Astrud Gilberto: a rainha da Bossa

Ela é uma das cantoras brasileiras de maior sucesso e fama no exterior, e, curiosamente, quase anônima em seu país. Sua carreira começou nos Estados Unidos há 50 anos, e por lá ela ainda é a rainha da Bossa Nova. Conheça agora - ou relembre - a trajetória de Astrud Gilberto.


01_Astrud_Gilberto_1966.jpg © Astrud Gilberto, (Wikicommons, Ron Kroon/Anefo), 1966.

Bahiana de Salvador, Astrud Evangelina Weinart nasceu em 29 de março de 1940; o nome incomum já denuncia, é filha de mãe brasileira e pai alemão, os quais se mudaram com a família para o Rio de Janeiro quando ela era ainda criança, em 1948.

Nos fim dos anos 50, auge dos Anos Dourados, a jovem Astrud integrava uma espécie de 'clã' formado por jovens músicos e compositores como Oscar Castro Neves, Carlos Lyra e Roberto Menescal. A turma frequentava boates no bairro de Copacabana, local onde então fomentava-se um novo ritmo musical que ia atravessar as fronteiras do Brasil e conquistar o mundo - um gênero que teria Astrud como uma de suas maiores representantes. Tratava-se da Bossa Nova. Nessa época, foi apresentada a João Gilberto por sua melhor amiga - a também futura cantora Nara Leão. Astrud e João se casaram pouco tempo depois, em 1959. Ele, por sua vez, já era um dos expoentes do movimento, que praticamente veio ao mundo junto com o lançamento do seu primeiro disco, em 1958, o histórico Chega de Saudade.

Em 1963, o casal viajou para Nova York, onde João gravaria em março daquele ano o lendário álbum Getz/Gilberto, com Stan Getz e Antonio Carlos Jobim. Apesar de nunca antes ter cantado profissionalmente, Astrud tinha se apresentado uma única vez ao vivo, ao lado de João, no histórico show de Bossa Nova na Faculdade de Arquitetura do Rio de Janeiro, em 1960. Além disso, Astrud já acumulava experiência ao lado dos amigos cantores, músicos e compositores, e dos ensinamentos do próprio João, que a convidou por ter uma voz bela, afinada e, também, por saber inglês. Ela emprestou seus vocais em apenas duas faixas do disco: "The Girl From Ipanema" e "Corcovado", que foram suficientes para estabelecê-la como uma cantora de Bossa. Quando o disco foi lançado, exatamente um ano depois, pela Verve Records, tornou-se um sucesso instantâneo, o qual abriu as portas do mercado norte-americano para o gênero musical. Em pouco tempo, Astrud apareceria cantando "The Girl From Ipanema" no filme Turma Bossa Nova (Get Yourself a College Girl) lançado em dezembro de 1964. Getz/Gilberto foi vencedor de três prêmios Grammy - Best Album of the Year, Best Jazz Instrumental Album - Individual or Group e Best Engineered Album, Non-Classical. "The Girl From Ipanema" também foi vencedora na categoria Best Record of the Year, desbancando rivais de peso como os Beatles, Barbra Streissand, Louis Armstrong e Petula Clark.

Astrud e João se separaram ao final de 1964, enquanto ele voltou para o Brasil, ela fixou residência nos Estados Unidos. Ainda em 1964, Astrud saiu em turnê com Stan Getz e seu novo quarteto, o material dos shows, gravado ao vivo, seria reunido e lançado em 1965 no álbum Getz Au Go Go, pelo selo Verve; o nome denunciava, parte das músicas haviam sido registradas no antológico Café Au Go Go, no Greenwich Village, em Nova York, em 22 de maio de 1964; o restante fora gravado no Carnegie Hall, em 9 de outubro.

