Machine Head: um quilo de hard rock para seus ouvidos

Machine Head é um dos marcos do hard rock. Álbum obrigatório para qualquer um que deseja conhecer as profundezas do rock e um pouco das origens de todo o peso que o heavy metal popularizou.


01_Ian_Gillan.jpg Ian Gillan.

Deep Purple é descrita como uma das bandas precursoras do heavy metal e como uma das bandas definitivas do hard rock, juntamente com Led Zeppellin e Black Sabbath. A banda nasceu em 1968, na Inglaterra, e não demorou muito para encontrar sua maneira de fazer rock, foi então que em 1972, Machine Head estourou nas listas de álbuns mais vendidos na Inglaterra e nos Estados Unidos.

02_Da_esquerda_para_direita_Ritchie_Blackmore_Ian_Gillan_Roger_Glover_Jon_Lord_e_Ian_Paice.jpg Da esquerda para a direita Ritchie Blackmore, Ian Gillan, Roger Clover, Jon Lord e Ian Paice.

A gravação do álbum tem uma história interessante, contada até mesmo pelas músicas: a banda tinha pouco tempo para utilizar o Rolling Stones Mobile One, estúdio móvel dos Rolling Stones - primeiramente alugado para gravar um show. Tudo foi gravado em um hotel, que era vizinho do cassino onde Frank Zappa, com a sua banda The Mothers of Invention, estava tocando dias antes.

03_machine_head_deep_purple.jpg Deep Purple, "Machine Head".

Nesta ocasião, no meio do público, um homem levantou uma pistola sinaleiro e começou a atirar para todos os lados. O teto de gesso do local acabou segurando um dos artefatos disparados e não demorou muito para o lugar inteiro pegar fogo. Todos saíram correndo do cassino, e Zappa perdeu todos os seus equipamentos.

Este mesmo cassino era o lugar onde o Deep Purple realizaria um show, que foi cancelado por motivos óbvios e abriu espaço na agenda da banda para a gravação do disco. O estúdio do Rolling Stones, alugado somente para as gravações do show ao vivo, se tornou o berço do Machine Head.

Paulada do início ao fim

O álbum começa com Highway Star, uma música violenta e ácida, escrita na traseira de uma van na turnê do disco Fireball. A banda precisava de uma nova abertura para seus shows: deu que o som hipnótico da nota "sol" batida insistentemente numa introdução empoderadora fez desta música uma obra prima!

A letra é muito simples e bem objetiva: sobre algumas paixões de um cidadão "comum". Uma descrição ao estilo mais machão que se pode ter - para um carro, uma mulher e as próprias loucuras da cabeça. Os solos de Ritchie Blackmore, com uma guitarra claramente influenciada por Bach, e Jon Lord, e com teclados seguindo a mesma linha clássica, dão um gosto especial para esta tijolada.

04_Deep_Purple_Ian_Gillan_1970.jpg Ian Gillan.

Uma das deficiências da banda pode ser notada em Maybe I'm Leo: as letras não são o forte do Deep Purple, mas o conjunto de riffs e solos emplacam qualquer ouvinte. Não se deve ver isso como um ponto negativo, mas como um ênfase menor do grupo. Não há pontos positivos e negativos, a obra precisa ser analisada como um todo e a combinação de simplicidade e fritação, de agressividade e melodia, faz do Deep Purple uma joia rara em meio a tantas bandas iguais.

Pictures of Home e Never Before seguem a linha de riffs simples e utilização extrema dos vocais privilegiados de Ian Gillan. Uma fórmula muito explorada e realmente eficiente. A guitarra de Blackmore aparenta uma história contada em cima da traseira de uma pick up - é rápida, cremosa, pesada e dá pra sentir o vento bater nos cabelos.

Já Smoke On The Water contém a mãe de todos os riffs. É o hino do rock e a música que todo guitarrista aprende, mesmo que por osmose. A letra da música retrata toda a confusão em torno do incêndio do cassino onde Zappa fazia seu show.

Não há palavras suficientes para descrever esta música. Particularmente, enquanto um apreciador de música, eu ainda prefiro Highway Star, mas é só aqui que o texto fica em primeira pessoa - preciso ser honesto por alguns momentos. A força de Smoke On The Water está em sua simplicidade e linearidade, ausente em Highway Star, que contém algumas variações bem imprevisíveis (algo como um leve sopro progressivo no hard rock da banda).

05_Ritchie_Blackmore_deep_purple.jpg Ritchie Blackmore.

A música vai, vai, vai, entra o refrão, ela volta, entra outro refrão, cai num solo, se repete e termina com uma pequena improvisação de guitarra e teclados. Não há nada demais nesta estrutura, mas o conteúdo que está construído sobre ela é formidável!

Uma outra linda peça instrumental é Lazy. A música não é meramente instrumental, Ian Gillan tem um grande papel com uma letra simples que provavelmente retrata sua trajetória dentro do avião, rumo à Suiça, onde as gravações aconteceram. Seguindo a mesma combinação de solos de teclados e guitarra, esta é uma uma grande oportunidade para viajar intensamente nas possibilidades que uma escala de blues bem tocada pode oferecer.

06_deep_purple.jpg

Para terminar a parte oficial do disco, Space Truckin também presenteia o ouvinte com um riff impressionante de guitarra (talvez por isso Machine Head seja um marco no início dos anos 70 e um álbum obrigatório para quem deseja conhecer os fundamentos do hard rock e de heavy metal).

Entretanto, apesar de ser uma poderosa canção, não é páreo para When a Blind Men Cries, um lindo e delicado blues que trata do sofrimento de um homem cego. Talvez, o símbolo máximo da tristeza, o choro de alguém que não pode ver, que não tem com quem contar e não consegue enxergar a beleza do mundo – um solitário num mundo escuro.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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