You Can`t Win, Charlie Brown: artífices da nova música portuguesa

Os You Can't Win, Charlie Brown são uma das bandas mais entusiasmantes e prometedoras a despontar do universo musical português recente. Surgidos em 2009, respiram ecletismo e transpiram uma miríade de influências que se reflecte em sonoridades caleidoscópicas e multicolores, mas sempre originais e personalizadas.


01_7111ajigsaw1.jpg © You Can't Win, Charlie Brown.

Os You Can't Win, Charlie Brown foram crescendo em número ao longo do tempo até se tornarem o sexteto que actualmente se encontra cimentado e que divide os instrumentos e as tarefas composicionais. Tal como o crescimento de elementos, assim a sonoridade não se estancou, evoluindo e ramificando-se a cada criação. Questionado sobre o facto de uma banda com seis membros ser complicada de gerir em termos de influências e gostos pessoais, Afonso Cabral responde que "os egos têm estado bem controlados, pelo menos até agora. Felizmente, acho que todos percebemos que fazemos parte de um grupo e que é preciso dar espaço aos outros, mesmo que isso signifique que de vez em quando tenhamos que ceder um bocado numa ou noutra ideia. Existem, de facto, muitos gostos musicais diferentes dentro da banda mas com o tempo acho que fomos percebendo como usar isso a nosso favor em vez de deixar que se torne num obstáculo. Se calhar até levámos algum tempo a perceber como fazer isso (e talvez ainda não tenhamos percebido completamente) mas até agora temos conseguido gerir isso bem."

02_you_cant_win_charlie_brown_artworks.jpg © You Can't Win, Charlie Brown.

Recuando até 2010, ano de edição do EP de estreia homónimo e altura em que os You Can't Win, Charlie Brown eram ainda um quarteto, deparamo-nos com uma obra quase artesanal, mas plena de profundidade criativa. Um disco de gravações caseiras, porém projectado para panoramas mais expansivos. A riqueza instrumental é notória, assim como o requinte nas influências, impregnadas de folk desviante e de um psicadelismo de charme discreto. A melancolia outonal dos Bon Iver, a pop sem âncora dos Animal Collective ou as harmonias vocais de fim de Verão dos Beach Boys ecoam em temas superlativos como Sad Song, Sort Of ou Melodica. Este contraste entre luz e sombras ecoará ao longo da produção musical do grupo mas, de acordo com Afonso Cabral, "não existe uma procura explícita dessas vertentes. Temos todos sempre razões para não estar satisfeitos mas tentamos sempre que o optimismo leve a melhor, talvez seja por isso que os dois lados acabem representados na nossa música".

03_you_cant_win_charlie_brown_Cover.jpg © You Can't Win, Charlie Brown, "Chromatic".

2011 assiste à chegada de Chromatic, o primeiro longa-duração dos You Can't Win, Charlie Brown. Nunca devemos julgar uma obra pela capa, mas Chromatic revela magistralmente o que percorre os seus labirintos sonoros. As pirâmides que se erguem como pontas de lápis de cor assemelham-se a um bosque cerrado, luxuriante e fantasista. Fácil de entrar mas difícil de sair. Uma espécie de mundo paralelo que o grupo lisboeta começa a construir. As influências permanecem mas a personalidade vinca-se. A floresta das novas sonoridades cosmopolitas e multiculturais de Brooklyn parece conviver com o verde escuro de uma Inglaterra rural e intemporal. Afonso não se sente próximo "nem de um nem de outro, sinceramente. Não temos tendência em pensar assim, nem conhecemos bem essas realidades para lá daquilo que vemos ou lemos. O nosso imaginário talvez ande um pouco pelos dois mas também viaja por muitos outros sítios, como a nossa casa, Lisboa e arredores".

04_you_cant_win_charlie_brown.jpg © You Can't Win, Charlie Brown.

