O Labirinto do Fauno: entre a fantasia e a frieza

A imaginação de uma menina se une à realidade fria após a guerra civil espanhola em O Labirinto do Fauno. Aqui, a realidade se distorce ao ponto de fazer da guerra um cenário secundário para a coroação de uma princesa.


01_Ofelia_e_Fauno.jpg Ofélia e o Fauno.

Até que momento a fantasia e a realidade se unem? Esta pergunta pode ser o mote para olhar O Labirinto do Fauno. Guillermo del Toro deu vida à Ofélia, uma princesa do submundo, local onde o seres fantásticos habitam e a magia é parte cotidiana de suas vidas. Entretanto, Ofélia também é a filha de Carmen, atual esposa de um capitão do exército fascista de Franco. Vidal, o capitão, é a personificação do fascista: disciplinado, tradicional e violento. Sua luta é a luta por um país “limpo”, desinfectando toda a sujeira anarquista e comunista.

02_Labirinto_do_Fauno_poster.jpg Cartaz do filme "Labirinto do Fauno".

Após chegarem ao acampamento onde uma parte do exército tenta acabar com o que restava das milícias anarquistas espanholas, Ofélia se encontra com o fauno - criatura fabulosa que tem como missão ajudá-la a encontrar seu caminho para junto de seu verdadeiro pai, o rei do submundo.

Ofélia precisa passar por três provações que envolvem aventuras num mundo inimaginável e perigoso, em meio aos conflitos do fim da guerra civil da Espanha.

03_Labirinto_do_Fauno_poster.jpg Entrada para o labirinto.

Contexto histórico

A Espanha passou por uma intensa guerra entre 1936 e 1939 - em que uma frente popular de anarquistas e partidos comunistas lutaram contra militares franquistas (fascistas, nacionalistas e diversos setores conservadores como a igreja e o exército), em um conflito claramente marcado por questões de classe. O movimento operário crescia gradativamente com a dominação anarquista na política de toda a Catalunha, região industrial do país e retratada no filme, apesar de somente as áreas ainda não urbanizadas sejam a paisagem exibida no longa. A guerra começou após um golpe de Estado do General Francisco Franco, que dividiu o país entre um lado conservador e um progressista - tomado por forças da esquerda nacional.

O filme retrata exatamente o período pós-guerra, em que as últimas forças anarquistas tentam manter-se de pé contra o disciplinado exército fascista de Franco. Já o exército, como o próprio capitão demonstra, tem como objetivo retirar todo o resquício da esquerda de dentro do país, que teve progressos em seus locais de domínio, coletivizando diversas fábricas e latifúndios - dando controle da produção e dos meios de comunicação para os operários sob a administração dos sindicatos.

04_Capitao_Vidal.jpg Capitão Vidal inspeccionando os estragos provocados pelas forças anarquistas.

O submundo fantástico

“Conta-se que há muito tempo no reino subterrâneo, onde não existe mentira ou dor, vivia uma princesa que sonhava com o mundo dos humanos. Ela sonhava com o céu azul, a brisa suave e o sol brilhante, um dia, burlando toda a vigilância, a princesa escapa. Uma vez do lado de fora, a luz do sol a cegou e apagou da sua memória qualquer indicio do passado. Ela se esqueceu quem era e de onde vinha, seu corpo sofreu com o frio, a doença e a dor. E, passando alguns anos, ela morreu. No entanto, seu pai, o rei, sabia que a alma da princesa Moanna retornaria, talvez num outro corpo, num outro tempo e lugar. Ele a esperaria até seu último alento, até que o mundo parasse de girar”.

06_A_princesa_Ofelia.jpg A Princesa Ofélia.

As três tarefas que Ofélia precisa completar para volta ao seu mundo são guiadas por um Fauno sinistro, malicioso, autoritário e assustador. Ele é a exatamente alguém em que não se deve confiar, ao mesmo tempo, sua proposta é tão mágica e ele próprio é tão surpreendente, que não é possível duvidar da veracidade de sua história. Não que Ofélia precisasse disso. A prisão dentro de uma mundo de guerra, em um acampamento militar fascista, já é motivo suficiente para se agarrar em qualquer possibilidade de fuga.

Se o filme não permite diferenciar o mundo real do sonho, pois não é possível afirmar se a magia é só imaginação de Ofélia ou se realmente faz parte do universo particular do filme, então deve-se lidar com essas duas metades como pressupostos válidos. Não importa o que é verdade e o que não é (e aqui é importante lembrar que a mãe de Ofélia melhorou após sua “simpatia” com a raiz mágica), mas importa como tudo isso afetou a história.

