O verdadeiro Oeste de Solomon Butcher

Solomon Butcher, um americano que acompanhou a expansão do seu país para os novos territórios a oeste, tornou-se fotógrafo e procurou a fortuna registando os novos habitantes das grandes planícies.
Não teve sucesso financeiro, mas deixou-nos o extenso testemunho dum Oeste objectivo e verídico que, por vezes, era mais estranho que o da sua versão cinematográfica.


01_Solomon-Devore-Butcher,-auto-retrato,-EUA,-1886.jpg Solomon Devore Butcher, auto-retrato, EUA, 1886 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Autor não identificado,  Solomon D Butcher a trabalhar na sua coleção de fotografias nas instalações da Nebraska State Historical Society na Universidade do Nebraska, Fevereiro de 1913.jpgAutor não identificado, Solomon Devore Butcher a trabalhar na sua colecção de fotografias nas instalações da Nebraska State Historical Society, Fevereiro de 1913 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Os Estados Unidos nasceram duma rebelião contra um poder imperial e colonial distante. No entanto, após a duramente conquistada independência, e a difícil estabilização do "edíficio" institucional americano, a jovem nação rapidamente embarcou na sua própria aventura de conquista territorial.

Para uma boa parte da sociedade americana, a expansão era o desígnio do país. Um editorialista, John O'Sullivan, defendendo a anexação do Texas em 1845, expôs esse sentimento com palavras bem claras: " O destino manifesto da América é expandir-se pelo continente oferecido pela Providência para o desenvolvimento dos nossos primeiros e crescentes milhões de habitantes" . Assim, fosse pela via de tratados e da compra de territórios, fosse fomentando revoltas visando a anexação, fosse ainda pela via da guerra declarada, o recente país apoderou-se, em poucas décadas, da parte mais significativa da América do Norte.

A construção do mito

Essa expansão era, na verdade e na sua maior parte, um processo de colonização interna. Os territórios obtidos da Inglaterra, França, Espanha, México e Rússia não se encontravam povoados e organizados, na sua esmagadora maioria, por europeus e seus descendentes. A construção do Estado americano, formalmente legal, fez-se com a arbitrária imposição da sua autoridade sobre os povos locais, desapropriados das melhores terras e excluídos dos recursos naturais mais importantes.

O processo de construção nacional foi difícil e complexo, num território não "civilizado", sem estradas, sem verdadeiras cidades, combatendo populações que não aceitavam facilmente ser afastadas. Mas como é normal nos processos de edificação de identidade nacional, foi terreno fértil para a criação do mito. A grande criação mitológica do nacionalismo americano é o Oeste.

O Oeste americano é assim um território mítico, não exactamente geográfico (tanto pode abranger o Texas, que em rigor é Sul e Sudeste, ou o Midwest, que fica no meio do continente, como a ocidental Califórnia), não exactamente factual, onde a História e a Ficção se misturam num jogo de referências e de estereótipos.

A expansão para o Oeste estabilizou simbolicamente a América enquanto país. Perante um Nordeste ainda muito europeu culturalmente, e um Sudeste que tentara separar-se na Guerra da Secessão, o alargamento rápido da segunda metade do século dezanove foi o cimento que agregou a identidade americana. Ao mesmo tempo que se avançava para os novos territórios, publicavam-se histórias e historietas que exaltavam a coragem dos pioneiros e dos colonos, entusiasmavam os jovens e os emigrantes recém chegados, e introduziam o necessário nível de fantasia e aventura.

Mais tarde, o poder criativo do cinema da era dourada do Western e a ascendência cultural americana acabariam por universalizar esse território imaginário. Um Oeste ficcional, povoado de índios simultaneamente traiçoeiros e rectos, inteligentes e estúpidos, de cowboys loiros e heróicos, de heroínas que ora desmaiavam, ora esbofeteavam vilões terríveis e facilmente matáveis, duma cavalaria que chegava sempre no momento certo. Um Oeste de cidades de casas de madeira, alinhadas nos dois lados duma rua central, sempre de terra, quase sempre seca.