Qual sinestesia, Chromatic torna as cores audíveis. Garridas e suaves, luminosas e sombrias. A paleta musical expande-se para lampejos de electrónica, o multi-instrumentalismo dos elementos da banda garante surpresas e variações. Over the Sun/Under the Water abre magistralmente o disco em melopeia acústica que irrompe num apelo à dança; I've Been Lost é um exercício lúdico de pop inteligente; An Ending encerra a obra num crescendo épico e arrebatado. As vocalizações são igualmente partilhadas, mas o que perdura na memória são as harmonias conjuntas. O equilíbrio entre a acessibilidade e o experimentalismo é notório e, para Afonso, "isso varia muito de música para música e daquilo que sentimos que faça falta num disco. Quando surgem as primeiras músicas para um disco, normalmente não há grandes preocupações, fazemos aquilo que quisermos e depois logo se vê. Depois, quando ouvimos o conjunto de trabalho que temos podemos pensar "aqui ficava bem uma coisa mais catchy para ligar o disco todo" ou então exactamente o oposto. A nossa preocupação é sempre com o resultado final do disco enquanto "obra", não propriamente com a parte comercial da coisa, mas isso não quer dizer que não nos saiba bem tentar fazer uma música com um refrão "orelhudo" de vez em quando".

05_diffraction.jpg © You Can't Win, Charlie Brown, "Diffraction".

"Cada disco é um disco e a abordagem nunca é a mesma. Até agora tentámos sempre fazer algo de diferente ao anterior mas sem fazer uma ruptura total, mas quem sabe... para o próximo tudo isso pode mudar, nem nós sabemos", responde Afonso Cabral à questão da banda seguir um conceito ou pretender romper com o passado a cada novo trabalho. Diffraction/Refraction, o segundo álbum da banda, editado no início de 2014, segue essa premissa. Não corta o cordão umbilical que une o seu percurso artístico, mas alarga horizontes e acrescenta-lhes personalidade extra. Mais contido e menos extrovertido que o seu antecessor, Diffraction/Refraction procura a riqueza dos detalhes em detrimento de um som mais expansivo. É um disco de belíssimos temas, os mais maduros do grupo até à data, e imbuídos da ambiguidade lírica que faz de cada canção uma fábula do quotidiano. Segundo Afonso, a ideia para as letras "às vezes parte de uma frase que sai sabe-se lá de onde e que encaixa bem na música, depois tento criar uma história ou uma linha coerente a partir daí. Às vezes há uma ideia pré-definida que serve de gatilho para a música toda. É difícil dizer de onde vem, tento pegar em coisas que vejo ou que sinto, por muito pequenas que sejam, e às vezes tento amplificar isso e levar essas coisas para um caminho que forme uma canção".

06_you_cant_win_charlie_brown.jpg © You Can't Win, Charlie Brown.

Diffraction/Refraction não é a obra mais imediata dos You Can't Win, Charlie Brown, mas é a mais recompensadora. É um disco que cresce a cada audição e revela pormenores deliciosos à medida que vai sendo redescoberto. As influências continuam presentes, mais difusas e menos flagrantes. Nas palavras de Afonso, "cada vez mais tentamos nunca referir nomes de outras bandas ou artistas quando estamos a compor. Se ao início tínhamos alguma necessidade de dizer "aqui faz uma coisa mais como a banda x ou y", agora já sabemos melhor o que é o nosso som e não temos tanto essa necessidade. Isto é tudo muito relativo, porque nunca queremos que a nossa identidade seja uma coisa fixa e imutável, é suposto ir crescendo e evoluindo, e nunca sabemos muito bem o que é que vai ser até chegarmos lá". Certo é que a qualidade de canções como a agridoce After December, ou a pulsante Be My World revelam uma mestria composicional e interpretativa que mostra que o sexteto lisboeta não teme elevar a própria fasquia. Por entre a folk pincelada de electrónica, pontuais assomos luminosos e enérgicos e a melancolia fleumática tão típica dos portugueses, Diffraction/Refraction corre sérios riscos de ser um dos melhores discos lusos de 2014 e urge ser escutado.

07_you_cant_win_charlie_brown_afonso_cabral.jpg © You Can't Win, Charlie Brown, Afonso Cabral.

Acerca do futuro da banda, Afonso Cabral (o senhor na foto acima) afirma: "Ainda temos muito por onde crescer em Portugal. De resto, é claro que é sempre bom ter reconhecimento fora do nosso país, e tentamos sempre aproveitar as oportunidades que possam surgir". Tendo em conta as provas dadas e as expectativas criadas, é seguro concluir que, ao contrário da personagem de Charles Schulz que inspirou a formação do projecto, este Charlie Brown já é um vencedor.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.
Saiba como escrever na obvious.

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