A triste história de Nico

Multitalentosa, a alemã Christa Päffgen teve o privilégio de ser estrela numa época dourada para as artes, mas sua vida foi marcada pelo vício e pela fatalidade. Conheça agora a triste história de Nico.


bhs197a.jpg Nico em Chelsea Girls (1966).

Nascida em 16 de outubro de 1938, em Colônia, assim como outras milhares de crianças alemãs do seu tempo, Nico cresceu em um país dominado pela tensão da guerra, e posteriormente arrasado pelas forças aliadas - o que lhe reservaria alguns traumas para o resto da vida.

Por causa da infância difícil, Nico só frequentou a escola até os 13 anos de idade, quando começou a vender lingerie na KaDeWe, a maior loja de departamentos da Europa, em Berlim. Ela chegou até a trabalhar como costureira, mas então, sua enorme beleza começava a chamar cada vez mais atenção, o que despertou uma carreira de modelo ainda adolescente, aos 16 anos.

Foi um colega de trabalho da KaDeWe, o fotógrafo Herbert Tobias, que lhe deu o apelido que ela adotou por toda vida. Tobias chamou-lhe de "Nico" por causa de um amigo, o cineasta grego Nikos Papatakis, que foi namorado dela por um breve período.

A mudança para Paris não demorou muito e em questão de tempo Nico já era conhecida no circuito de moda internacional. Modelando para revistas de moda, casas de alta costura e fazendo comerciais para televisão, Nico levava uma vida agitada, quase nômade, entre os endereços mais badalados da época; por uma época estava morando em Paris, já em outra estava na Itália, ou na Ilha de Capri, ou em Ibiza, ou em qualquer outro lugar que fosse requisitada. Apesar do pouco estudo, aprendeu a falar várias línguas, devido em parte às frequentes viagens.

6531868929_ba9ac6ff57_o.jpg Nico por Philip Townsend (flickr).

Em 1958 Nico fez sua primeira aparição no cinema, na verdade, foi apenas uma figuração (a primeira de várias), no filme Tempestade (La Tempesta) do diretor italiano Alberto Lattuada. Mais tarde, em 1959, quando foi convidada ao set de filmagens de A Doce Vida (La Dolce Vita), acabou conquistando a atenção do aclamado diretor Federico Fellini, que lhe ofereceu um pequeno papel, não creditado, como ela mesma. Por esta época, a modelo vivia em Nova York e tomava aulas de atuação com Lee Strasberg; firme no propósito de se tornar uma atriz séria.

Finalmente, Nico conseguiu um bom papel no filme Strip-Tease (1963) de Jacques de Poitrenaud. Ela chegou a gravar em francês a canção-título do filme, composta por Serge Gainsbourg, mas que não foi lançada até 2001, ao ser incluída em uma coletânea de trilhas sonoras do compositor. Em 1965, Nico gravou seu primeiro single, "I'm Not Sayin", produzido por Brian Jones para a gravadora Immediate de Andrew Loog Oldhan, então agente dos Rolling Stones. Era o começo, que não se parecia com nada do que ela faria depois.

2950299242_55e04916fe_o.jpg Capa de "I'm Not Sayin", o primeiro single de Nico, 1965.

A associação com Andy Wharol mudaria a história de sua vida, principalmente depois dele tê-la escolhido como musa de seus filmes experimentais com Paul Morrisey - entre eles, o famoso Chelsea Girls (1966). Quando Wharol se tornou o produtor do Velvet Underground, sugeriu a loira como vocalista da banda. O Velvet Undergroud se tornou a peça principal do Exploding Plastic Inevitable, um evento multimídia concebido por Wharol, que excursionou pelos Estados Unidos e Canadá por cerca de um ano, reunindo performances de música, filme e dança. No álbum de estreia da banda, The Velvet Underground & Nico (1967), ela cantou três músicas - "Femme Fatale", "I'll Be Your Mirror" e "All Tomorrow's Parties", e ainda fez backing vocal em "Sunday Morning". Entretanto, a relação de Nico com os integrantes da banda nunca foi amistosa, principalmente com Lou Reed e John Cale (ambos loucos de amor e ciúme por ela); o que precipitou sua saída da banda. O fato é que sua aliança com Andy Wharol e a participação no Velvet Underground não fizeram Nico apenas famosa, mas sim um dos principais ícones da cultura alternativa sessentista.

Warhol's_Exploding_Plastic_Inevitable_with_Nico.png Nico cantando na Exploding Plastic Inevitable, no campus da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, 1966 (wikicommons).

5967632011_1e68d1f618_o.jpg Nico e Lou Reed no estúdio de gravação. Foto de Steve Schapiro, 1965 (flickr).

