Nico: anjo e demônio

Nascida na Alemanha no alvor da 2ª Guerra Mundial, Nico tornou-se um ícone do século XX. Da moda para o cinema e deste para a música, a cantora germânica alimentou os mitos das grandes lendas em torno da sua imagem. Da inocência ao excesso, da beleza à decadência, a sua história é fascinante e o seu legado ainda inquietante.


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A entrada de Nico no mundo da música foi feita pela mão de Brian Jones, lendário guitarrista dos Rolling Stones. Foi ele igualmente o responsável pela sua introdução no universo privado do ícone da Pop Art, Andy Warhol. A notoriedade da modelo levou-a a conhecer e a gravar canções de alguns nomes marcantes da década de 60, como Bob Dylan ou Tim Hardin, mas foi graças a Warhol que a memória de Nico se tornou lenda. Em parte através dos filmes experimentais do artista nova-iorquino, como Chelsea Girls ou I, a Man, mas sobretudo enquanto primeira voz e rosto dos Velvet Underground.

06_the_velvet_underground_&_nico.jpg Nico, álbum "The Velvet Underground & Nico"

The Velvet Underground & Nico é considerado um dos discos mais importantes do século XX, apesar de ter sido praticamente ignorado aquando do seu lançamento. Nico foi praticamente imposta por Andy Warhol ao grupo de Lou Reed e John Cale e a relação não excederia essa obra. No entanto, é na fricção e na aparente incongruência entre o rock vanguardista do grupo e a voz gélida e monolítica da cantora que reside uma das imensas singularidades geniais da música e temas como Femme Fatale, All Tomorrow's Parties e I'll Be Your Mirror tornaram-se imortais.

07_nico_chelsea_girl.jpg Nico, álbum "Chelsea Girl"

A estreia a solo da modelo feita cantora deu-se em 1967 com a edição de Chelsea Girl. O disco enfatiza as tendências folk dos compositores que lhe cederam as suas canções, assim como um certo cinzentismo urbano e acaba por ser uma delicada filigrana, suavemente melancólica e introspectiva, algo bem patente em These Days, Chelsea Girls ou Winter Song. Rezam as crónicas que o resultado final do álbum defraudou bastante as expectativas de Nico e, a partir daí, a sua música endureceu e enegreceu. Assim como a sua vida.

08_nico_the_marble_index.jpg Nico, álbum "The Marble Index"

The Marble Index é considerado um dos discos mais assustadores de sempre. Um monumento negro, glacial e sepulcral, em total clivagem com o véu quase inocente que cobria o seu antecessor. Não será exagero afirmar que o futuro rock gótico encontra aqui o seu Santo Graal e que toda a morbidez que lhe é associada converge para esta austeridade excessiva. Mas enquanto o gótico descamba não raras vezes para uma paródia de si mesmo, a música de The Marble Index é genuinamente séria e o frio do seu abraço arrebata-nos e repele-nos. Nico toca apenas um harmónio, instrumento com o qual viria a ganhar uma ligação quase obsessiva, sendo acompanhada por John Cale, cuja produção e esparso acompanhamento musical contribuem em muito para a atmosfera rarefeita do álbum. Não existem altos e baixos, apenas uma continua e grave pungência que deve ser ouvida como um todo. Para ser eternamente arrabatado ou para nunca mais voltar.

09_nico_desertshore.jpg Nico, álbum "Desertshore"