02_Edward-S-Curtis,-Planeando-um-ataque,-EUA,-cerca-de-1908.jpg Edward S. Curtis, "Planeando um ataque", E.U.A., cerca de 1908 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

O verdadeiro Oeste

A criação deste Oeste mítico é no entanto precedida, e acompanhada, por um processo de registo rigoroso e "científico" dos novos territórios. As elites dirigentes dos Estados Unidos desde cedo tiveram consciência da excepcionalidade histórica que a expansão constituía. O Congresso e o governo planearam ou apoiaram muitas expedições que preparavam o alargamento da colonização. Preocupava-os não só saber o que estava para lá, e quais as rotas a tomar, como fazer uma inventariação rigorosa das áreas que iriam sofrer uma alteração radical, quer nas suas populações, quer na sua própria natureza. As grandes terras "virgens" deixariam de ser intocadas e passariam, por acção do progresso, a ser produtivas.

Começa aí uma particularidade americana, a estranha dualidade que caracteriza a relação dos americanos com a sua história e o seu território: Se, por um lado, existe, como praticamente em nenhum outro povo, uma exaltação do novo e do progresso, como se tratasse duma nação nascida do zero, uma tabula rasa, por outro lado, há uma hipervalorização de qualquer traço histórico; se, por um lado, há uma sistemática exploração dos recursos e uma voraz transformação dos territórios, por outro lado, existe uma veneração única pelos espaços intocados, pelas paisagens que restam da América selvagem; se, por um lado, se verificou uma total desconsideração pelas populações nativas, que ora eram exterminadas, ora eram empurradas para os mais estéreis locais, com quem se assinavam tratados que assumidamente não eram para cumprir a partir do momento em que deixassem de ser vantajosos, por outro lado, há um fascínio e uma idealização desses americanos primeiros, cujos costumes e imagens são apropriados, muitas vezes artificialmente, pelas artes e cultura americanas.

As expedições de reconhecimento ao Oeste, a par duma caracterização científica e topográfica, tinham também uma função de registo visual das paisagens e povos encontrados. Num primeiro momento, essa tarefa esteve a cargo dos artistas, pintores sobretudo, que faziam parte do corpo de exploradores. Com o aparecimento da Fotografia, a tentação de a fazer incorporar nas ferramentas de trabalho das expedições depressa se verificou. Com a sua pretensa objectividade, pretendia-se evitar acusações de invenção e liberdade artística excessiva, que por vezes eram apontadas às imagens feitas em tais empreendimentos. A fotografia, pensava-se, seria verdadeira, não poderia falsificar a realidade. E seria ainda mais rápida, mais produtiva, mais moderna.

Assim, em 1853, ainda com a técnica na sua infância, e antes da guerra da Secessão, vemos o recrutamento do fotógrafo Solomon Nunes Carvalho para uma das campanhas exploratórias, mais ou menos oficiais, de Jonh C. Fremont, um aventureiro que viria a ter aspirações presidenciais. Seria ele a fazer as primeiras centenas de imagens do Oeste americano, das quais, após o infeliz incêndio de um armazém, apenas sobrevive uma, muito danificada, registando o que se pensa ser uma aldeia índia Cheyenne no Colorado.

03_Solomon-Nunes-Carvalho,-Vista-de-uma-aldeia-Cheyenne-em-Big-Timber-,-Colorado,-EUA,1853.jpg Solomon Nunes Carvalho, Vista de uma aldeia Cheyenne em Big Timber , Colorado, E.U.A.,1853 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Depois de Carvalho, muitos foram os fotógrafos que ajudaram a fazer a inventariação visual do território americano no século dezanove. O mais notório e dotado deles será eventualmente Timothy O'Sullivan, que se notabilizara pela sua cobertura da guerra civil americana e que, de 1867 a 1869, acompanhou a exaustiva exploração do 40º paralelo, liderada por Clarence King, onde fez algumas das mais sublimes imagens da superlativa paisagem dos estados do Centro e Oeste, num registo diametralmente oposto ao da mórbida verdade dos campos de batalha que fotografara um par de anos antes.

04_Timothy-O-Sullivan,-Antigas-ruinas-Anasazi-no-Canyon-de-Chelly,-Arizona,-EUA,-1873.jpg Timothy O'Sullivan, Antigas ruínas Anasazi no Canyon de Chelly, Arizona, E.U.A., 1873 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Um relato na primeira pessoa

A consciência da particularidade histórica da expansão americana não foi no entanto um monopólio das elites científicas e do governo. Muitos dos que nela participaram, tinham plena noção que se viviam momentos únicos, que estavam perante o Antes, a viver os primeiros momentos de um Depois planeado muitas vezes a régua e esquadro (veja-se o ortogonal mapa da região central dos Estados Unidos). E tentaram manter elaborar o seu próprio catálogo de factos e de imagens desses tempos de mudança.

