacional e de um totalitarismo potenciado pela manipulação expansiva da informação.

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A restante década de 80 foi algo madrasta para os Kraftwerk. A sua sonoridade começou a ser afectada pelo desgaste e muitos projectos por ela influenciados tomaram a dianteira. New Order, Depeche Mode, Human League e Ultravox são alguns de muitos que pegaram no estandarte da música electrónica elevando-a a uma massificação cada vez maior. Electric Café, álbum de 1986, é uma obra algo mediana para os parâmetros do grupo que, a partir daí, se dedicou quase em exclusivo à revisitação do seu catálogo através de remisturas e ao regresso às tournées. Como nota de rodapé, não deixa de ser curioso salientar que os Kraftwerk integraram, temporariamente, o português Fernando Abrantes na sua formação, após a saída de Karl Bartos, um dos seus membros históricos.

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Nos últimos 10 anos, o mítico grupo alemão voltou discretamente a uma igualmente discreta ribalta. Editou um álbum de originais em 2003, um híbrido entre tradição estética, upgrades sonoros e a sua paixão pelo ciclismo intitulado Tour de France Soundtracks e acompanhou esse lançamento com o fantástico filme-concerto Minimum Maximum. Trata-se de uma súmula perfeita da carreira musical dos Kraftwerk e uma excelente demonstração visual da sua capacidade de reinvenção state of the art.

O membro-fundador Florian Schneider abandonou o grupo em 2008, deixando Ralf Hütter como o único resistente da formação original. Desde então, o quarteto tem espalhado a sua magia electrónica em palcos seleccionados, continuando a maravilhar os privilegiados que a ela assistem. A imortalidade já lhes foi garantida.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.
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