Arcade Fire: Inquietude e evolução

Os canadianos Arcade Fire são uma das referências musicais da última década. Um colectivo tão arreigado como idiossincrático, que conseguiu vincar uma identidade muito própria e poderosa ao longo da sua existência. A sua sonoridade explora uma expansividade suburbana, a explosão que existe em cada sentimento, o universo que pulsa no pequeno mundo de cada indivíduo. E sentimo-nos enormes e arrebatados quando os Arcade Fire dão cor e sentido ao que teima em não o ter.


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Como superar um percurso artístico quando se começa com uma obra-prima? Os Arcade Fire irromperam como um discreto relâmpago em 2003, com um EP homónimo, de som fresco, cheio e prometedor que irrompeu no trovão imenso de Funeral, o melhor álbum de 2004 em qualquer lugar do mundo civilizado. Dez anos passados e ainda é difícil falar deste disco sem uma reverência respeitosa e deslumbrada ao que recuperou e significou. Recuperou uma intensidade emocional e uma qualidade melódica que tendia a dispersar-se da progressivamente elitista música alternativa e significou uma possibilidade de reconciliação entre inteligência e acessibilidade. Este disco veio provar que a música independente não necessita forçosamente de ser cerebral ou hermética para preencher os intelectos mais exigentes, assim como pode agradar às massas sem cair na engrenagem comercialista.

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Da folk ao pós-punk, Funeral explorou uma miríade de influências. Instrumentos de cariz tradicional apoiavam-se na modernidade para criar canções imensas e vivas. O nome dos Talking Heads, outro exemplo de sofisticação pop, foi reavivado, e temas como Neighborhood #2 (Laïka) ou Neighborhood #3 (Power Out) recuperam esse legado na pulsão urgente do ritmo e na neurose latente da entrega. Acordeões e violinos convivem salutarmente com sintetizadores. E uma nova geração dança enquanto pensa.

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Apesar do entusiasmo quase constante e da energia contagiante, a morte é o tema central do disco. Não apenas como fim inexorável da vida, mas como elemento de renovação. A morte do amor, a libertação interior, a esperança como quebra de grilhões. O génio superlativo de canções como Crown of Love, Neighborhood #1 (Tunnels) ou Wake Up reside na forma agridoce como evoca perdas e desencantos para depois dissipar as nuvens negras com uma luz saída das entranhas. E assim Funeral continua a ser um disco redentor, um anti-depressivo natural e viciante, mas sem contra-indicações.

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O som dos Arcade Fire expande-se mais ainda ao segundo álbum, datado de 2007. Gravado numa pequena igreja canadiana, Neon Bible acrescenta ao estilo barroco e saturado do grupo um coro e uma orquestra. Uma obsessão pelos oceanos e uma fixação nos poderes evangelizadores e manipuladores da televisão tornam-se as principais explorações do disco. E é como ondas que a música se manifesta. Vagas escuras, em cadência mas igualmente em dissonância, incontroláveis mas apetecíveis de mergulhar.

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A influência dos Talking Heads continua a pressentir-se na digressão embaladora do tema de abertura, Black Mirror. O tema-título e Intervention exploram os malefícios da religião, televisionada e fonte de lucro e logro. A ânsia e o desejo de escapismo reflectidos em Keep the Car Running e No Cars Go e a o sentimento de alienação de My Body is a Cage são poderosos hinos para uma era turbulenta que começa a despontar. Canções de protesto para a geração hipster, para desalinhados sem voz, dos quais os Arcade Fire parecem tornar-se porta-estandarte.

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O jargão futebolístico postula que em equipa que ganha não se mexe. Esta fórmula poderia ser aplicada aos Arcade Fire no seu terceiro disco. The Suburbs, editado em 2010, continua na senda grandiosa dos seus antecessores, se bem que num regime mais contido. Trata-se uma obra mais madura, menos trovejante mas igualmente acutilante. Os arranjos são menos pirotécnicos mas mantêm a exuberância sedutora. É o disco mais clássico do grupo. Recupera nostalgias de infância dos irmãos fundadores da banda, Win e William Butler, o crescimento nos subúrbios e o seu retrato atirado ao mar numa garrafa para descoberta no futuro ou em terra estranha.

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Posteriormente ao álbum foi editado Scenes from the Suburbs, um pequeno filme realizado por Spike Jonze que forma um excelente e original complemento visual para as vinhetas de descoberta e crescimento exploradas musicalmente. E a música continua a produzir hinos indie em catadupa, tais como Ready to Start, City With No Children e We Used To Wait. Os Arcade Fire brilham mais intensamente que nunca, tornam-se a banda alternativa mais consensual e queridas das massas e tudo parece estar em ordem no firmamento dos canadianos. Ou não.

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Após meses de contra-informação e propagandas oblíquas, Reflektor caiu como uma bomba no ano musical de 2013. O álbum marca uma inesperada viragem na estética artística do grupo. Pela primeira vez os Arcade Fire radicalizam o seu som, fascinando uns e ostracizando outros. Viagens caribenhas, nomeadamente pelo Haiti e Jamaica despertam uma forma nova, diferente e expansiva de criar música. Violinos, sopros e outros instrumentos acústicos perdem a preponderância para a electrónica, os ritmos abrasivos e um experimentalismo tão arrojado como desafiante. A co-produzir o álbum está James Murphy, o mentor de outro dos projectos mais fascinantes e marcantes do novo milénio, os LCD Soundsystem. Uma colisão de cérebros que nunca permite que a beleza do caos seja dominada pela tirania da ordem. Realce igualmente para a inspiração que o filme Orfeu Negro causou na temática do álbum. A história de um trágico triângulo amoroso vivido num Carnaval do Brasil, que chegou a ser utilizado com suporte visual na sua divulgação.

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Ao longo de dois discos e 13 temas, Reflektor é um mausoléu sonoro feito para perdurar e não para ser devorado à primeira. Nunca os Arcade Fire foram tão imprevisíveis ou exigiram tanto aos seus ouvintes. A alienação é-lhes indiferente e, nesse aspecto, o álbum consegue ser um objecto contra-cultural e provocador ao deitar por terra tantos dogmas e por oferecer o inesperado a quem esperava mais do mesmo. A presença de David Bowie (entusiasta do grupo desde os seus primórdios) no tema-título acaba por ser um manifesto da transmutação camaleónica em processo. We Exist move-se em territórios disco, mas com a intensidade clássica do grupo e Normal Person arrisca um funk reptiliano coroado por uma guitarra feérica. A segunda parte da obra é ainda mais arrojada e surpreendente, percorrendo ritmos expansivos, dubs espaciais e electrónica ambiental, que culminam na espiral envolvente e analgésica de Supersymmetry. Para trás ficou o agridoce Afterlife, o melhor tema de Reflektor. Os Arcade Fire provaram que não têm medo de arriscar, de seguir o coração em detrimento do cérebro, de confundir e não apenas agradar. Conseguiram fugir aos malefícios e redundâncias das zonas de conforto e deixaram em aberto o que o futuro lhes poderá reservar. Esse futuro apresenta-se vasto, como um horizonte de possibilidades. Esperemos que o tornem ainda mais risonho.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.
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