Alguns procuraram fazer o retrato da América primitiva, das paisagens prestes a ser transformadas ou (como no caso dos fotógrafos Edward Sheriff Curtis, David Frances Barry e Horace Swartley Poley) do estertor orgulhoso das sociedades nativas. Outros dedicaram-se com devoção quase arquivística ao registo da nova América que nascia. Solomon Devore Butcher foi um destes últimos.

Nascido na Virgínia Ocidental, Butcher era um colono improvável. Urbano, filho dum ferroviário, cresceu no condado de LaSalle, no estado de Illinois, onde estudou e concluiu o ensino secundário. Antes de seguir para a academia militar de Henry, foi aprendiz dum fotógrafo local. Após um ano de estudos militares, em 1876 retornou a planos mais civis e tratou de ganhar a vida como caixeiro viajante.

Nada faria prever portanto a reviravolta que a vida de Solomon, e a dos restantes membros da família butcher, teria quatro anos depois. Em 1880, Thomas Jefferson Butcher, o seu pai, anunciou que iria abandonar o seu emprego seguro, de décadas, na Illinois Central Railroad. Entendera aproveitar as possibilidades abertas pela implementação do Homestead Act, um decreto presidencial que doava parcelas de terreno a quem garantisse a sua exploração durante cinco anos. Este decreto visava povoar e "americanizar" os novos estados criados na região das grandes planícies, outrora parte da Louisiana original, comprada aos franceses em 1803.

Solomon, o pai, o seu irmão George e um cunhado, J. R. Wabel, todos contaminados pela ideia de possuírem terras, meteram-se ao caminho e conseguiram assegurar concessões de terreno junto ao rio Middle Loup, em Custer County, no Nebraska. Num território plano e agreste de estepe impôs-se a construção de um abrigo e, sem madeira a que recorrer, a "expedição" Butcher fez o que praticamente todos os colonos desse período fizeram. Escavando o solo, e movendo a terra, construíram um tosco alojamento com tal material, aquilo que os americanos designam por "sod house".

04_Timothy-O-Sullivan,-Antigas-ruinas-Anasazi-no-Canyon-de-Chelly,-Arizona,-EUA,-1873.jpg John McCarthy, A casa de terra de John Bakken, Dakota do Norte, EUA, cerca de 1895 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Logo nesse primeiro empreendimento, o ex-caixeiro viajante se apercebeu que não fora talhado para a vida dum agricultor de fronteira. Como explicaria mais tarde, trocar as amenidades duma casa de hóspedes e um salário certo por carregar terra em troca de um rendimento miserável era coisa de gente louca. E quando retornou semanas depois, junto com o pai, para buscar a família que ficara no Illinois, acabou por lá ficar sozinho por vários meses. Apenas o risco de perder a sua concessão o fez voltar ao Nebraska, uns dias antes de terminar o prazo para estabelecer uma habitação permanente. Coisa que consegue com o apoio do pai e de dois irmãos que o ajudaram a escavar um abrigo. Mas, passadas duas semanas, acabou por desistir do terreno e dirigiu-se primeiro para Milwaukee e, mais tarde, para Minneapolis, onde durante algum tempo estudou Medicina.

Não acabou porém o curso. Na sua curta experiência universitária travou conhecimento com uma viúva que trabalhava como enfermeira, Lillie M. Hamilton, com quem prontamente casou em maio de 1882. Pouco tempo passado, comprovando uma inconstância e uma insatisfação que lhe eram estruturais, retornou ao Nebraska com a esposa. Desta vez, no entanto, seguiu sem ideias de se tornar agricultor, aceitando um cargo de professor primário que lhe permitiu juntar algum dinheiro, usado para comprar terra, construir uma casa (de terra) e estabelecer-se como fotógrafo, ofício que aprendera brevemente no início da idade adulta.