O submundo é o lugar para onde Ofélia sabe que estará longe da guerra, é o lugar em que seu poder será exercido com justiça. Se trata de uma garota de 10 anos que lê livros sobre contos de fadas e que, portanto, tem nestes contos toda a fundamentação para sua vida. Se Ofélia não é uma anarquista - se é somente alguém que foge - ela ainda é uma resistência à tirania fascista. É o calor em meio à frieza. A entrada para outro mundo não é somente uma fuga, mas é uma construção intencional, ela desautoriza a crueldade do mundo de Vidal, do mundo sangrento e tradicional. Vale lembrar a cena em que Vidal descobre a menina embaixo da cama de sua mãe, após ter colocado as raízes mágicas que – coincidentemente ou não – melhoraram sua saúde. Para o capitão, a menina estava caçoando pelas suas costas, entrando e saindo do acampamento na hora que queria, e precisava de disciplina para se conter.

07_Ofelia_e_uma_das_figuras_miticas.jpg Ofélia com uma das figuras míticas, num dos seus trabalhos.

08_Ofelia_e_uma_das_figuras_miticas.jpg O despertar do "canibal humano".

A cruel realidade

Se a fuga de Ofélia é tão mágica quanto a crueldade de Vidal, já se percebe que este homem não é flor que se cheire. Ele mata pessoas por motivos banais, muitas vezes pelos simples prazer de matar. Um capitão temido e “nascido para a guerra”. Seu pai morreu no norte da África e foi importante dentro do exército espanhol.

Como já dito, Vidal é a personificação do mal, é o fascista ideal, disciplinado e obediente, tradicional e frio. É o torturador mestre que desfigura o prisioneiro da guerrilha anarquista, é o machista orgulhoso que não desconfia de uma criada espiã unicamente por ser mulher. Sua obsessão por um filho deixa claro a forma patriarcal do exército e da família. O que ele quer é um varão, um filho homem, para dar o nome de seu pai.

Vidal não precisa de provas para saber que sua esposa está grávida de um menino. Ele já sabe. E sabe porque esta é a única opção válida. Sua esposa está numa gravidez de risco, mas mesmo assim ele exige que seu menino nasça ao seu lado e a obriga a realizar uma viagem perigosa até ao acampamento militar – quando ela está em situação delicada, Vidal não hesita em pedir ao médico que salve a criança, caso tenha que escolher entre os dois.

05_Capitao_Vidal_apos_ser_ferido.jpg Capitão Vidal após ter sido ferido.

A ruptura Se fugir daquele mundo é combatê-lo dentro das possibilidades permitidas por sua experiência, então a morte de Ofélia foi uma ruptura radical entre a fantasia e a realidade. Foi a reafirmação da realidade sobre a fantasia, o poder e a supremacia da força bruta sobre a a tentativa de fuga e de combate dos excluídos. Foi a demonstração da cor cinza do mundo.

É por isso que escolher evitar que seu irmão fosse ferido – o que mais tarde se revelou como a conclusão da terceira provação – é uma passo importante para a reafirmação da realidade. Ela não quer que o irmão sangre porque ela sabe o sofrimento real que isso significaria e não há magia que a faça mudar de ideia. Da mesma forma, evitar o sangramento de seu irmão foi decisivo para permitir que Vidal a matasse e rompesse de vez o mutualismo entre fantasia e realidade.

Já a vingança de sua morte corrobora com essa supremacia da crueldade. A morte de Vidal pela milícia anarquista não significa dizer que ainda há esperança, mas afirma que a esperança não importa, o que importa é a ação real. É como um recado: se quiser que o mundo deixe de ser cinza, lute.

E essa luta não é “no mundo das ideias”. É uma luta violenta. Matar Vidal não anula a frieza da realidade, mas sim a reafirma. É uma influência ética intensa, é aquilo que nos faz enxergar nossa responsabilidade com o mundo real – e não com um mundo de fantasia. O tema da violência, que atravessava o filme como um instrumento fascista, como algo ruim, passa agora a ser um instrumento utilizável estrategicamente. A violência é prescrita como condição de modificar o mundo. Matar Vidal é cortar a cabeça do rei.

Então por que existe uma certa aversão pela violência? Dentre todas as características desta aversão, uma delas é importante: anular a legitimidade ética da violência é anular a possibilidade de uma revolta eficiente. A violência precisa ser anulada e monopolizada ao mesmo tempo. Ela é aquilo que, voltando ao filme, os fascistas precisam deter e precisam evitar. A violência é sempre uma maneira de quebrar padrões ou de mantê-los, mas nunca é em si algo ruim, caracterizá-la como ruim “por natureza” é manter o mundo da maneira como ele existe, é corroborar por uma eterna reprodução da desigualdades. O que o fim d'O Labirinto do Fauno revela é que a violência é um instrumento utilizável por qualquer um.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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