A estética e o fenômeno rolezinhos

O racismo se expressa em uma estética facilmente visível. Quando um fenômeno social toma proporções imensas e move aparelhos de repressão é preciso olhá-lo mais de perto.


01_rolezinnho_fonte_UOL.jpg

Desde o fim de 2013 um fenômeno social novo atravessa a capital paulista: os rolezinhos. Ainda é cedo para tecer grandes comentários sobre estes acontecimentos, entretanto, alguns pontos podem ser vistos e esclarecidos, começando por sua estética própria.......

Convém entender que estes "rolês", interpretados de maneira machista e elitista por grandes veículos da imprensa brasileira são muito mais do que encontros aleatórios em locais de classe média ou alta.

02_rolezinnho_fonte_UOL.jpg

Os rolezinhos são encontros marcados pelo facebook e até agora aconteceram em shoppings da região metropolitana de São Paulo. A aglomeração de centenas de jovens da periferia paulista em locais sagrados - destinados para o consumo - assustou donos de shoppings, lojistas e clientes, que revidaram com um tom de desespero racista e classista.

O ápice do preconceito racial e social ocorreu no dia 11, com a prisão de três jovens após uma liminar concedida aos estabelecimentos comerciais, oficializando aquilo que foi chamado de maneira justa de "Apartheid Brasileiro". Se trata da oficialização de técnicas de segregação arbitrárias que envolvem afastar aqueles que parecem ser da periferia. Em outras palavras, evitar a entrada de negros e pardos em ambientes da elite branca.

03_rolezinnho_fonte_UOL.jpg

A estética própria do apartheid

O apartheid, enquanto organização de políticas para a segregação racial oficializada por lei, tem como pressuposto fundamental a separação de um grupo invasor de um outro grupo estabelecido. Na África do Sul, os brancos colonizadores por lá se estabeleceram e promulgaram leis para segregação, as quais visavam evitar contato entre a parte "suja", "negra", "inculta" e "selvagem" e a civilização branca - que estava sendo instituída no continente africano.

A segregação é determinada oficialmente por grupos que se sentem ameaçados com o potencial dos grupos dominados. Nunca houve apartheid em países brancos e ocidentais promovido por negros, já que estes sempre foram vítimas de exclusões em todo o espaço social (como dentro das igrejas, nas escolas, nos ambientes de lazer e até mesmo nos transporte públicos), construído exclusivamente para a parte branca da sociedade.

04_rolezinnho_fonte_UOL.jpg

Existe uma visão clara de que a maioria das pessoas que frequentam os rolezinhos é da periferia paulista e, por razões históricas que não precisam ser explicadas agora, é negra e parda. Se trata de um grupo estigmatizado por uma ligação "natural" com o crime, já que moram na periferia e não são brancos "civilizados", como os moradores dos bairros nobres da cidade.

Os encontros, marcados pelas redes sociais e organizados entre os próprios participantes, sofrem perseguição não somente policial - dentro dos shoppings e arredores - mas também da grande mídia, que tenta ser neutra e tolerante, mas indica a saída deste "problema" redirecionando os rolezinhos para lugares afastados, isolados e sem qualquer movimento, como o sambódromo municipal.

05_Fonte_Zero_Hora.jpg

Esta proposta indecente mostra mais uma face da cara do apartheid brasileiro, que tem sua expressão oficial, mas é filho do racismo velado que considera a exclusão do pobre negro para locais afastados como uma medida de segurança, enquanto filhos da elite branca não recebem o mesmo tratamento. A diferença entre os alunos da USP e os moradores da periferia é clara: uns são o futuro de um Brasil "produtivo", "refinado", "civilizado", que pode comemorar suas conquistas acadêmicas, enquanto os outros são "vândalos", "criminosos potenciais" e "criadores de baderna". A estética dos rolezinhos é a estética que o racismo condena.

A sociedade do espetáculo

Entretanto, também parece ingênuo acreditar numa intenção de protesto. Trata-se de pessoas que não têm acesso ao lazer e ao consumo, mas que são bombardeadas de promessas de lazer e consumo. O shopping é o local em que seus desejos seriam realizados, mesmo sem consumir, de fato.

O shopping é a meca do consumo, é um lugar que eleva o status, afinal, para entrar em um shopping, principalmente aqueles da classe alta, é necessário estar bem arrumado conforme manda o figurino do "estar bem apresentado" e prestar homenagem à lógica do consumo, ou seja, sem interferir na possibilidade do outro desfrutar do momento mágico de encher suas mãos com sacolas e brilhar os olhos nas vitrines.

Se a etiqueta aristocrática se impõe aos frequentadores de shoppings, aos consumistas "clássicos", como lidar com aqueles que adentraram à categoria de consumidores há pouco tempo? Segundo os donos dos shoppings, na base da repressão.

06_Fonte_Yahoo.jpg

Não haver um local para diversão nas periferias é parte da análise que visa indicar o motivo de entrarem justamente nos shoppings de outros bairros, esta análise se junta ao suposto glamour e status que o ato de frequentar estes lugares pode prover. Ou seja, ir para shoppings caros não é só "ir ao shopping", mas é entrar em uma sociedade de consumo, em uma sociedade de espetáculo, pautada na lógica do parecer, na cultura narcísica em que aquilo que se parece e que se expressa é a definição do "eu" por completo.