Mas não será fácil a sua opção. Viviam-se tempos difíceis num território agreste. Os colonos, que espaçadamente povoavam vastos territórios, travavam um luta desesperante com um clima e um terreno que se recusavam a dar-lhes um sustento fácil. A oportunidade de se tornarem proprietários revelara-se uma armadilha para a esmagadora maioria deles. Não só se debatiam imenso para produzir cereais e criar algum gado, como se tinham tornado ainda reféns das companhias de caminho-de-ferro, que foram aumentando as tarifas de transporte para as cidades do Leste ao ponto de os afastar totalmente da prosperidade sonhada.

Solomon tinha pouca clientela e improvisava negócios paralelos (como ser agente dos correios) que faliam invariavelmente. Nos seus primeiros tempos de fotógrafo sobreviveu verdadeiramente, e conseguiu sustentar a família, trabalhando periodicamente para o seu próprio pai, em troca de algumas dezenas de cêntimos por dia. Depois, começou a saltar de terra em terra no Nebraska, montando estúdios e mudando-se quando a ruína financeira o forçava. Em 1886, possivelmente na sequência duma das suas falências, Solomon Devore Butcher teve mais uma ideia daquelas que acreditava poder dar-lhe uma fortuna rápida. Sendo letrado e dotado de cultura geral, sabia que se fazia História à sua volta. E convenceu-se que se fizesse um levantamento fotográfico dos primeiros habitantes "civilizados" do Condado de Custer, e com base nele elaborasse um livro ilustrado, a relevância de tal empresa seria reconhecida e devidamente paga. Mais uma vez estava errado, mas desse erro nasceria a grande obra da sua vida e uma das mais impressionantes sequências fotográficas da História americana.

A História dos Pioneiros, por um dos seus

Nesse ano, com uma carroça emprestada pelo pai, Solomon começou a percorrer as improvisadas quintas do seu condado, a convencer os seus habitantes a se deixarem fotografar e a contar as suas histórias. As grandes distância faziam com que a campanha fotográfica se prolongasse, perdendo grande parte dos dias apenas na deslocação entre as casas, em caminhos que estavam muito longe de poder ser considerados estradas. Dependia em grande parte da compreensão dos seus modelos, que além de aceitarem colaborar, lhe davam também alojamento nocturno e alimentação, geralmente em troca apenas duma impressão das fotografias. Paralelamente, solicitando patrocínios e vendendo subscrições da sua futura obra junto dos mais ricos e influentes de Custer County, Solomon foi conseguindo manter a sua odisseia.

05_Solomon-D-Butcher,-a-fam°lia-deJ-D-Semler,-near-Woods-Park,-Custer-County,-Nebraska,-EUA,-1886.jpg Solomon Devore Butcher, a famí­lia de J. D. Semler, perto de Woods Park, Custer County, Nebraska, E.U.A., 1886 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Entre 1886 e 1892 fez cerca de 1500 fotografias, acreditando-se que tenha retratado cerca de metade da população da área. Nesse último ano, uma das cíclicas secas que afectam o Midwest americano devastou as colheitas e secou o parco financiamento de Butcher, que se viu forçado a abandonar a recolha de imagens, lutando com questões mais imediatas como a perda das suas terras. Na sequência dessa crise acabou por entrar na política local, concorrendo com sucesso pelo Partido Populista, então bastante forte por defender apoios aos agricultores. Em 1899 conseguira melhorar substancialmente a sua situação financeira, preparando-se para reiniciar o seu trabalho de levantamento fotográfico, quando um incêndio lhe destruiu a casa e todo o seu recheio, incluindo a compilação de histórias e as fotografias que imprimira. Mas o seu trabalho não acompanhou o destino das imagens do fotógrafo pioneiro Nunes Carvalho. Butcher não perdeu tudo. Por sorte, guardados num celeiro perto, os negativos de vidro sobreviveram.

O desaire acabou por lhe permitir um reinício reforçado. A carreira política dera-lhe uma influência que garantiu o apoio de um editor e o financiamento que antes lhe faltara. Reescreveu as narrativas perdidas, completou o projecto fotográfico, e em 1901 editou finalmente "Pioneer History of Custer County and Short Sketches of Early Days in Nebraska", que esgotou duas edições nesse mesmo ano.

