Adultos imaturos e relacionamentos distantes em Her, de Spike Jonze

A proposta de Her é simples: imagine um futuro próximo em que as mazelas sociais (aparentemente) já não são um problema, entretanto, como enfatizado por diversos pensadores atuais, as relações sociais se enfraquecem mais e mais.


01_seu_escritorio_de_trabalho.jpg Seu escritório de trabalho.

Neste contexto, Theodore é um Ph.D. que trabalha escrevendo cartas de felicitações, aniversário, etc...para pessoas estranhas e que pagam por este serviço especializado. Se, de início, o relacionamento do nosso protagonista com um OS - operating system - parece ser o ápice do distanciamento das relações humanas, Spike Jonze deixa migalhas no caminho para nos assustarmos antes mesmo do longa se desenrolar.

Theodore passa por uma separação difícil, afinal, ele ainda ama sua esposa, mas não consegue assinar os papeis do divórcio. É quando compra um novo sistema operacional que promete ser também seu amigo: um OS com inteligência artificial, que pode aprender coisas novas, argumentar, rir e entender os contextos variados de uma conversa comum entre dois humanos.

02_Theodore_durante_a_instalacao_do_sistema_operativo.jpg Theodore durante a instalação do novo sistema operativo.

Esta OS toma o nome de Samantha, entretanto, por ser somente um sistema operacional, não possui corpo e só consegue “ver” o mundo através da câmera do celular de Theodore. Durante o filme, outras pessoas também acabam se apaixonando pelos seus OS, o próprio Theodore tenta levar um relacionamento normal com Samantha, a levando para passear, passar férias em locais diferentes e tantas outras meiguices de casais, Mas, como é fácil imaginar, nem tudo dá certo e o relacionamento “perfeito” termina quando Samantha percebe que precisa crescer. Ela não é de Theodore, ela já é ela mesma.

03_Cartaz_do_filme.jpg Cartaz do filme.

Antes de voltar à Samantha, um pouco sobre Theodore.

Theodore

Sabe aquele rapaz triste, isolado, que não vê muito futuro em sua vida e que se pergunta a todo momento se seu presente se estenderá por muito tempo? Aquele rapaz que a vida parece não valer a pena o bastante para continuar a ser vivida, mas que não tem coragem o bastante para tirá-la? Este é Theodore. Ele era um rapaz feliz com sua esposa, ainda a ama, mas não há reciprocidade. Seu distanciamento, sua falta de comunicação e sua infantilidade emocional a fez parar de amá-lo. O problema é Theodore? Talvez.

04_Theodore_e_Samantha.jpg Theodore e Samantha.

O filme retrata uma época em que as ligações entre os seres humanos estão dando lugar para ligações entre humanos e máquinas. Não só de maneira instrumental, mas também de maneira emocional. Dentro do trem ou nas ruas, quando percebemos que todos os humanos estão com seus pequenos fones de ouvidos conversando com seus OS's, percebemos que nosso protagonista não é especial, ele é mais um.

Talvez sua ex-esposa, que o acusa de não saber lidar com emoções reais e com pessoas reais, seja a exceção, seja o resto de humanidade emancipada que sobrou de uma época não tão distante, em que seres humanos precisaram uns dos outros para qualquer nesga de comunicação. Theodore não é mais do que aquele garoto triste do fundo da sala de aula, que não fala com ninguém (e, por consequência, ninguém fala com ele). Theodore experimentou a felicidade com sua esposa, mas foi deixado. A relação perfeita que imaginara se tornou uma relação real, que ele não soube lidar.

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Sua solidão é expressa em seus momentos íntimos, quando fica jogando vídeo-game em casa, após seu trabalho; quando tenta se satisfazer com um pouco de sexo por telefone ou quando tem um encontro e não consegue nem mesmo garantir que está realmente a fim de alguma relação.

Um solitário com um emprego medíocre. Theodore já “conhece” os casais que ele escreve cartas desde o início da relação. Seu Ph.D. não vale nada, seu talento e sua sensibilidade são gastos em cartas feitas para casais preguiçosos e frios. Em Her não há salvação para qualquer expressão genuína do amor sincero que idealizamos. Talvez este seja o ponto. O amor sincero é baseado em pequenos artifícios não-sinceros (o emprego de Theodore é reprodutor de um desses artifícios), mas quando a coisa se torna sincera, os adultos sem ferramentas de sociabilidade e sem maturidade emocional, se perdem em um poço sem fim.

Samantha

A OS é completamente diferente. Sua vontade de querer e aprender, sua capacidade de crescer e ter experiências novas a fez ser mais que um programa de computador. Abstratamente, claro. Ela amadurece e se torna uma consciência mais ou menos independente e emancipada. Samantha já não é mais de Theodore e vemos seu desespero quando ele percebe que seu celular não localiza Samantha como sistema operacional vigente. Nesta mesma sequência, vemos o coração de Theodore se quebrar quando Samantha revela ser apaixonada por outros 641 homens além dele.

08_Em_viagem_com_Samantha.jpg Em viagem com Samantha.

10_Quando_Theodore_da_um_passeio_pela_praia_com_Samantha.jpg Quando Theodore dá um passeio pela praia com Samantha.

A monogamia não parece ser plausível para uma OS e vemos que não se trata de uma nova maneira de se relacionar, mas de um nova maneira de tentar consertar os erros comuns da forma como nos relacionamos atualmente. Digo isso pois, de certa forma, cada sociedade e cada cultura têm sua própria maneira de se relacionar, têm suas próprias ferramentas de sociabilidade. Mas, é necessário perceber quando se trata de uma maneira de se relacionar e quando se trata de uma maneira de evitar o relacionamento. Quando é uma nova maneira saudável de relacionamento e quando é uma maneira nada salutar.

11_Seu_encontro_as_escuras_foi_um_fracasso.jpg Seu encontro as escuras foi um fracasso.

09_Junto_com_sua_amiga_Amy.jpg Junto com sua amiga Amy.

Os padrões que Theodore impõe à Samantha - padrões humanos – demonstram que não há de fato uma nova maneira de se relacionar, mas uma fuga da realidade. Pode até ser um meio termo, um protótipo de relacionamento do futuro, mas ainda é calcado em pressupostos de relacionamentos humanos, monogâmicos e envolvidos em amor romântico. Nada mais padrão que isso.

O drama da tecnologia

Talvez, então, o filme possa ser um aviso ou uma previsão. Este é o mundo carente, supersensível e nada maduro que viveremos. A possibilidade dada é a da tentativa de suprir toda carência em seres que deveriam não nos julgar e não nos atrapalhar.

Quando estes “sujeitos cibernéticos” se transformam em quase-pessoas, quando podem ferir nossos sentimentos, então não há mais possibilidade de se entregar. A entrega volta a ser algo muito difícil, por ser difícil confiar em alguém em tempos tão fluidos. A facilidade que Theodore tem em se conectar a outras pessoas é aquilo que o faz tão sozinho e carente.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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