Quando se vive em uma sociedade do consumo, como já dito, em que cada sujeito é bombardeado com promessas de felicidade advindas do ato incessante de comprar e consumir, querer ser aceito e reconhecido como parte dessa sociedade é completamente lógico e ninguém é culpado por isso. Ir aos rolês é exercer o desejo comum de consumir, não só mercadorias, mas também lugares, marcas, pessoas...e assim por diante. É o desejo comum de não estar excluído. Porém, a exclusão do negro e pobre faz parte da construção de uma sociedade "limpa", "organizada". Aqueles que não podem consumir são os excluídos pelo neoliberalismo ascendente, já os negros são aqueles excluídos por claras razões históricas, políticas e econômicas - interessa para uma sociedade branca manter uma parcela enorme de indivíduos presos às favelas e marginalizados, mas disponíveis para o exercício de trabalhos mal remunerados.

Um espaço público?

Uma das tentativas de acabar com os rolezinhos é exigir o direito de não deixar que certas pessoas entrem em locais privados. O shopping é considerado, então, um espaço privado e que, segundo o direito sagrado da propriedade, pode ser regrado conforme o dono quiser, desde que sem ferir diversas outras regras imputadas pela própria lei. Isto parece, entretanto, uma forma de desviar a atenção do problema que salta aos olhos. A segregação não é por segurança, não é por proteção. A histeria branca, em pânico pela possibilidade de um arrastão que não aconteceu, mas que pode acontecer a qualquer momento ("por que?", pode-se perguntar) - causa a segregação antes mesmo do suposto perigo.

07_Montagem_sobre_quem_tem_permissao_para_entrar_em_um_shopping_paulista_onde_um_rolezinho_aconteceu.jpg

O medo do excluído existe por ele não conseguir ser classificado dentro das categorias morais, estéticas e sociais vigentes. É necessário um trabalho inimaginável para "confiar" naquele sujeito que é excluído continuamente e que, por sua vez, frequenta lugares de excluídos - que está longe da normatividade. O negro e pobre que vão aos rolezinhos deixam explícitas as desigualdades e os preconceitos da sociedade brasileira. São excluídos que tentam se estabelecer, mas que são rejeitados sistematica e agressivamente.

Discutir sobre o shopping ser um espaço público ou não é uma maneira sorrateira de reivindicar o direito de ser racista. É um jeito clássico de abdicar da responsabilidade pelas posições que se toma em relação ao restante da sociedade (neste caso, em relação à periferia e à população dita negra e parda) e se referir unicamente ao objeto protegido pela lei, ou seja, ao estabelecimento comercial.

Em outras palavras, "não somos racistas, estamos exercendo o nosso direito". O direito de promover a limpeza da sociedade, a exclusão do caos e a instituição da ordem.

Limpeza da sujeira

A violência da polícia é parte da violência institucional aplicada sobre camadas pobres e negras na sociedade brasileira. Como já dito, não se trata de uma medida de segurança, mas da manutenção da segregação social e racial que mantém negros e pobres longe de shoppings das regiões nobres. Como dito por Luciana Martins Costa, ao comparar os rolezinhos aos happenings promovidos por artistas plásticos no fim dos anos 60, "Qual é a diferença entre marcar um encontro coletivo num shopping e juntar mil pessoas dispostas a tirar a roupa num parque para aparecer numa fotografia? O que diferencia essas práticas é a expectativa de que toda reunião de jovens de baixa renda vai degenerar em saques, depredação e violência. Num dos casos, a autoridade irá providenciar segurança para que os participantes não sejam perturbados. No outro, vai tratar todos como bandidos".

O ato de separar aqueles que podem entrar no shopping e aqueles que não podem é anterior à oficialização da segregação. Ele já existe em todo canto e é um efeito da própria forma como a sociedade é estruturada. Shoppings chiques são lugares para brancos ricos e a periferia precisa se contentar com aquilo que lhe é empurrada como sendo somente deles e, portanto, sem expressividade, como o futebol, o hip hop e o carnaval. É claro que estas manifestações são importantes e legítimas, entretanto, são instituídas como "coisas da periferia", são coisas que delimitam o que a periferia pode ou não fazer, consumir, gostar e desejar. Os shoppings não podem ser parte dos planos reais de ação da periferia, não pode ser um local em que se sintam em casa.

A limpeza da sujeira é justamente retirar aquilo que a ordem do consumo - higienista e racista - não pretende suportar e nem categorizar no cotidiano de seus participantes. Neste sentido, os "baderneiros", "vândalos" e "criminosos" são, como as próprias palavras indicam, um sinal de caos.

Em sentido inverso, a polícia é o braço armado da ordem, é a sua aplicação violenta, que não se limita a shoppings, mas que, como já dito, é parte de uma violência institucional que atua desde a baixa qualidade nos serviços públicos destinados às camadas pobres, a exclusão na esfera do trabalho (o que permite a exploração de mão de obra barata de camadas vulneráveis), até ao sistema carcerário que pode ser classificado como um depósito de excluídos e, agora, nos rolezinhos da Grande São Paulo.

Sociedade com barreiras simbólicas e repressivas

A questão sobre este acontecimento é universal e quase histórica: como promover uma sociedade sem desigualdades quando elas existem fora e dentro da letra da lei? Quando a lei é usada para reproduzir preconceitos que, apesar de condenados socialmente, ainda existem na prática, o que fazer?

Os rolezinhos são fenômenos que precisam ser entendidos em seus desdobramentos. O racismo velado se institucionaliza na lei, na proteção estatal da propriedade privada e dos agentes que promovem a segregação social e racial. Entretanto, a legitimidade dos rolezinhos está, agora mais do que nunca, na simbolização de resistência que eles, mesmo sem intenção, conseguiram.

Eles são, então, uma pequena afronta à vigência branca na sociedade de consumo e são uma das exposições claras do racismo velado na sociedade brasileira e, mais especificamente, na região metropolitana de São Paulo.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 2/s/recortes// @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Vinicius Siqueira