Mas a relação de Solomon Butcher com o sucesso não seria coisa para durar. Planos para alargar o seu livro a outros condados acabaram por não se concretizar, embora viesse mais tarde a publicar um segundo livro de fotografias, "Sod Houses; or, The Development of the Great American Plains", no âmbito dum plano para vender terras. A vida de Butcher, a partir de então, seria uma sucessão de negócios e aventuras empresariais mais ou menos falhadas. Algumas fotográficas, como montar um estúdio em parceria com o seu filho e produzir postais ilustrados de paisagens e de episódios do Oeste; outras de natureza mais estranha, ou até duvidosa, como organizar uma expedição nunca concretizada à América Central, a invenção dum detector de petróleo electromagnético e a comercialização dum medicamento (que, no essencial, era simplesmente álcool). Pelo meio, tentando arranjar verbas, acabaria por vender o seu espólio fotográfico à Nebraska State Historical Society por mil dólares. Mas, por muito que tivesse tentado, a fortuna não quis nada com ele.

Ao morrer, em 1927, em Greeley, no estado do Colorado, Solomon Devore Butcher tinha a convicção íntima que a sua vida fora um falhanço.

A Obra

Observando a obra fotográfica de Butcher, acabamos por perceber que a Fotografia, que não lhe trouxe o sucesso em vida, acaba por o resgatar do esquecimento. Para além da simples questão numérica (vários milhares de negativos e provas são uma quantidade impressionante para a época) e documental, é importante entender o interesse estético das imagens, que tem o seu quê de paradoxal. Por um lado, há algo que ressalta como óbvio. Solomon Butcher não era definitivamente um dos grandes mestres do seu tempo. Tecnicamente, estava longe de ser um perfeccionista. Fosse por problemas na exposição, ou por defeitos no processamento, o certo é que há uma grande desigualdade nas imagens, que nunca atingem o brilhantismo tonal dum Mathew Brady ou dum Timothy O'Sullivan. Por outro lado, em termos de composição Butcher também não era exactamente um esteta. Apesar de ser um homem com alguma educação formal, aprendeu o ofício num estúdio local, e faltava-lhe um conhecimento aprofundado das convenções e dos paradigmas estéticos vigentes à época. As suas fotografias dos pioneiros em nada se assemelham às fotografias de grupo cuidadas, centradas, equilibradas, dos fotógrafos mais distintos de Nova Iorque e Londres. Mas são estes defeitos que curiosamente abrem o caminho para as virtudes e a originalidade do trabalho de Solomon Butcher. O núcleo mais importante do seu trabalho, as imagens das famílias atraídas para as grandes planícies pelo Homestead Act, não é um conjunto de instantâneos. Essas fotografias são pequenas encenações orquestradas pelo fotógrafo. E apesar de não porem o foco no agrupamento ordenado das figuras, nas formações humanas, como seria esperado dum fotógrafo comercial mais sofisticado, não estavam totalmente alheadas das convenções. À semelhança dos retratos da época, que convocavam os símbolos das profissões e das posições das pessoas para as suas imagens (um escritor fazia-se representar de livro ou aparo na mão, um general portando espada e medalhas e até um ferreiro, nos seus melhores trajes, muitas vezes segurava um martelo ou uma tenaz), as fotografias grupais de Butcher não se limitam aos membros das famílias e às suas casas. Todas as posses dos pioneiros eram requisitadas e puxadas à frente. As famílias que registou eram retratadas em exterior com os seus animais, as suas alfaias e carroças, muitas vezes com a pouca mobília que possuíam e até com alguns alimentos. As famílias de Butcher não se definem apenas pelas suas individualidades, mas também pela parafernália que as acompanhas e que lhes permite subsistir e enfrentar o agreste ambiente do Nebraska.

06_Solomon-Butcher,-A-fam°lia-de-Sylvester-Rawding-defronte-da-sua-casa-de-terra,-Nebraska,-EUA;1886.jpg Solomon Devore Butcher, A famí­lia de Sylvester Rawding defronte da sua casa de terra, Nebraska, E.U.A.,1886 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Mas apesar do claro e estranho esforço de encenação que é visível nas suas fotografias dos pioneiros, não se detecta grande tentativa de embelezamento. Mesmo quando os retratados se vestem com os seus melhores fatos, não há a vontade de os apresentar como burgueses citadinos. São sempre camponeses, rancheiros com roupa de Domingo. Há nestas fotografias um pendor documental e uma objectividade que são precocemente modernas. Um outro ponto importante é a intuição que Butcher tem relativamente à importância da repetição. Criou para o seu levantamento fotográfico do condado de Custer um esquema- plano geral, figuras humanas alinhadas lateralmente com parte das suas posses, casa atrás, e parte da paisagem como fundo. E aplicou-o repetida e sistematicamente às famílias que registou. Poder-se-ia pensar que esta uniformidade de processo e formas poderia menorizar as imagens individuais, mas, pelo contrário, potencia-as, fortalece-as.