Um ano depois, 1970, surge Desertshore, obra mais desanuviada tendo em conta os parâmetros de The Marble Index, mas igualmente sombria e, a espaços, desolada. Ecos neoclássicos impõem-se ao negrume gótico e funcionam como os poucos raios de sol que penetram os arranjos densos mas ricos em detalhe do fiel colaborador John Cale. A voz de Nico mantém a tonalidade espectral e despojada de emoção que parece querer repelir o ouvinte ao mesmo tempo que o seduz. Desertshore é novamente um disco curto em termos de duração, mas o peso existencial que carrega nos ombros causa uma ressonância que transcende o tempo. A vida pessoal de Nico, especialmente a amorosa, foi sempre atribulada. Plena de um romantismo negro de paixões impossíveis ou mal resolvidas. Especula-se que o seu filho Ari Boulogne (que segura as rédeas do cavalo na capa do disco e canta em Le Petit Chevalier) seja fruto de uma relação não confirmada com o actor francês Alain Delon. Sabe-se que Lou Reed e John Cale disputavam a sua preferência nos tempos dos Velvet Underground e que foi musa de Bob Dylan. Mas a verdadeira alma gémea de Nico terá sido o vocalista e líder dos Doors, Jim Morrison.

10_nico_the_end.jpg Nico, álbum "The End"

A relação terá sido curta e intempestiva, mas Nico nunca terá recuperado da morte de Morrison em 1971. Parceiros nos excessos e na poesia, essa perda exacerbou mais ainda a aura depressiva da cantora alemã. O seu quarto álbum, apropriadamente intitulado The End... é o mais emocionalmente lúgubre da sua discografia, um requiem pelo amor e um passeio pelas trevas assombradas da memória. A voz monótona e fantasmagórica acompanhada pelo omnipresente harmónio continuam presentes, mas desta vez juntam-se ao igualmente omnipresente John Cale as electrónicas atmosféricas de Brian Eno e a guitarra do Roxy Music Phil Manzanera. O que se ergue desta aliança é devastador. It Has Not Taken Long, You Forget to Answer ou o arrepiante e sinistro Innocent and Vain são mergulhos no mais escuro da alma humana, pontos onde poucos ousaram tocar. A entrega dramática que envolve a interpretação de The End, transforma a canção dos Doors que dá título ao disco numa longa travessia, ainda mais escura e fria que o original. E o álbum termina com a provocatória rendição de Das Lied Der Deutschen, o hino alemão que, mais que a nostalgia de um passado infame, parece ser a nostalgia de uma inocência há muito desvanecida. Mais uma vez a eterna dualidade de Nico, que tanto beija como morde.

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Os sete anos seguintes foram passados em silêncio discográfico e esporádicas participações cinematográficas, nomeadamente em películas de Philippe Garrel, com quem Nico manteve uma relação até 1979. Anos de dependências de substâncias, especialmente da heroína, começavam a deixar marcas visíveis e a outrora ariana e esfíngica Nico voltava ao seu natural cabelo escuro e o rosto perdia juventude e vitalidade com evidência. O regresso à música com Drama of Exile revela este fardo de excessos e é uma experiência semi-falhada. Para trás ficaram o harmónio e as ambiências espectrais e demenciais, sendo que o álbum mostra claramente um flirt com as estéticas pós-punk da época. Apesar de enérgico, o reencontro de Nico com o rock padece de uma produção algo lamacenta, sendo que as pérolas a merecer real destaque são Orly Flight, Purple Lips e uma propulsiva e marcial versão de Heroes de David Bowie.

12_Nico_at_Lampeter_University_November_1985.jpg Nico na Universidade de Lampeter, Novembro 1985

Em 1985, surge Camera Obscura, o último álbum da cantora. É uma obra menor, sem o peso e a acutilância das que antecederam. O antigo comparsa John Cale regressa à cadeira da produção, porém, das sombras vampíricas da década de 70, apenas restam remendos de uma mortalha gótica que assusta mas não traumatiza. Das Lied vom Einsamen Mädchen e My Funny Valentine serão os capítulos mais inspirados do disco que foi igualmente o canto do cisne de Nico.

Ibiza, 1988. Desintoxicada e em férias com o filho, Nico passeia de bicicleta. Um coração traidor, uma queda que lhe fere a cabeça, e Nico parte deste mundo. Para onde foi nunca saberemos. Mas imaginamo-la numa Valhalla ideal, de longo manto negro, a entoar no seu harmónio cânticos para os Deuses obscuros.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.
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