A Bossa ainda frágil de Astrud foi posta à prova em seu primeiro trabalho solo - The Astrud Gilberto Album, lançado em maio de 1965, também pela Verve, um sucesso. Com arranjos de Marty Paich e Antonio Carlos Jobim, e participações de dois "Joões" - o Gilberto e o Donato - o disco contava com um repertório essencialmente brasileiro, de Bossa Nova. A voz de Astrud - longe do sax tenor Stan Getz - revelava-se ainda mais meiga e suave, brilhando desde a ginga de "Água de Beber" (onde dividiu vocais com Jobim) e "O Morro (Não Tem Vez)" até o sentimentalismo de "Once I Loved" e "Dindi". O resultado foi simplesmente esplêndido, e mostrou que Astrud tinha talento e habilidade suficientes para sustentar uma carreira solo; o que, francamente, já estava provado por A + B.

02_The_Astrud_Gilberto_album_1965.jpg Álbum "Astrud Gilberto", 1965.

03_Astrud_Gilberto_The_shadow_of_your_smile_1965.jpg Álbum "Astrud Gilberto - The Shadow of Your Smile", 1965.

O sucesso meteórico de Astrud provou-se sólido e crescente com o lançamento de sete discos em cinco anos, uma média de quase 1,5 por ano. Nada mal para uma jovem desconhecida e tímida, que nunca gravara nada antes de "The Girl From Ipanema". Bastou-lhe duas canções num disco glorioso para lhe lançar aos holofotes do gigantesco mercado fonográfico dos EUA. E, rapidamente, Astrud foi convidada aos mais populares programas da televisão americana, e participou de muitos outros na Europa, Japão e África. Ela só trabalhava com os melhores - Getz, Jobim, Donato, Eumir Deodato, Don Sebesky, Gil Evans, Walter Wanderley, Pat Williams, Toots Thielemans, Burt Bacharach, entre vários músicos e compositores de renome. Com o álbum The Shadow of Your Smile (1965), Astrud expandiu seu repertório para além das bossas de Jobim, João Gilberto & cia, passando a incluir hits recentes e clássicos da música popular norte-americana, como a própria faixa-título do álbum, tema do filme Adeus às Ilusões (The Sandpiper, 1965) - ganhadora do Oscar de Melhor Canção Original; algumas dessas canções, deliciosamente vertidas para o embalo da bossa nova, como "Fly Me To The Moon", "Day by Day", "Who Can I Turn To?", "Look To The Rainbow", "My Foolish Heart", "Misty Roses" e "Here's That Rainy Day" eram releituras adoráveis. Em 1968, a cantora gravou um disco inteiramente em italiano - a bossa nova então fazia grande sucesso por lá -, que seria lançado apenas na Itália e no Japão. Como se vê, Astrud era, de repente, uma espécie de estandarte da nova e sofisticada música brasileira, que tinha sensualidade e molejo, mas também sensibilidade. Naquela época, todo o mundo passou a cantar Bossa Nova, de Frank Sinatra à Brigitte Bardot.

04_Astrud_Gilberto_Look_To_The_Rainbow_1965.jpg Álbum "Astrud Gilberto - Look To The Rainbow", 1965.

Em 1966, no auge da febre de Bossa Nova nos Estados Unidos, Astrud gravou o álbum A Certain Smile, A Certain Sadness, com o organista Walter Wanderley, que também era outra estrela da Bossa Nova na época. Neste trabalho, a cantora incluiu músicas distintas tanto como samba do carnaval de 1966 "Tristeza" (numa versão em inglês de Norman Gimbel que se chamou "Goodbye Sadness") quanto sucessos antigos como "Nega do Cabelo Duro" de David Nasser, e "Você Já Foi à Bahia?" de Dorival Caymmi. Havia também um dos grandes hits de sua carreira - "So Nice (Summer Samba)", outra versão de Norman Guimbel em língua inglesa para o maior sucesso dos irmãos Valle, o "Samba de Verão" e o bolero "Tu Mi Delirio" do cubano César Portillo de la Luz. Com o álbum seguinte - Beach Samba (1967) - que seria incluído em 2005 no livro dos 1001 Álbuns Para Ouvir Antes de Morrer -, Astrud também mostrou que estava atenta à música que se fazia no Brasil naquele momento, gravando sucessos recentes como "A Banda (Parade)" de Chico Buarque, e "Dia das Rosas (I Think of You)" de Luiz Bonfá. Além de um cover ultra fofo dos The Lovin' Spoonful - o hit de 1965 "You Didn't Have to Be So Nice", que ela gravou em dueto com seu filho de seis anos Marcelo Gilberto.