Não dominando os preceitos estéticos e técnicos que seriam de esperar dum grande fotógrafo do seu tempo, Butcher revela-se no entanto premonitório da objectidade e da serialidade que caracterizam grande parte da fotografia contemporânea. Mais do que ombrear com Brady ou Stieglitz, parece antever August Sander ou Bernd e Hilla Becher.

07_Solomon-Butcher,-A-fam°lia-Bal-defronte-da-sua-casa-de-terra,-Woods-Park,-Nebraska,-EUA;1886.jpg Solomon Devore Butcher, A família Ball defronte da sua casa de terra, Woods Park, Nebraska, EUA,1886 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

08_Solomon-D-Butcher,-a-fam°lia-de-George-Pain,-Westerville,-Nebraska,-EUA,-1887-88.jpg Solomon Devore Butcher, a famí­lia de George Pain, Westerville, Nebraska, E.U.A., 1887-88 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

09_Solomon-D-Butcher,-a-fam°lia-de--W-Parish-,-Custer-County,-Nebraska,-EUA,-1887.jpg Solomon Devore Butcher, a famí­lia de W. Parish , Custer County, Nebraska, E.U.A., 1887 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

10_Solomon-D-Butcher,-a-fam°lia-Davis-,-Custer-County,-Nebraska,-EUA,-1887.jpg Solomon Devore Butcher, A famí­lia Davis , Custer County, Nebraska, E.U.A., 1887 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

11_Solomon-D-Butcher,-a-fam°lia-de-George-Reynolds,-Dry-Valley,-Nebraska,-EUA,-1887.jpg Solomon Devore Butcher, a família de George Reynolds, Dry Valley, Nebraska, E.U.A., 1887 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

12_Solomon-D-Butcher,-a-fam°lia-de-James-Porter-,-Custer-County,-Nebraska,-EUA,-1887.jpg Solomon Devore Butcher, A famí­lia de James Porter , Custer County, Nebraska, E.U.A., 1887 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

13_Solomon-D-Butcher,-a-fam°lia-de-Omer-Kem,-Nebraska,-EUA,-1886.jpg Solomon Devore Butcher, A famí­lia de Omer Kem, Nebraska, E.U.A., 1886 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

14_Solomon-D-Butcher,-a-fam°lia-Murry-,-Custer-County,-Nebraska,-EUA,-1888.jpg Solomon Devore Butcher, a família Murry , Custer County, Nebraska, E.U.A., 1888 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

15_Solomon-Butcher,Fam°lia-defronte-da-sua-casa-de-terra-e-propriedade,-Custer-county,-Nebraska,-EUA;1887.jpg Solomon Butcher,Famí­lia defronte da sua casa de terra e propriedade, Custer county, Nebraska, E.U.A., 1887 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

16_Solomon-Butcher,-Fam°lia-no-seu-rancho,-Custer-county,-Nebraska,-EUA,-1900.jpg Solomon Devore Butcher, Família no seu rancho, Custer county, Nebraska, E.U.A., 1900 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

À parte das considerações estéticas, o espólio de Solomon Butcher revela-se fundamental para uma melhor caracterização do povoamento dos novos territórios norte-americanos. A imagem que dele advém contrasta muito com o imaginário mítico do Oeste propalado durante a era dourada de Hollywood. Não há heroicidade exuberante nas figuras de Butcher, as suas pessoas parecem enfrentar a câmara como quem enfrenta o vento e um quotidiano díficil. Olhando-as, somos muito mais levados para o universo do escritor Mark Twain, de garotos travessos e episódios pícaros, do que para cargas de cavalaria e duelos com vilões. Veja-se as crianças que espreitam em cima dum telhado na fotografia da família Nutter.

