Pete Doherty: junkie vida junkie e um pouco de música

Um garoto com altos e baixos, mas que se mantém firme e forte na busca pela vida junkie perfeita. Seguiu a linha do músico, entrou na selva dos atores e voltou para a estrada dos músicos. Senhoras e senhores: Pete Doherty.


01_pete_doherty.jpg Peter Doherty.

Peter Doherty nasceu em 1979, em Hexham, no distrito de Northumberland, que fica no extremo-norte da Inglaterra. O distrito é calmo e a cidade em que Dohertyn nasceu é pequena e aconchegante. Como seu pai fazia parte do Exército da Inglaterra, não permaneceu por muito tempo na calmaria de Hexham e se mudou diversas vezes, dentro e fora do Reino Unido.

Pode parecer mentira e pode ser levemente estranho, mas Pete era um ótimo aluno, extremamente interessado pelas artes e pela literatura. Se enfiou nos livros desde cedo e tinha uma grande queda por romances e poesia de guerra. A paixão era tanta que conseguiu entrar para a universidade no curso de Literatura Inglesa, mas não permaneceu por muito tempo no ambiente acadêmico. Chegou a se mudar para Londres, na casa de sua avó, e conseguiu um emprego como coveiro no Willesden Cemetery, onde ficava a maior parte do tempo lendo e escrevendo sobre os túmulos.

Barat e Libertines

Logo após o primeiro ano na Faculdade Queen Mary, Doherty abandonou seu curso e foi morar com o recém-conhecido amigo Carl Barat, que havia estudado com sua irmã mais velha. A ligação de Doherty e Barat era intensa e diferente: ambos discordavam em diversos assuntos, mas harmonizavam na criação artística e em pouco tempo começaram a assinar músicas em conjunto.

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O objetivo era formar uma banda, ambos tocavam guitarra e cantavam, mas ainda precisavam de mais integrantes. Então, diversas outras pessoas foram auditadas (personagens completamente deslocados, como um senhor de 70 anos e uma prostituta fizeram parte dos “músicos” avaliados) até que o baixista John Hassall e o baterista Gary Powell fossem chamados para fecharem a banda.

Apesar do lançamento de Up The Bracket marcar o ano de 2002, a banda já estava montada desde o fim dos anos 90 e o debut veio marcar o início de uma promissora trajetória para nosso drugstar. Doherty era adorado pelo pequeno grupo de fãs do Libertines e era considerado pela crítica como um ótimo letrista britânico.

Logo em 2003 seu vício tomou conta de sua vida pública. Foi preso por assaltar o apartamento de Barat, procurando discos, guitarras e qualquer objeto de valor que pudesse ser vendido para comprar drogas. Devido aos inúmeros shows que já havia perdido por estar sem qualquer condição de tocar, Barat sugeriu que ele deveria ficar afastado da banda e tentar se recuperar do vício em crack e heroína.

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Após alguns meses na cadeia, Doherty e Barat fizeram as pazes, chegaram a realizar um concerto surpresa em um bar e faziam planos para a volta do Libertines, mas Pete ainda não havia se livrado de seus vícios, por isso se internou numa clínica na Tailândia, onde apanhava com um bambu e tomava uma mistura de ervas que o fazia vomitar. Nosso querido herói não aguentou muito tempo e em três dias fugiu do lugar, voltando para Londres.

Em 2004, após o lançamento do disco homônimo, um estouro de público e crítica, Doherty foi expulso novamente de seu grupo, e novamente devido aos abusos com drogas e suas intermináveis encrencas públicas. Barat dizia que a banda esperava um Doherty limpo, embora todas as suas tentativas nunca funcionassem.

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Babyshambles e muitas, muitas prisões

Apesar de ser expulso dos Libertines, a vida musical de Doherty não podia parar. Fundou no mesmo ano o Babyshambles, banda que alcançaria sucesso com o single “Fuck Forever” e logo após com o debut “Down in Albion”. No fim de 2004, também foi eleito a pessoa mais cool da mídia pelo semanário musical NME, superando diversos outros artistas com a imagem bem menos manchada que a dele. Em 2005, as polêmicas começaram novamente.

Max Carlish é um documentarista britânico que se impressionou com a vida de Doherty e decidiu fazer um documentário sobre o ídolo da juventude inglesa. Ele seguiu Pete por todos os lugares em que ia durante cinco meses do ano de 2004, até que seus contatos minguaram e Carlish vendeu fotos em que Pete injetava heroína para o tablóide inglês The Sun.

Doherty o ameaçou e o bateu, sendo depois preso e liberado para julgamento. O caso foi arquivado por “falta de provas”.

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A carreira com o Babyshambles despontou como uma esperança para Doherty, que em 2005 foi preso três vezes em menos de 24 horas por porte de drogas, mas a cada ano sua vida ficou mais conturbada. Ainda em 2005, também apareceu em tabloides ingleses pelo início de seu namoro com a modelo Kate Moss, famosa por ser viciada em cocaína (seu apelido era “Cokate”).

