Akira Kurosawa – O gênio do cinema oriental

Considerado um dos mais importantes diretores do cinema oriental, o diretor de “Os Sete Samurais” quebrou barreiras geográficas e culturais, inspirando George Lucas em “Star Wars”.


01_Cena_de_Os_7_Samurais.jpg © Cena de "Os 7 Samurais".

O japonês Akira Kurosawa dirigiu mais de 30 filmes em seus 50 anos de carreira. Legítimo descendente de samurais, começou sua carreira como desenhista de storyboards. Nascido em Ohimachi, Tóquio, em 1910, era o mais jovem de oito irmãos. Com 18 anos já dava seus primeiros passos em direção ao mundo artístico. O cinema entrou em sua vida no ano de 1936, quando assumiu o cargo de diretor assistente.

02_Akira_Kurosawa.jpg © Akira Kurosawa.

Foi a partir de 1943 que sua carreira de diretor começou a tomar forma com “A Saga do Judô” (Sugata Sanshiro), que retrata uma série de descobertas: das artes marciais, do judô, da natureza e do amor. Em poucos anos, Kurosawa pôde adquirir status suficiente no meio artístico para garantir livre criação em suas produções. “O Anjo Embriagado” (Yoidore tenshi), de 1948, foi o primeiro filme que produziu sem a interferência de um grande estúdio. Além disso, marca o começo de sua parceria com o ator Toshirô Mifune, com quem faria 16 filmes.

04_Akira_nas_filmagens_de_Sanjuro_1962.jpg © Akira nas filmagens de "Sanjuro".

08_Akira_Kurosawa_e_Toshiro_Mifune.jpg © Akira Kurosawa e Toshiro Mifune.

Dois anos depois, em 1950, Kurosawa dirigiu aquele que seria o filme que o lançou no cenário internacional. “Rashomon” (Rashômon) levou o prêmio máximo no Festival de Veneza e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, sendo o primeiro a alcançar o cinema ocidental. “Rashomon” conta, sob quatro pontos de vistas diferentes, o desenrolar de um assassinato e de um estupro. Até o personagem morto reencarna para revelar sua versão dos fatos.

05_Cena_de_Rashomon.jpg © Cena de "Rashomon".

07_Cena_de_Ceu_e_Inferno.jpg © Cena de "Céu e Inferno".

Assim, Akira começava a ganhar projeção internacional, que seria confirmada em poucos anos com o clássico “Os Sete Samurais” (Shichinin no samurai, 1954). O longa, de mais de três horas, popularizou a figura dos samurais no cinema, contando a história de um grupo contratado para proteger uma vila de ladrões que, todos os anos, roubam sua colheita. A parceria com Toshirô Mifune rendeu uma refilmagem norte-americana: “Sete Homens e um Destino”.

06_Cena_de_Os_7_samurais.jpg © Cena de "Os 7 Samurais".

Nem todo o reconhecimento internacional fez com que Kurosawa ganhasse espaço no cenário artístico de seu próprio país, onde foi considerado um cineasta de segunda categoria. Em um episódio de crise, no qual chegou a tentar suicídio por não ter dinheiro para realizar um de seus filmes, se viu cercado de grandes nomes do cinema dispostos a ajudá-lo: George Lucas, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola.

11_Kurosawa_e_George_Lucas_posam_com_um_Walker.jpg © Kurosawa e George Lucas posam com um 'Walker'.

Três anos depois, o diretor lançou uma adaptação de Macbeth, de William Shakespeare. “Trono Manchado de Sangue” (Kumonosu-jô, 1957) é ambientado no Japão feudal e conta a história de Washizu e Mili, dois samurais que após receberem uma profecia de um futuro ambicioso fazem escolhas que, aos poucos, vão tornando a profecia realidade.

No ano seguinte foi lançado “A Fortaleza Escondida” (Kakushi-toride no san-akunin), que serviu de inspiração para George Lucas produzir “Star Wars”. O filme também se passa no Japão feudal e retrata a trajetória de um poderoso homem que escolta uma princesa fugitiva em território inimigo.