17_Solomon-D-Butcher,-a-casa-de-William-H-Nutter-sÇnior,-a-mais-antiga-de-Buffalo,-Nebraska,-1904.jpg Solomon Devore Butcher, a casa de madeira de William H. Nutter Senior, a mais antiga de Buffalo, Nebraska, 1904 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

A realidade retratada por Solomon Butcher é bastante mais rica e complexa que a alternativa cinematográfica. Por ser verdadeira, e não uma versão convencionada, aparecem nela aspectos estranhos, inesperados e incomuns: a visível e geral predilecção por melancia, fruta que o anedotário norte-americano remete hoje apenas para a comunidade negra; os bandos de solteiros que se constituem à parte das famílias que eram o grosso dos povoadores; a grande quantidade de mulheres, contrariando a ideia dum Oeste esmagadoramente masculino; a presença de famílias negras recentemente liberadas da escravatura, e que rumaram ao Oeste aproveitando as concessões do Homestead Act; o avistamento de cowboys negros, que se sabe terem existido em número significativo naquele período, mas que raramente são invocados nos filmes western clássicos; a existência de famílias índias "europeizadas", oriundas doutras áreas da América, que procuraram uma nova oportunidade usando os mesmos meios e as mesmas possibilidades dos demais colonos; as mais variadas máquinas que foram penetrando o horizonte americano, mesmo nas distantes planícies.

18_Solomon-D-Butcher,-as-irm∆s-Chrisman,-Custer-County,-Nebraska,-EUA,-1886.jpg Solomon Devore Butcher, As irmãs Chrisman, Custer County, Nebraska, E.U.A., 1886 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

19_Solomon-D-Butcher,-Os-irm∆os-Perry-na-sua-casa-de-solteiros,-Custer-County,-Nebraska,-EUA,-1886.jpg Solomon Devore Butcher, Os irmãos Perry na sua casa de solteiros, Custer County, Nebraska, EUA, 1886 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

20_Solomon-D-Butcher,-Cowboys-em-Denver,-Colorado,-EUA,-!905.jpg Solomon Devore Butcher, Cowboys em Denver, Colorado, EUA, 1905 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Esta riqueza documental única não significa que não se tenha de ter algumas cautelas. Butcher era um homem complexo. Se a esmagadora maioria das suas imagens nos traz uma observação bastante fidedigna daquela realidade, que era a sua, a verdade é que uma das formas com que tentou ganhar dinheiro foi através da criação de postais com episódios significativos do Oeste. Encenou com parcos meios, e pouco jeito, tableaux vivants de disputas entre cowboys, de conflitos entre os rancheiros e os agricultores que cercavam as suas terras com arame farpado, de captura de criminosos. Sabendo do valor documental geral das suas fotografias, vários foram os historiadores que, de forma desatenta, tomaram as suas manipulações toscas por provas fotográficas de factos que estudavam.

21Solomon-Butcher,-Colonos-a-tomarem-a-lei-nas-suas-m∆os,Nebraska,-EUA,-cerca-de-1900_ok.jpg Solomon Devore Butcher, Colonos a tomarem a lei nas suas próprias mãos,Nebraska, E.U.A., cerca de 1900 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Assim, o Oeste de Solomon Devore Butcher é duplamente verdadeiro. Por um lado, ele retratou como ninguém a dura realidade do povoamento das planícies centrais, um dos últimos palcos da expansão interna americana. Fê-lo exaustivamente, com método, registando aspectos que apenas os pioneiros viveram, e que mais tarde a cultura popular americana omitiria. Por outro lado, Butcher é a evidência do quanto os que avançaram para o Oeste, e o povoaram inicialmente, estavam conscientes do processo de criação dum Oeste ficcional, aventuroso, paralelo ao real. É a evidência de como o Oeste dos pioneiros soube lidar com esse seu alter ego, modificando-se e encenando-se para se aproximar da mitologia popular, e daí tentar tirar algum benefício.

Olhando-se para estes dois Oestes fica-se com a sensação que o objectivo e verídico, capturado inicialmente por Butcher, era por vezes mais estranho e interessante que o da sua versão cinematográfica. E é esse o grande mérito do fotógrafo americano. As suas imagem dum Nebraska inicial, simultaneamente realista e surreal, reconhecível e esquisito, resgatam a vida de Solomon Devore Butcher da simples sucessão de falhanços a que ele acreditava se ter limitado.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...
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