William Bevan - Burial: Poesia urbana e noturna

Burial é o nome artístico do misterioso e reclusivo William Bevan, músico britânico que, discreta mas assertivamente, tem mudado a face das sonoridades urbanas da última década. Inspirado pelas estéticas do dubstep, do UK garage e da música ambiente, mas dotado de uma personalidade bem vincada e distinta, o projecto Burial é um dos mais inovadores, futuristas e inspiradores da actualidade. Um oceano sonoro que se entranha e hipnotiza, transformando em poesia as mais inóspitas e frias paisagens citadinas.


01_burial.jpg © BURIAL.

O nome Burial parece anunciar uma música feita de sombras e tonalidades funéreas. Apesar de o som não sepultar o ouvinte, coloca-o no cinzento pós-industrial e no vazio existencial dos subúrbios das grandes metrópoles. Não enterrado debaixo do alcatrão, mas cercado e oprimido por muros de betão, quarteirões indistintos e estradas que se estendem até voltarem ao ponto de partida. Música que soa a gritos na noite, distantes mas que o silêncio tardio torna próximos. William Bevan, o mentor do projecto, é oriundo do sul de Londres, zona mais despojada e despeitada que a sua opulenta irmã situada a norte. Um ghetto do primeiro mundo, pulsante e crescente, onde as expressões underground proliferam. Burial imiscui-se na cultura urbana moderna em todas as suas manifestações, da alienação à miscigenação, da ilusória proximidade entre os seus habitantes à solidão imperceptível nos rostos que a percorrem anonimamente.

02_burial_hdb_cd_012006.jpg © BURIAL, "HDBCD001".

A história discográfica de Burial inicia-se em 2005, com a edição do EP South London Boroughs, um conjunto de 4 fortíssimas peças, tão pungentes como vaporosas. e que indiciam o carácter distinto e único da música que se seguirá. O primeiro álbum surge no ano seguinte, um movimento discreto mas que projectará a sua sombra ubiquamente. A deslumbrante mistura de melancolia e neurose torna-o um objecto perfeito para o presente. A música é escapista, convida a desbravações nocturnas e solitárias pela cidade adormecida, pelo negativo da sua realidade, mas é igualmente introspectiva, com atmosferas densas a susterem os ritmos angulares. O amor parece manifestar-se somente em carícias distantes e o desalento luta com a esperança. A riqueza de samples e o bom gosto nas escolhas é notório. Temas abismais e penetrantes como Distant Lights, U Hurt Me ou o emocionalmente espectral Forgive revêem e actualizam noutra linguagem a alienação claustrofóbica e agorafóbica de grupos como os Joy Division e os Radiohead.

03_burial__untrue.jpg © BURIAL, "Untrue".

Untrue surge em 2007 e a angústia do difícil segundo álbum não se sente de maneira alguma. Pelo contrário, a estética de Burial parece adensar-se e consolidar-se mais ainda neste segundo capítulo. Trata-se de outra obra-prima do corte e costura e das manipulações sonoras, assim como das ambiências nocturnas entre a serenidade e a inquietude. Imaginativo e experimental sem deixar de ser emotivo, Untrue ergueu a fasquia para todos os praticantes de música electrónica do novo milénio. A sua escuridão ilumina-nos, a sua hipnose anima-nos. Archangel, Ghost Hardware, Raver e o tema-título são arquétipos de canções para a pós-modernidade: futuristas mas familiares, desprendidas mas poéticas. O disco é louvado um pouco por toda a parte e, pela primeira vez, William Bevan revela a sua verdadeira identidade.

04_burial_kindred_new_ep_listen_dubstep.jpg © BURIAL, Kindred new EP, Dubstep.

Mais nenhum disco de longa duração foi editado a partir daqui. As aparições de Burial têm sido intermitentes mas sempre surpreendentes e impregnadas de génio. Destaque óbvio para as colaborações pontuais com Four Tet, Thom Yorke e Massive Attack, diversos fractais da mesma fórmula sedutora. Mas continua a ser no isolamento do seu retiro que William Bevan prossegue o seu percurso encantatório. A expandir e a reinventar a música electrónica para além das suas fronteiras e sem horizontes de linha perceptível. Street Halo, Kindred ou Truant continuam a invocar o romantismo, a desolação e as entranhas das noites urbanas e daqueles que as habitam. Noites que podem ser de Londres, de Lisboa ou de São Paulo, pois a essência dos retratos é universal. Eis um vídeo, amador e não-oficial, que capta na perfeição o simbolismo e as deambulações urbanas latentes na música de Burial:

O trabalho mais recente do projecto, Rival Dealer, é mais um pilar na torre altaneira que está a ser construída. Podemos afirmar com muita certeza que nada mais soa assim na música actual e que William Bevan se move no seu próprio mundo. Um mundo hermético, tão inóspito como acolhedor, em que a melancolia conforta e a poesia brota como flores da pedra fria. Come Down to Us é o último desabrochar nocturno de Burial e é fascinante saber que o belo e o génio continuam de mãos dadas, simbióticos e absolutos.

05_burial_william_bevan.jpg © BURIAL, William Bevan.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.
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version 1/s/musica// @obvious, @obvioushp //José Luis Marques