A loira não teria problemas em engrenar uma carreira solo; seu primeiro álbum, Chelsea Girl (1967), contou com a colaboração de bons músicos, incluindo seus ex-colegas do Velvet Underground; no repertório, canções de Bob Dylan (I'll Kept it With Mine"), Tim Hardim ("Eulogy to Lenny Bruce"), Jackson Browne ("These Days"), entre outras de Lou Reed e John Cale ("Wrap Your Troubles in Dreams"). Uma mistura dos estilos folk e pop anos 60, com elementos baroque e psicodélico, tornou a sonoridade do álbum bastante semelhante à do Velvet Underground. Nico futuramente revelaria ter odiado o seu primeiro disco.

img064.jpg Nico, Chelsea Girl, 1967.

Encorajada por Jim Morrison, a cantora passou a escrever suas próprias canções; a descoberta do harmônio, um instrumento que ela mesma passou a tocar, deram um novo sentido à sua carreira. Nico trabalhou em conjunto com John Cale em seus três próximos álbuns - The Marble Index (1969), Desertshore (1970) e The End... (1974) - considerados uma trilogia. Com liberdade para criar o que bem entendesse, Nico gravou discos sonoramente estranhos, sobre sentimentos esquisitos; todos absolutamente conceituais, abstratos, quase místicos. Neste ponto a música de Nico tornou-se totalmente de vanguarda, com influências do rock, folk e música clássica, mas absolutamente experimental; mesmo prevendo movimentos posteriores como o rock progressivo e o punk, ela criou algo sem semelhanças com nada anterior e que ainda hoje permanece etéreo. Contudo, embora elogiados pela crítica, os discos fracassaram comercialmente, o que a afastou dos estúdios de gravação por vários anos, só voltando em 1981.

O som glacil demandava uma mudança de estilo, e Nico transformou seu visual radicalmente. A outrora modelo - loira platinada, luminosa e sensual, deu lugar à uma Nico gótica, junkie. Ela escureceu os cabelos e passou a vestir quase exclusivamente roupas e botas pesadas, pretas, a maquiagem também negra lhe conferia uma imagem dark; alguns amigos definiram essa metamorfose como uma espécie de punição por ser tão bonita, como se a beleza fosse um obstáculo no objetivo de ser levada à sério como compositora e poeta, e que então, por isso, ela deveria parecer feia.

E Nico, de fato, tinha uma enorme escuridão dentro de si. A aura sombria, muitas vezes camuflada, estava agora acessível. A vida parecia ter esculpido milhares de cicatrizes naquele mármore torturado. Era uma mulher traumatizada, com um coração atormentado e confuso, que amedrontava aqueles que chegavam mais perto. Definindo-se como niilista, Nico via-se como descendente dos artistas românticos do século XIX; também era surda de um ouvido, o que poderia acentuar sua expressão de indiferença, ou talvez fosse só mesmo o espírito germânico. Mas, de fato, é possível enxergar em suas fotos uma mistura de beleza e tragédia, envolta numa bruma de melancolia e tristeza.

6927553091_413d2fcf51_o.jpg Nico em uma foto tirada no apartamento de John Cale, Londres, 1974 (flickr).

Nico teve um relacionamento de dez anos com o cineasta francês Philippe Garrel, entre 1969 e 1979; juntos, fizeram seis filmes autorais, para os quais ela providenciou várias músicas para as trilhas sonoras, e claro, atuou, como em La Cicatrice Intérieure (1972) e Les Hautes Solitudes (1974), dois dos mais famosos produzidos pelo casal.

Nico gravou apenas dois outros álbuns, mas nenhum deles tão marcante quanto a trilogia The Marble Index/Desertshore/The End. Nos últimos dez anos de vida, embora definhasse devido ao vício em heroína, ela excursionou numerosas vezes pela Europa, Estados Unidos, Austrália e Japão, sempre acompanhada de jovens músicos orientais, suas performances ainda continham grande impacto. No fim, sua imagem era quase a de uma lenda; Nico era endeusada pelos roqueiros góticos, e sem dúvidas influenciou direta ou indiretamente várias bandas e músicas como os Bauhaus, Siouxsie & the Banshees, The Sisters of Mercy, Dead Can Dance, e também Elliott Smith, Patti Smith, Morrissey, entre outros vários contemporâneos.

Nico teve apenas um filho, Christian Aaron Boulogne, nascido em 1962, fruto de um affair com o ator francês Alain Delon. Embora ele jamais tenha reconhecido a paternidade do menino, Christian (a quem Nico chamava de "Ari") foi criado em grande parte pelos pais de Delon.

tumblr_mwbp17ZjeP1qzqju7o1_1280.jpg Nico em Chelsea Girl (1966).

Em 18 de julho de 1988, de férias em Ibiza com seu filho Ari, Nico sofreu um ataque cardíaco enquanto andava de bicicleta, e bateu a cabeça na queda. Um motorista de táxi que passava no local na hora do acidente a socorreu, mas teve dificuldades em encontrar um hospital na ilha que a atendesse. Nico sofreu uma violenta hemorragia cerebral, e acabou falecendo às 8 horas da noite no mesmo dia. O que era para ser um recomeço foi interrompido justamente no momento em que ela começava a se libertar das drogas. Nico foi cremada, e suas cinzas foram enterradas num pequeno cemitério na Floresta de Grunewald, em Berlin.


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