05_A_certain_smile_a_certain_sadness_1966.jpg Álbum "Astrud Gilberto - A Cartain Smile, A Certain Sadness", 1966.

O álbum Windy (1968) marcou, definitivamente, uma divisão entre sua fase Bossa Nova, e outra, mais orientada pelo pop norte-americano, influenciada pelos conjuntos musicais 'ensolarados' da época. Havia boas versões, desde a faixa-título, e "Never My Love", dois grandes sucessos dos The Association ("Windy" os fez atingir o topo da Billboard Hot 100 em 1967); até o belo cover de "In My Life" dos Beatles. Desde então, Astrud amadureceu como cantora, se revelou uma intérprete segura e versátil, interpretando de The Doors ao Bee Gees, compositores brasileiros como Edu Lobo, Milton Nascimento, Jorge Ben Jor, Ivan Lins e Luiz Gonzaga, e gravando discos com colaborações de luxo como as do saxofonista Stanley Turrentine (Gilberto with Turrentine, 1971), a orquestra de James Last (Astrud Gilberto Plus James Last Orchestra, 1987) e o trombonista japonês Shigeharu Mukai (Mukai Meets Gilberto, 1990). Nos anos 70, ela se revelou compositora e passou a gravar suas próprias canções, se definindo como "uma cantora que também escreve canções".

06_Beach_samba_1967.jpg Álbum "Astrud Gilberto - Beach Samba", 1967.

07_Windy_1968.jpg Álbum "Astrud Gilberto - Windy", 1968.

08_I_haven_t_got_anything_better_to_do_1970.jpg Álbum "Astrud Gilberto - I Haven't Got anything better to do", 1970.

Embora mundialmente famosa, Astrud cantou no Brasil apenas uma vez, em São Paulo, em 1965; em entrevista disponível em seu site oficial, ela desmente o rumor, tido como verdade, de que teria sido vaiada nessa única apresentação. E também afirma que a imprensa brasileira lhe era extremamente maldosa e antipática, algo, convenhamos, recorrente com os brasileiros bem-sucedidos no exterior (até a própria bossa nova foi massacrada por aqui durante muito tempo). No final, Astrud admite que depois de voltar do Brasil àquela vez, prometeu jamais cantar profissionalmente de novo no país. Somado a isso, a maioria dos seus discos - salvo raras exceções - nunca foram lançados aqui, o pode explicar a pouca familiarização do público brasileiro com ela.

No começo dos anos 80, Astrud formou um sexteto, de piano, baixo, bateria, trombone, violão e percussão, ao qual seu filho Marcelo Gilberto se integrou como baixista. Com este grupo, a cantora excursionou pela América do Norte, Europa e Japão, esgotando entradas e batendo recordes de público - o que deu um novo gás à sua carreira; desde então Astrud parece privilegiar mais as turnês ao disco. Por essa época ela frequentou a famosa Stella Adler School of Acting, na busca de superar o seu medo de palco - que ela sofria desde o início da carreira -, a experiência foi benéfica, e ajudou Astrud a conviver mais pacificamente com o problema.

Seu último álbum de material inédito é Jungle, lançado em 2002 pela Magya Productions, sua última aparição pública foi em 2001 - quando ela anunciou que estava se retirando indefinidamente da vida artística, embora não tenha encerrado a carreira oficialmente. Astrud é uma artista que não costuma conceder entrevistas (ela chegou a ficar 20 anos sem conceder uma única), e prefere proteger sua vida privada do assédio da mídia e da imprensa - a qual se mantém distante. Ela tem dois filhos, Marcelo Gilberto e Gregory Lasorsa (ao contrário do que muitos pensam, Astrud não é mãe da cantora Bebel Gilberto, filha de João com a também cantora Miúcha), também é artista plástica e árdua defensora dos direitos animais. Além de ser a própria imagem da bossa nova nos países estrangeiros, Astrud também é um dos pilares do jazz internacional, tendo sido introduzida em 2008 ao International Latin Music Hall of Fame, e premiada em 2008 com o Grammy Lifetime Achievement Award.


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