09_Cena_de_A_Fortaleza_Escondida.jpg © Cena de "A Fortaleza Escondida".

Na década de 60, lançou “Yojimbo – O Guarda Costas” (Yôjinbô, 1961) e sua sequência “Sanjuro” (Tsubaki Sanjûrô, 1962). “Yojimbo” inspirou obras como o faroeste “Por um Punhado de Dólares”, estrelado por Clint Eastwood, e “Kill Bill”, de Quentin Tarantino. O filme conta a história de um samurai que procura emprego em uma cidade que se encontra num cenário de guerra entre duas gangues locais. Nos dois longas, o diretor repetiu a parceria com Toshirô Mifune, com quem também trabalharia em “Céu e Inferno” (Tengoku to jigoku), de 1963, e “O Barba Ruiva” (Akahige, 1965), o último em que estariam juntos.

Em 1970, lançou seu primeiro filme a cores, “Dodeskaden – O caminho da vida” (Dodesukaden), onde deu vida a uma precária favela em Tóquio. A produção mistura a tristeza e os sonhos de seus personagens, retratando assuntos como alcoolismo e fome.

Cinco anos depois, Kurosawa voltaria a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com “Dersu Uzala” (Dersu Uzala), vinte e cinco anos depois de receber o primeiro prêmio da Academia. Em 1980, voltou a ser indicado ao Oscar com “Kagemusha – A Sombra do Samurai” (Kagemusha). Mesmo sem ter levado o prêmio, ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Nesta produção, contou com a ajuda internacional de Coppola e Lucas.

10_Kurosawa_e_Coppola.jpg © Kurosawa e Coppola.

Em 1985, o diretor revisitaria o trabalho de Shakespeare. “Ran” (Ran) é uma adaptação de Rei Lear, o qual Kurosawa mais uma vez transporta para o Japão feudal. É considerada uma das produções mais ambiciosas do diretor: um castelo foi construído e destruído durante as filmagens da tragédia. A ousadia lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar, dessa vez como Melhor Diretor.

Com “Sonhos” (Dreams, 1990), Kurosawa partiu para um outro lado e tratou de temas mais pessoais. Novamente apoiado por diretores ocidentais, é um dos mais bonitos e tocantes filmes produzidos por ele e tem a participação de Martin Scorsese como Van Gogh. No ano seguinte, voltaria a tratar do atentado a Hiroshima em “Rapsódia em Agosto” (Hachi-gatsu no kyôshikyoku), com maior carga opinativa desta vez. O longa tem Richard Gere no elenco que interpretam a história de duas gerações que se encontram em forma de arrependimento.

03_Akira_no_set.jpg © Akira no set.

Com 83 anos lançou aquele que seria seu último filme, “Madadayo” (Madadayo, 1993), que conta a história de um professor que se aposenta, mas não é deixado por seus alunos. Vemos que o diretor não estava pronto para encarar a morte e deixar sua grande paixão para trás. Cinco anos depois, em 1998, morria em sua casa por conta de uma hemorragia cerebral.

Akira Kurosawa deixou o roteiro de “Depois da Chuva” (Ame agaru), lançado em 1999 e dirigido por seu assistente de direção Takashi Koizumi; e “Sob o Olhar do Mar” (Umi wa miteita), de 2002. Em 2013 foi lançado o filme para TV “Norainu”, baseado em um roteiro seu.

Se o diretor não teve tanto sucesso em seu país de origem, quebrou barreiras culturais e deixou grandes obras do cinema para as gerações que viriam. Seus filmes ajudaram a popularizar a cultura japonesa e expuseram questões históricas e filosóficas de seu povo.

Termino com uma frase que resume seu trabalho: “Um filme nunca é realmente bom, a não ser que a câmera funcione como um olho na cabeça de um poeta”.


Carolina Carettin

Estudante de Jornalismo. Gosta de todas as artes, porque seria injusto escolher só uma delas.
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