Drogas, ganância e violência: o Lobo de Wall Street em alto estilo

Drogas, festas e muita ganância. Assim pode ser descrita a vida de Jordan Belfort, corretor da bolsa de New York, interpretado por Leonardo DiCaprio, que se utiliza de meios ilegais para aumentar rapidamente sua fortuna.


Logo na primeira cena é possível ver uma discussão sobre o uso de dois anões para uma festa dentro do escritório. O que há de bizarro nisso é a seriedade e a forma como tudo é discutido. São fanfarrões, mas são fanfarrões corporativos. Prezam pela segurança dos anões, mas prezam pela integridade da imagem da corporação. Os anões precisam pensar que “fazem parte” da brincadeira, não que são objetos que serão jogado em grandes alvos colocados na frente de todo o escritório.

Assim o filme é levado: de maneira maquiavélica. Não interessa obedecer regras morais, a não ser que elas sirvam como trampolim para conseguir mais dinheiro ou para garantir mais prazeres. Não há nada que deva ser aceito só porque é “bom”. A vida dos corretores precisa ser uma vida agressiva, cheia de luxúria.

03_the_wolf_of_wall_street.jpg "O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese.

04_the_wolf_of_wall_street.jpg "O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese.

Jonah Hill, conhecido por seus papeis em comédias como “Superbad” e “Ligeiramente Grávidos”, interpreta Donnie, parceiro de Belfort que se impressiona com seus lucros mensais e decide entrar de cabeça neste ramo. Também extasiado com a quantidade de dinheiro que entra em sua conta, Donnie passa a esbanjar uma vida similar a de seu sócio, com abuso de drogas e sexo.

Vale dizer que o filme trata perfeitamente da alienação do empregado na pós-modernidade. Todos “vestem” a camisa, todos dão a vida pelo líder carísmático que Belfort representa, todos amam a empresa. Os empregados não se dão conta de que são explorados dentro de seu ambiente de trabalho e de que o grande lucro vai para a diretoria.

05_the_wolf_of_wall_street.jpg "O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese.

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Todos estão conquistados pela “grande família” que a empresa pode oferecer. E não é assim que as grandes empresas fazem atualmente? Devemos amar nosso trabalho e devemos amar nosso local de trabalho. É uma obrigação.

O líder tem que mostrar a vida que todos precisam desejar. Ele esbanja, mas não só para satisfazer seus prazeres, mas para mostrar que esses prazeres estão a disposição de todos os liderados. Todos os corretores poderão ter iates, só precisam trabalhar muito e vender a qualquer custo.

07_the_wolf_of_wall_street.jpg "O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese.

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Quando o casamento de Belfort acaba, a primeira coisa que vem à cabeça é “ela se separou porque ele ficou pobre”. Mas antes de culpar sua esposa consumista, o próprio casamento foi construído em cima de sua fortuna. A fortuna era a base da relação de ambos – não só o fato do Lobo ser rico, mas também de sua vida de luxos, de suas aventuras pelo mundo e etc. Portanto, se todo esse conforto acaba, por que ter que ficar ao lado de um cara chato, pobre, e que a trai toda semana? Não há mais motivos, o casamento se perde.

O roteiro do longa ficou a cargo de Terence Winter, que já havia trabalhado na série “Os Sopranos” e no filme “Fique Rico ou Morra Tentando”, que também retrata a vida conturbada de uma personalidade famosa (no caso, o rapper 50 cent). E podemos anunciar um destaque especial para a cena do Lemmon.

09_the_wolf_of_wall_street.jpg "O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese.

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Lemmon é um tranquilizante proibido, guardado por Donnie para ocasiões especiais, e utilizado desregradamente por ele e Belfort. O efeito demora para bater, mas quando bate, é terrível. Belfort não consegue nem mesmo andar. Dirige seu carro com extrema violência e não consegue falar duas palavras seguida. Ao ver um desenho do Popeye, quando come o espinafre e ganha energias, ele tem a ideia de pegar um frasquinho de cocaína para cortar a brisa dos tranquilizantes e recuperar suas energias. De um jeito fantástico, tudo dá certo e a adrenalina do espectador salta para níveis absurdos!

Para completar as polêmicas com o filme – que é baseado em uma história real - um dos corretores retratados entrou com um processo de $ 25 milhões, por difamação e violação de direitos de imagem, após ser retratado como um drogado e depravado sexual. Este privilégio não foi só dele, todos os corretores da Stratton Oakmont, empresa fundada por Belfort, são cruamente exibidos como sujeitos agressivos e de índole certamente duvidosa.

O toque de Scorsese também se faz notar nos aspectos técnicos, a câmera lenta em momentos tensos, já vista em “Bons Companheiros” e “Cassino”, aqui já é esperada e confirmada nas cenas de abuso de drogas, assim como a presença de um narrador (o próprio Belfort) explicando sua história com parênteses para referências aleatórias e nonsense em cenas vitais.

Não rendeu a Leonardo DiCaprio o seu supervalorizado Oscar, mas lhe proporcionou a possibilidade de entrar num mundo que nunca antes havia tocado, mais ainda, de destrinchá-lo e exibi-lo para todo o restante do mundo.


vinicius siqueira

tem seu interesse fixado em sociologia francesa e psicanálise freudiana. Ainda é um estudante, mas quem não é?
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