O relacionamento durou dois anos e não resistiu ao vicio de ambos. Logo no fim, Kate teria entrado numa clínica de reabilitação e pedido para Doherty ficar limpo com ela. A sua negação em entrar para a clínica foi o que impediu que continuassem o namoro. Segundo o vocalista, Kate ainda telefona para ele quando está bêbada para papear sobre assuntos aleatórios.

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Já em 2007 o Babyshambles lançou seu segundo disco, ainda revelando grande talento musical de Pete, chamado Shotter's Nation. A vida de Doherty parecia um grande tormento contínuo de problemas, mas restava saber se esses problemas já não seriam parte de sua rotina. Pete trocou a calmaria pela tormenta. Por quê? Não se sabe.

Da música para o cinema e de volta para a música

“An Evening With Peter Doherty” foi o nome dado ao concerto mais ou menos acústico de Pete no pub Hackney Empire. O lugar lotou e Pete estava completamente em forma. Não podemos esquecer que tinha como companhia seu companheiro de Libertines, Carl Barat, que o acompanhou e cantou algumas canções.

A presença de palco de Pete era perfeita e compensava todas as faltas instrumentais deste concerto de custo baixo.

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Ele ainda se reuniu com seus companheiros do Libertines para mais alguns shows nos festivais de Reading e Leeds, em 2010. Segundo Powell, a reunião fez com que a química do grupo voltasse, “Nós começamos a ensaiar os quatro juntos, e tudo foi vagarosamente voltando… Parecia que as coisas estavam retornando aos seus lugares".

Foram seis anos separados e o retorno foi empolgante tanto para os quatro membros da banda como para o público dos festival. No festival de Reading, alguns fãs próximos ao palco foram esmagados durante o solo de Time For Heroes, e a banda teve que fazer uma pausa de vinte minutos até que a situação se normalizasse. Em ambos os festivais, Pete e Carl se mostravam em completa sintonia.

Entretanto, um ano antes deste festivais, nosso herói tentou suicídio ao completar 30 anos. Segundo Dohrety, não lhe agradava a ideia de fazer 30 anos e quando foi recebido no hotel com um bolo de aniversário, o jogou na cara do cozinheiro que o havia preparado.

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Sua tentativa de mudar de ares e embarcar em uma nova carreira começou com o filme Confessions of a Child of the Century. O filme (de 2012) é baseado no romance autobiográfico de Alfred de Musset, enquanto mantinha um relacionamento com a escritora Georg Sand. O protagonista até mesmo tem traços de Doherty, pois é um devasso parisiense que aproveita a vida com louvor, mas sua atuação não agradou ao público especializado.

Segundo Megan Lehmann, no Hollywood Reporter, "Com base na sua atuação de estreia ... o vocalista do Libertines e Babyshambles não deveria nem pensar em largar seu emprego fixo" e Baz Bamigboye, do Daily Mail, disse que o ator deveria ser preso no “Festival de Cinema de Cannes por não possuir nenhum talento como ator". O crítico ainda disse que Doherty simplesmente “não pode atuar”. Até mesmo seu andar e seu olhar foi criticado. “A câmera não gosta dele […] ela o detesta”.

A péssima recepção de seu filme talvez tenha sido esquecida após o lançamento de Sequel To The Prequel, em 2013, pelo Babyshambles. O disco recebeu críticas boas (ficando em décimo lugar nos charts britânicos), no geral, e já tem duas músicas de trabalho: "Nothing Comes to Nothing" e "Fall From Grace".

Poeta drogado

Doherty já foi preso mais de 20 vezes e talvez o seu status de estrela do rock britânico o tenha livrado de passar anos esquecido numa cela imunda. Sua vida foi regada à poesia, romance e drogas, muito similar aos ultrarromânticos (até mesmo àquele que ele interpretou porcamente em Confessions...).

10_pete_doherty.jpg Pete estrelando seu primeiro filme.

Mas de onde vem isso? Com certeza não saberemos, isso não é da alçada de ninguém. Talvez entender que o vício em drogas tenha mudado sua rotina, de uma maneira em que ele só “funciona” enquanto está sob o efeito da heroína, seja o primeiro passo para sacar um pouco de Doherty.

É claro que as prisões, o uso de drogas no set de filmagens, jogar o bolo na cara do chef, roubar seu melhor amigo e tantas outras canalhices são parte da construção do “mito” Peter Doherty. Não é somente um rapaz com problemas, mas é também a construção de um sujeito.

O poeta bêbado precisa continuar a fazer suas músicas. Precisa continuar em seu emprego fixo. Mas será que ainda consegue? Doherty tem uma legião de fãs que provavelmente amam muito mais que suas músicas, que amam sua vida, seu estilo junkie de levar sua existência.

A figura do músico acaba ultrapassando, aqui, a própria música e – evitando qualquer discurso moralista, afinal, cada um sabe a substância que injeta nas veias ou que traga para o pulmão – talvez seja a hora de repensar o que vale mais à pena.

Abaixo o sabor de Fuck Forever, o hino de Doherty pós-libertines:


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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